PROJETOS IMPORTANTES FICAM DE FORA POR FALTA DE QUORUM
Mesmo com 23 vereadores eleitos para a Câmara Municipal de Vitória da Conquista, com cerca de 400 mil habitantes, muitos projetos importantes de interesse da população têm sido adiados por falta de quórum na votação.
Isso é lamentável quando os próprios parlamentares dizem que o legislativo é a Casa do Povo e só existem duas sessões por semana. As justificativas não se justificam quando os faltosos argumentam que eles estavam em outras obrigações políticas na ausência. Entendo que as sessões devem estar acima de quaisquer outras atividades. É só programar suas agendas.
No entanto, na sessão de ontem (quarta-feira, dia 1º de abril), entre as pautas, foram discutidos diversos projetos, destacando a proposta que dispõe sobre a instalação de grades de proteção metálicas ou estruturas de concreto nos canais de drenagem pluvial no âmbito do município.
Outro projeto em debate foi o Programa de Coleta de Exames e Vacinação em Domicílio para Pessoas com Tratamento do Espectro Autista e outras deficiências. Também em discussão, a entrada e permanência de animais de estimação em estabelecimentos de saúde pública e privada; o que declara as abelhas nativas sem ferrão como patrimônio natural do município, dentre outros.
Durante a sessão ordinária, falaram os vereadores presentes, como Andreson que lembrou os 25 anos de fundação da Igreja Batista da Paz. O parlamentar elogiou a realização do I Fórum da Indústria e do Comércio, uma promoção da Câmara. Disse que durante o evento, os empresários reclamaram sobre os custos dos impostos municipais sobre imóveis e pediram uma forma de redução.
Andreson ainda informou do seu encontro com o deputado federal Waldenor Pereira que juntos visitaram o Projeto Mãos que Acolhem, de dona Maria, e combinaram apoiar na restauração da unidade para que tenha uma melhor qualificação.
Ricardo Babão falou do Renato Magalhães e de outros bairros adjacentes que foram afetados pelas chuvas. Afirmou ter conversado com a prefeita para que aquelas localizações recebam pavimentação asfáltica com os recursos do empréstimo dos 400 milhões da Caixa Econômica Federal.
A vereadora Cris Rocha cobrou da prefeitura a realização urgente da Operação Tapa Buracos na cidade, bem como no distrito de São Sebastião. Ela destacou ainda a questão das obras da Avenida Brumado que precisam ser aceleradas e que os serviços sejam feitos em horários planejados que não compliquem o trânsito naquela artéria.
Luiz Carlos Dudé enfatizou a importância das liturgias católicas da Semana Santa e convidou a todos para a caminhada de fé e oração, na próxima sexta-feira, saindo da Praça Sá Nunes até o monumento do Cristo de Mário Cravo, no topo da Serra do Piripiri. Disse esperar a presença de mais de 15 mil pessoas.
Usou também da tribuna a vereadora Gabriela Garrido, comunicando sua ida a Salvador onde solicitou apoio de deputados para implementação de políticas públicas nas escolas visando a promoção de eventos no combate à violência contra as mulheres. Lembrou que abril é o mês do autismo e disse ser necessário um trabalho de assistência que ampare as famílias com filhos autistas, especialmente direcionado às mães.
A GENTE FALA MUITAS BESTEIRAS
Sem sentir, de forma impensada, no dia a dia os brasileiros falam muitas besteiras, termos carimbados, clichês, expressões e frases contraditórias, engraçadas e ilógicas, isto tudo sem perceber. Mesmo assim, na nossa cultura, elas têm seu devido sentido. A nossa língua tem dessas coisas e nos trai.
Não consigo entender, por exemplo, esse “obrigado” natural quando alguém lhe faz um favor. Dá a impressão que a pessoa realizou aquela ação por obrigação. Não deveria ser agradecido? Fica dúbio. Dizem que somos descentes diretos dos macacos, nosso ancestral, mas temos muito do papagaio imitador.
Quando alguém está em estado terminal, com uma doença grave, todos comentam que o paciente “está correndo risco de vida”. Na lógica seria até bom porque existe esperança de continuar a viver. O certo não seria estar correndo risco de morte?
Outra expressão que me deixa intrigado é “estou correndo atrás do prejuízo” quando se leva um tombo financeiro ou se está passando dificuldades de outras espécies. O correto não seria estou correndo atrás do lucro? Correr atrás do prejuízo é piorar ainda mais a situação.
Em conversas entre amigos, em encontros ou até mesmo numa mesa de bar sobre assuntos amorosos, ouve-se a frase de que “meu casamento não é um mar de rosas”. Não é mesmo, porque as rosas têm espinhos no caule. Não quero mesmo esse mar de rosas. Sabemos se tratar de uma metáfora ou sentido figurado.
“Tem, mas acabou”. Como é que uma pessoa possui uma coisa, objeto ou produto, mas acabou. Todo mundo fala isso sem observar a contradição, o paradoxo. Como “tem, mas acabou”? No comércio em geral se ouve muito isso de vendedor ou lojista.
“Vê aí o áudio que eu te mandei”. Como alguém pode ver um áudio. O certo não seria escrever escuta o áudio? Outra frase que soa até hilária é responder “não conheço, mas sei quem é”. Como você sabe quem é, se nem conhece a pessoa em referência? “Tá louco, meu”!
O pai, a mãe ou o responsável pelas despesas da casa, acorda cedo e reclama para o desleixado (a) que “a luz dormiu acessa”. Ora, meu amigo, luz não dorme, quanto mais quando ela está acesa. “Tô com fome de comida, agora é só amanhã”. Fica bem complicado e confuso entender o sentido. Amanhã vai continuar com fome de comida?
“Não vi nem o cheiro”. Ninguém ver cheiro, sente. “Tá ruim, mas tá bom”. Essa não dá para se engolir. Se a coisa está ruim, não pode estar boa. Você chupa uma fruta bem azeda e diz que está boa? Assim por diante, vamos soltando esses dizeres contraditórios e sem lógica.
Esse negócio de fazer seguro de vida me deixa encafifado. Não deveria ser seguro de morte? Por acaso, a vida tem seguro para não morrer? Outra expressão que não bate em minha cachola e com a nossa realidade social e política deste sistema perverso é dizer que “todos somos iguais perante a lei”. Não é assim que funciona quando ela se trata de julgar um pobre e um poderoso.
Além desses termos esdrúxulos, soltamos muitas coisas que saem do nosso subconsciente ou inconsciente que aprendemos desde os tempos da infância com os nossos país. A maioria tem raízes culturais religiosas que estão entranhadas no nosso povo brasileiro.
Não dá para encarar com seriedade que a “voz do povo é a voz de Deus”. Os eleitores, por exemplo, votam nesses políticos ladrões, bandidos e corruptos e foi Deus quem os elegeu, quem mandou? Nos últimos 30 ou 40 anos, o Rio de Janeiro só deu governador envolvido com maracutais. Quer dizer que aí está a voz de Deus?
Tudo que conseguimos ou alcançamos, dizemos “graças a Deus”. Até ateu fala isso de forma maquinal. Fulano ganhou na loteria, “graças a Deus”. Percebeu que Deus está em tudo, até quando o time de futebol sai vencedor ou o jogador faz um gol. “Fiz um gol, graças a Deus”. Ele está até no dominó, na dama, no baralho e jogos de azar. O bandido diz graças a Deus quando executa sua ação com sucesso e ainda mata um bocado de gente.
O cara compra uma calça nova, um celular, um carro e supérfluos e sai por aí dizendo que foi Deus quem deu. Tem aquela antiga do pobre que tem dez filhos e fala que foi “assim que Deus quis”, ou “foi Deus quem quis”. “Seja o que Deus quiser” é bem corriqueiro.
A SAÚDE PEDE SOCORRO EM JACOBINA
Milhares de pessoas estão morrendo lentamente antes do tempo na Bahia e no Brasil nesses hospitais públicos que são verdadeiros atentados contra a saúde. Há anos que essa situação só faz se agravar e os governantes não tomam as devidas providências.
O nosso povo pobre conformado e desamparado não tem reagido à altura para mudar esse quadro de terror que se estabeleceu dentro das unidades hospitalares, mas muita gente, com toda razão, tem partido com agressividade contra profissionais do setor que estão sobrecarregados. Ninguém suporta mais tanto descaso!
O Hospital Regional Vicentina Goulart, em Jacobina, é um exemplo clássico dessa aberração desumana em se tratando da saúde. Na semana passada perdi minha irmã Margarida Macário de Oliveira Fernandes naquela unidade por negligência médica, falta dos cuidados básicos da medicina e por causa da precária higienização.
Poderia estar aqui desabafando por se tratar da minha irmã, mas todos que passam por ali são empurrados a um sofrimento além da conta, terminando em óbitos que poderiam ter sido evitados. Aquilo ali é um foco de infecções, sem falar que não existem profissionais suficientes para melhor cuidar dos pacientes.
Minhas duas sobrinhas, Leda e Vanda Macário, que por dias acompanharam sua mãe no leito de morte, são testemunhas vivas do que presenciaram lá dentro, especialmente numa enfermaria lotada onde era raridade aparecer uma enfermeira quanto mais um médico.
Em uma noite, embora já tenha citado este episódio em comentário anterior, Vanda disse ter vivido uma madrugada de terror quando a glicemia da sua genitora subiu para 500, isto por volta das 23 horas, e não tinha uma enfermeira para aplicar uma insulina para controlar sua agonia de quase morte. Somente por volta das três horas da manhã apareceu uma profissional para estabilizar a paciente. Dias depois desse acontecido ela veio a falecer.
Outro caso grave foi minha irmã ter passado praticamente um dia sem a alimentação líquida porque o canal por onde caia o alimento ficou bloqueado e ninguém viu. Por acaso, minha sobrinha percebeu que sua mãe não estava sendo alimentada pelo “tubo” e correu desesperada à procura de alguém para resolver o problema.
Como é que dentro de um hospital, pacientes, acompanhantes e até funcionários convivem dia a dia com sanitários entupidos? Foi o que minhas sobrinhas presenciaram dentro do Hospital de Jacobina, sem contar num bebedouro sem nenhuma higienização, de onde a água era servida aos pacientes em estado grave.
Fui visitar minha irmã quando estava na UTI coletiva e fiquei horrorizado ao ver a lotação de parentes no local. Todos entram de uma vez, após uma fila num banheiro apertado para lavar as mãos e colocar uma máscara. Não é preciso ser médico ou infectologista para compreender que só deveria entrar uma pessoa de cada vez, como precaução básica contra contágios de outras doenças hospitalares e de fora.
Na verdade, não existem os mínimos cuidados da direção para prevenir infecções, tanto entre os visitantes como entre os doentes na UTI e nas enfermarias. Pela perda do seu filho numa operação, uma senhora colocou toda sua raiva para fora e saiu quebrando equipamentos e deu vassourada num médico.
É um hospital onde até os profissionais correm risco de morte. Senhor governador e secretário da saúde, tomem providências urgentes antes que ocorra o pior. Afinal de contas, um hospital é para cuidar bem e salvar vidas humanas, e não o contrário.
LEMBRANÇAS DA QUERIDA PIRITIBA
Todas as vezes que vou a Piritiba, na Bahia, Piemonte da Chapada Diamantina, para visitar parentes (alô Leucia, primo-irmão Roque que já se foi, Roquinho, Ronieri, Rocia e Dadai) e alguns velhos amigos, são momentos de recordações do passado de menino moloque e também de tristeza quando vejo que antigos prédios históricos foram derrubados por administrações desmemoriadas, para dar lugar a novos equipamentos.
Dessa última vez, por exemplo, na semana passada, fiquei chocado e doeu muito quando passei pelo colégio Almirante Barroso, onde aprendi a escrever e a ler as primeiras letras e fiz meu primário. A escola, praticamente centenária, por onde passou milhares de alunos, está abandonada, caiando aos pedações e servindo de entulhos e coisas velhas da Prefeitura Municipal.
Como um dos mais antigos filhos, faço um apelo à prefeita Leandra Belitardo Barreto de Andrade Lima, do Solidariedade para que preserve nosso patrimônio. Seu foco de campanha foi educação e desenvolvimento, mas está provando o contrário, senhora prefeita, e, por ironia, não está sendo solidária em termos de conservação e reforma de um colégio que fez em tem história. Dalí saíram grandes nomes. Pelo menos, faça jus ao seu extenso nome.
Como em outras cidades da Bahia e do Brasil, que fazem questão de acabar com o patrimônio cultural e arquitetônico, o prefeito passado cometeu o crime de colocar abaixo o prédio da antiga prefeitura, que teve como primeiro mandatário, o Dr. Carlos Ayres de Almeida (PSD), eleito em 3 de outubro de 1954.
Oestado
O estado da primeira escola primária de Piritiba
No lugar, tão representativo para o município, foi construído um parquinho feio, sem muita utilidade, no final da popular “Rua dos Ricos” (naquela época nem era calçada). Confesso que evito olhar para o local. Assim eles vão destruindo nossa história com alegações de que o edifício estava condenado.
Vi outros pontos que foram descaracterizados, como um velho armazém de 100 anos onde na frente construíram uma lanchonete (sempre fechada). Não me lembro bem o nome da rua, só que em sua antiga calçada sentavam os moleques, como eu, para prosear, contar causos e brincar de esconde-esconde, de Cauboy, pau de bosta, jogo de gude, jogar pião, chicotinho queimado e até brigar com a turma da Rua de São Domingos. Era a rixa entre a rua de cima contra a rua de baixo.
Recordo bem que, naquela época, a gente comentava muito sobre a seleção brasileira campeã da Copa de 1958, na Suécia, com Pelé, Garrinha, Didi e outros craques que não existem mais. O armazém, de João Vermelho, era mágico como ponto de encontro de todas as noites da cambada que se sujava na terra.
A usina a diesel sustentava a luz até 10 horas (antes dava três sinais de aviso), mas a gurizada ficava até mais tarde na escuridão, para furtar frutas nos quintais e fazer outras tripolias. Para mim foram tempos sagrados.
Lembro de uma vez, quando estava trepado numa árvore frutífera (manga ou mamão), a mulher acordou assustada e me chamou de ladrão tarado. Foi uma carreira só e pulei o muro como um gato. Fazíamos questão de realizar essas aventuras puramente por prazer e para contar vantagens para os amigos. Cada um armava da sua.
Bons tempos de furtar melancias, umbus e queimar mandaçais e arapuás. Certa vez queimei um pasto ao tocar fogo na colmeia num galho de árvore e ainda tive o atrevimento de avisar ao dono que sua “manga” estava em chamas.
Meu pai, Mateus Macário, que tinha um terreno no Caldeirãozinho e era lavrador, nem sonhava saber dessas “loucuras” de moleque porque era pisa certa de reio, palmatória e cinturão. A repreensão era severa e fui pego com um batoque de matar passarinhos. Foi surra na certa. Bem que minha mãe me avisou!
Em Piritiba, morava na casa do casal Maricas e Nemézio para estudar, mas passava mais o tempo lendo gibis de Ritim-Tim, Zorro, Búfallo Byll, Tarzan, Roy Roggeres, Super-Homem e outros cauboys e “heróis” norte-americanos. Trocávamos essas revistinhas entre os colegas.
Queimava as aulas para tomar banho no Rio Maxixe onde aprendi a nadar. O que menos gostava era das férias porque retornava à roça para plantar mandioca, fazer farinha e vender na feira. Ficava com aquela vergonha quando aparecia um coleguinha de escola e me via vendendo na feira ao lado do meu pai. Sentia-me inferiorizado.
No período das aulas, me virava para ganhar uns trocados (tostões ou reis) para comprar gudes, gibis e ir ao circo quando aparecia na cidade. Pegava malas dos passageiros na estação ferroviária do trem de passageiros que ia até Senhor do Bonfim. Vendia lenha (quase não existiam fogões elétricos), água no “carote” transportada por jumentos e passava recados dos outros.
Na Praça Getúlio Vargas, ainda no chão poeirento, jogava baba quase todas as tardes, aquele de várzea com muitas pernas de paus, gritos, zoeiras, palavrões e brigas. Os moradores nos xingavam de moleques vagabundos e quando a bola caia dentro de um bar em frente, o dono ameaçava cortar a velha bola.
Primeira igreja presbiteriana de Piritiba
São muitas histórias e lembranças, como dos “doidos” Zabelê e Jegão. Eles viravam o “cão” quando os chamavam pelos apelidos. Quando eles iam passando, a meninada armava um esquema. Cada grupo ficava numa esquina diferente. De uma ponta um gritava Zabelê e da outra Jegão. O casal se separava e aí era só correria e pedradas.
Existiam ainda umas famosas fofoqueiras em Piritiba que faziam sucesso, sabiam da vida de todos moradores e eram temidas por causa de suas línguas ferinas. Fosse nos tempos atuais da tecnologia das redes sociais, com certeza teriam milhões de visualizações e seguidores.
Casos e causos a parte, tristeza pela derrubada de antigos equipamentos, mas amo minha querida Piritiba que em tupi-guarani quer dizer sítio do junco, atualmente com cerca de 18 mil habitantes. Naquela década de 50, possuía uns três mil habitantes.
Em consideração por ter ali me criado e depois como sacristão da vizinha Mundo Novo, do vigário Nicanor, e de lá ter partido para Rui Barbosa, depois para o Seminário de Amargosa, para ser padre, jornalista em Salvador, resolvi doar todo meu acervo cultural de mais sete mil itens a este município, mas a impressão é que os administradores não gostam de cultura e não deram uma resposta definitiva.
Piritiba, com sua origem ligado ao povoado de Cinco Várzeas, foi fundado por João Damasceno. Foi emancipada em 27 de setembro de 1952 pela lei estadual 503. Depois o ato foi extinto e reanexada a Mundo Novo, em 1956. Somente em três de agosto de 1958, pela lei 1.014, foi definitivamente emancipada. No entanto, seu aniversário é comemorado em 27 de setembro.
DOMINGO ERA GALINHA COM MACARRÃO
(Chico Ribeiro Neto)
Tem prato de mãe que é inesquecível. Um que Dona Cleonice faz até hoje é bem simples, não entra carne nem frango, mas é uma delícia: chuchu com ovos. A simplicidade é enriquecida com temperinho verde e o prato fica uma delícia. Como diz o outro, “você esquece até que não tem carne”. E ainda tem a cara de satisfação da mãe, à mesa, perguntando se a gente quer mais. Pois é: mãe que é mãe fica olhando o filho comer.
Os pratos têm a cara do dia. Sexta é dia de peixe, sábado é sarapatel e domingo é feijoada ou macarrão. Bife tem cara de segunda-feira, a terça parece com um cozido e a quarta talvez uma galinha de molho pardo ou fígado. Quinta é um dia meio indefinido pra comida, mas pode vir um lombo, daqueles que aguentam na geladeira até domingo e o caldo vai ficando cada vez mais gostoso pra uma farofinha.
Galinha com macarrão é a cara do domingo quando eu tinha 10 ou 12 anos. Caldo bom, gostoso, galinha morta ainda de manhã no quintal, “a moela é minha”, “mentira, mamãe, é que ele já comeu o coração”, “vê se deixa um . pouco do caldo qu’eu também quero”.
Depois da galinha, comida ainda procurando assento na barriga, uma “lapa” de goiabada pegada de mão mesmo, a boca toda melada e a roupa já pronta pro cinema, tudo ligeiro porque a sessão era às duas da tarde.
A Coca-Cola era pequena, mas dava pra dividir. Vixe, tá na hora de sair senão não pega o filme começando. Mamãe dá pouco dinheiro, a gente faz cara feia e consegue mais. Cleomar, meu irmão, sai na frente me dando pressa. Já no cinema, depois do segundo tiro, o primeiro arroto.
Era o Cine Santo Antônio, ali numa rua que vai dar no Convento de São Francisco, em Salvador. Se ainda restassem alguns minutos pra começar, trocávamos revistas ou vendíamos algumas apurando o dinheiro da pipoca ou do picolé na saída.
Lá dentro, a felicidade superava o imenso calor, o grito era fácil e o coração batia junto com as badaladas que anunciavam o início do filme. Aliás, dois filmes e um seriado. A gente entrava no cinema às duas e já saía com o dia escuro e a cabeça cheia de aventuras. “Será que o artista do seriado vai ficar uma semana pendurado naquele galho em cima da cachoeira, com mais de 20 bandidos lá embaixo atirando?”
Poucos anos depois, o Cine Santo Antônio fechou. Quando estava ali perto, gostava de passar pela porta do cinema, mesmo fechado, para olhar aquela sala de espera com o chão de azulejos e o portãozinho verde, que quando o porteiro abria era o estouro da boiada. Depois do filme, descer a ladeira correndo era uma delícia e tinha conversa pra chegar até em casa e ainda sobrava: “Você viu naquela hora?”.
Ver o filme “Cinema Paradiso” foi uma viagem ao Cine Santo Antônio.
(Crônica pulicada no jornal A Tarde em 25/7/1990)
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)
PRIMEIRO FÓRUM DA INDÚSTRIA DEBATERÁ DESENVOLVIMENTO REGIONAL
A Câmara Municipal de Vitória da Conquista irá promover, pela primeira vez, nos próximos dias 30 e 31 (segunda e terça-feira) o 1º Fórum da Indústria, Comércio e Logística, com o objetivo de impulsionar o desenvolvimento regional e fortalecer parcerias estratégicas.
O evento será um espaço de diálogo entre os setores produtivos e o poder público, focado nas inovações e qualificações diante dos novos cenários tributários do país. O encontro está marcado para ser aberto na segunda-feira à noite, com a palestra de Evandro Mazo, diretor regional do Senai/Bahia. Ele é referência em qualificação profissional.
Sua palestra irá abordar a importância das parcerias institucionais e da inovação como motores para o crescimento sustentável da indústria local. O segundo dia (31), contará com uma agenda intensa dividida em diversos eixos.
Pela manhã haverá o Painel da Indústria, com Roberto Kawabe, do Observatório da Indústria, quando falará sobre os Desafios e Perspectivas para a Indústria Regional. O debate ainda será enriquecido com a apresentação de experiências práticas por Calebe Almeida, do Grupo DASS, Jorge Chiacchio (Grupo Chiacchio) e Ronaldo Bulhões, da ZAB.
Ainda pela manhã, ocorrerá o Painel do Comércio, com foco na Reforma Tributária, tema central para o empresariado. Essa exposição ficará a cargo do advogado tributarista Júlio N. Nogueira, contando com os especialistas Pedro Eduardo Pinheiro Silva, Sarah Amorim Bulhões e Victor Barbosa Dutra na mesa dos debates.
Na parte da tarde, o Fórum irá focar nas questões dos desafios da gestão pública, com painel conduzido pelo secretário municipal de Desenvolvimento Econômico, Marcos Ferreira. A mesa será composta pelo presidente da Câmara de Vereadores, Ivan Cordeiro, Bruno Pena, da Câmara de Comércio de Portugal, Rogério Teixeira, superintendente da Caixa Econômica Federal e Jackson Yoshiura, secretário municipal de Infraestrutura.
HOSPITAL REGIONAL DE JACOBINA EM ESTADO DE CALAMIDADE PÚBLICA
É correto dizer que a saúde pública no Brasil é uma calamidade pelo total descaso dos governantes com o setor. Os pobres morrem à mingua antes do tempo nas UTIs, nas enfermarias e nos corredores das unidades por total falta de estrutura.
Enquanto isso, os governos municipal, estadual e federal fazem propagandas falsas de que tudo é uma maravilha, e povo, por total falta de esclarecimento, engole as demagogias. A nossa mídia tem muita culpa nisso porque, em parte, deixou de denunciar os descalabros e os absurdos.
Quanto ao Hospital Regional de Jacobina (“Cidade do Ouro”) Vicentina Goulart, um prédio antigo localizado no centro, se houvesse seriedade dos órgãos sanitários na Bahia e no Brasil, aquela unidade já deveria ter sido interditada pela total falta de higienização, a começar pelos banheiros entupidos, bebedouros sujos e velhos equipamentos. O Hospital de Jacobina pede socorro.
Minha irmã Margarida Macário de Oliveira Fernandes foi intubada na UTI coletiva de sete ou oito pessoas há uns 15 dias e fui lá visita-la. Só a entrada meu deu uma péssima impressão, mas fiquei horrorizado com o que vi lá dentro, uma verdadeira desumanidade com as pessoas. Muitos estão morrendo lentamente.
Depois transferiram ela para a enfermaria, um local ainda pior, que mais parece um matadouro de gente. Na noite de sábado para domingo, de 21 para 22 de março, foi um terror, segundo relatou minha sobrinha que estava acompanhando a mãe. O que ela me contou é de cortar o coração de qualquer humano.
Em estado grave, minha irmã entrou em crise na enfermaria de sete pessoas, com 500 de glicemia e não havia uma enfermeira para aplicar uma insulina para baixar o nível, isto entre 22 a 23 horas. Minha sobrinha apelou para uma técnica que que respondeu não ter capacidade para fazer o procedimento.
Esse tormento perdurou até por volta das três horas da manhã de domingo quando, finalmente, apareceu uma enfermeira e lhe aplicou a insulina e outros medicamentos, baixando a glicemia para 300 e, mesmo assim, a paciente continuou sofrendo e só se normalizou tempos depois, por volta das sete horas do domingo.
Minha irmã, com os pés em carne viva, está morrendo aos poucos naquele hospital, que considero um matadouro, e não é somente ela. Um médico na enfermaria é coisa rara e quando aparece é para dizer ao parente que seu paciente tem que sair de qualquer forma para não pegar mais infecção, mesmo a família não tendo a mínima condição de receber em casa porque não tem como dar tratamento domiciliar.
De acordo com uma de minhas sobrinhas, só faltaram tirar minha irmã da enfermaria e deixar exposta na frente do hospital. Nessa hora, a ausência do Estado é total para auxiliar nessa passagem da enfermaria para o sistema home care (assistência domiciliar).
O governo, qualquer que seja, tem a obrigação de oferecer o suporte multiprofissional (médicos, enfermeiros, fisioterapeutas) e equipamentos ideais para doenças crônicas, caso específico da minha irmã. Para tanto, pagamos anos e anos de impostos, trabalho ao país e INSS.
O pobre só serve para votar e quando vai a um “mutirão de saúde” (nunca deveria existir), o coitado miserável ainda fala que é tudo uma beleza. Mutirão é mais uma prova de que a saúde pública é precária e deficitária nos postos e hospitais.
É necessário que o governador Jerônimo e o secretário de Saúde do Estado tomem conhecimento sobre o que está ocorrendo com o Hospital Regional de Jacobina, um município de cerca de 90 mil habitantes, com mais de 500 mil em torno da sua região.
Sabemos que este estado grave em que vive a saúde pública não ocorre apenas em Jacobina, mas o que presenciei ali passa dos limites e bate um recorde, sem contar umas regras que não entendi. Por que, por exemplo, o paciente que está numa enfermaria não pode receber a visita de um familiar ou amigo?
Entrei porque a senhora que estava na portaria teve compaixão de mim e liberou minha passagem, fazendo recomendações para que ninguém percebesse. Isso é mais que desumano. Essa norma é para que ninguém veja o que passa lá dentro e não saia relatando? Procurei por uma assistente social, mas havia saída.
O ISQUEIRO QUE AMEAÇOU A DITADURA
(Chico Ribeiro Neto)
A ditadura civil-militar que se instalou no Brasil em 1964, que durou 21 anos, matou, torturou e exilou pessoas, suprimindo todas as liberdades democráticas. Foram 434 mortos e desaparecidos políticos vítimas da ditadura, segundo a Comissão Nacional da Verdade. Uma mancha de tristeza e revolta na história do país.
Há, porém, episódios pitorescos no meio de tanta crueldade.
Na década de 70, um amigo, ligado à luta armada, estava com outro companheiro tomando uma cerveja num bar do Rio de Janeiro. Ambos estavam sendo procurados e só andavam armados, mudando de cidade. De repente, entram dois homens de paletó e gravata, apontam para eles e conversam com o dono do bar. “Esses caras devem ser do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) e vão prender a gente”. Os caras vieram em direção a eles, que já estavam com as mãos sobre as armas embaixo da camisa, Suavam frio quando um de paletó falou: “Nós somos do Departamento de Promoções da Antarctica. Essa cerveja está paga e mandamos descer mais uma para vocês. Parabéns por preferirem a Antarctica”. Na época era forte a disputa entre a Brahma e a Antarctica.
O outro caso aconteceu com meu irmão Zé Carlos. Abril de 1964. Primeiros dias da ditadura, Salvador ocupada por tropas do Exército.Meu pai Waldemar tinha um bar, “O Cisne”, na Avenida Joana Angélica, defronte ao Colégio Central, e disse a Zé numa noite: “Eu já vou, você fecha o bar mais cedo porque a cidade tá cheia de soldados e tem esse
negócio de toque de recolher à meia-noite”. A ditadura proibiu menores de 16 anos de circularem pelas ruas depois da meia-noite.
Zé Carlos já tinha 16 anos, mas mesmo assim se apressou. Mas tem sempre a turma da saideira e ele acabou fechando o bar às 23:40. A gente morava na Ladeira dos Aflitos e ele passava pela Praça da Piedade, onde tinha uma tropa do Exército aquartelada, com metralhadora giratória e tudo. Todo mundo doido pra prender comunista. Afinal, eles estupram freiras e comem criancinhas.
Zé Carlos subiu a pé a Avenida Joana Angélica e chegou na Piedade quase à meia-noite. Passou diante da tropa e quis acender um cigarro. Ele tinha um isqueiro que era um revolvinho (ou revolverzinho) niquelado em que você apertava o gatilho e ele acendia. Sacou o revolvinho e foi logo cercado por soldados do Exército empunhando fuzis e por um sargento que berrava, depois de apreender a perigosa arma: “Mãos para cima! Não se mexa! Documentos!”
Após longo IPM (Inquérito Policial Militar) que envolveu várias perguntas (“Você vem de onde?”, ‘Trabalha onde?”, “O que faz na rua a essa hora?”), Zé Carlos foi liberado e teve sua arma de volta, depois de receber alguns tapas e ouvir várias ameaças.
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)
PARE NO “FOLHA SECA”
Quem vem de Salvador, Feira de Santana, Senhor do Bonfim, lá do Sul e do Sudeste perto de Juazeiro, na Bahia (distante 60 quilômetros), vai passar pelo distrito de Maçaroca, ver muitos bodes pastando pelas margens da BR-407, (muito verde depois das chuvas), mas, o que vai lhe chamar mais atenção é uma grande placa com o nome Folha Seca.
Também está ao alcance de quem vem dos estados nordestinos em direção contrária. Não deixe de dar uma parada, nem que seja para um cafezinho, mas o passageiro vai terminar ficando por mais tempo quando sentir aquela recepção acolhedora e outras coisas interessantes para se ver.
Trata-se do restaurante “Folha Seca”, bastante movimentado com comida típica do nosso sertão, como o cuscuz, a coalhada, o aipim, a farofa, o feijão tropeiro, o baião de dois e um bode assado que é uma delícia. O tratamento é de primeira. Depois é só dar uma visitada nas lojas de artesanato e na casa de vinho da região do Rio São Francisco.
Além do Posto de Combustíveis “Folha Seca”, ao lado, o seu proprietário, Rosemberg Macário de Oliveira construiu um Centro de Treinamento de Futebol profissional com vários chalés confortáveis, piscina e outros equipamentos, coisas de primeira qualidade.
O que mais chama a atenção é a jardinagem no estilo europeu, com um florido das plantas em meio ao agreste do sertão. Além do campo gramado, pistas de coper, charretes puxadas pelos pôneis, parques infantis, uma academia de ginásticas e outras áreas de lazer, você vai apreciar as flores e as plantas exóticas.
O mais importante é que todo o sistema funciona através da energia solar, ou seja, trata-se de um projeto ecologicamente sustentável, sem causar nenhum impacto ao meio ambiente. É uma união da caatinga com o florido.
O contraste de cores do lugar fica ainda mais visível em época de estiagem prolongada quando o cinza da caatinga torna-se predominante pela seca. Na verdade, o Grupo “Folha Seca” é um ponto turístico que merece ser visitado e ainda lhe oferece uma bela hospedagem para seu relaxamento. Depois o viajante, seja quem for, vai sair renovado para seguir viagem.
“CAPITAL BAIANA DO FORRÓ”
Bem louvável a iniciativa da Prefeitura Municipal de Senhor do Bonfim em ter erguido na entrada da cidade um monumento em homenagem à nossa sanfona nordestina, com a frase “Capital Baiana do Forró”, em sua base. Isso nos deixa com orgulho porque o forró e a sanfona são as expressões maiores da nossa cultura popular nordestina e não deixam de ser também uma homenagem ao nosso grande forrozeiro e rei do baião, Luiz Gonzaga. No entanto, é lamentável que nos últimos anos outros ritmos estranhos tenham ocupado mais espaços nos festejos juninos, deixando o forró autêntico em quinta categoria, lá no canto. Nossas lentes flagraram essa bela imagem, mas será que o poder municipal vem correspondendo e honrando mesmo com o que mandou escrever? Será que Senhor do Bonfim é mesmo a capital do forró, ou tudo não passa de mais uma propaganda enganosa, como tantas outras institucionais dos governantes que vimos por aí? Infelizmente, em todo Nordeste, o que tem mais rolado são os estilos musicais de sertanejos, arrochas, lambadas, sofrências, pagodes e outras porcarias mais. O forró não é mais o mesmo. Foi totalmente descaracterizado. Esperamos que a Prefeitura Municipal de Bonfim honre com o que mandou construir, e que o dinheiro investido do contribuinte não seja desperdiçado com contratações caras de bandas e cantores que nada têm a ver com o forró, como ocorrem nos outros municípios baianos e nordestinos em geral.


















Antigo armazém de João Vermelho 













