(Chico Ribeiro Neto)

Chego num bar da Barra, em Salvador, só tem cardápio no Querrecôde.  Peço cardápio impresso, não tem. “Eu ajudo o senhor”, diz o solícito garçom que tem todo o domínio da tecnologia e uma explicação: “É uma herança que ficou da pandemia”. Cara sabido, ele seleciona as opções de petiscos e vai passando no celular dele para que eu escolha. Cardápio no celular fica sem gosto.

O Querrecôde na mesa mata a história dos cardápios. Lembro de uma churrascaria em Amaralina onde o cardápio vinha numa capa de couro, tão bonita que alguns clientes chegavam a roubar levando-a embaixo do paletó.

Tinha um buteco na Avenida Vasco da Gama onde vinha escrito no cardápio “Q. de Boi”. Era culhão de boi, delicioso por sinal, e o dono me explicou: “Não posso escrever culhão de boi no cardápio, porque pode ter mulher na mesa e fica chato”.

Tem buteco onde o cardápio vem num pedaço de papelão e o dono reclama lá pra dentro: “Lindinalva, você esqueceu de alterar o preço da cerveja!” E completa: “Olha, moço, o que tem um X do lado é porque não tá saindo”.

“O senhor aguarda um pouco porque a casa só tem dois cardápios e estão ocupados”. Outros asseguram: “Tem coisa que não tá no cardápio, mas sai” Ou então dizem a célebre frase: “Peixe frito tem, mas terminou”.

Uma vez o garçom me disse: “Olha, do que está escrito aqui, só sai a batata frita”. Outro dia perguntei a um garçom de barraca de praia se o caldo misto (sururu, camarão e peixe) era bom e ele respondeu: “Olhe, eu não sou muito fã, não. Se for pra tomar, é uma vez na vida”.

Uma vez um amigo foi a uma churrascaria da orla marítima e não quis carne de boi nem frango, pediu somente coelho para acompanhar seu uísque, pois precisava evitar uma nova crise de ácido úrico. Foi comendo seus cubinhos de coelho e no segundo uísque viu o garçom sorrindo junto com outro. Desconfiado, perguntou o que estava acontecendo: “O senhor está comendo coelho que ronca”. “Como assim?” “É que o coelho acabou e o cozinheiro cortou uns pedacinhos de carne de porco e assou. Ficou igualzinho a coelho, não foi?”

Levei um amigo que mora em São Paulo ao tradicional restaurante Porto do Moreira, no centro de Salvador, que infelizmente foi fechado. Meu amigo, admirador de vinhos, viu várias boas marcas nas prateleiras e me perguntou se havia carta de vinhos. Perguntei ao velho Antonio Moreira, já falecido, e ele me gritou de lá: “Não, só tem Sedex”.

Já vi cardápios com mensagens de amor escritas, preço escrito num pedaço de esparadrapo que cobria o preço antigo, pingos de azeite de dendê, marca de batom e outras surpresas.

Pois é, devolvam meu cardápio impresso. Querrecôde, não. Tragam logo o cardápio, em papel ou papelão. Se tiver só um, espero. Não tem pressa, não.

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