O PROCESSO DO BRANQUEAMENTO
Na onda da abolição da escravatura, os senhores fazendeiros e latifundiários começaram em pensar na substituição da mão de obra escrava africana pelos imigrantes europeus já com a ideia introduzida por alguns intelectuais sobre o processo de branqueamento do povo brasileiro. A primeira leva começou logo por volta de 1846 com a chegada de prussianos e da região da Bavária.
Centenas começaram a chegar aos portos brasileiros que antes recebiam os cativos vindos da África. Os colonos recebiam diversos incentivos, como passagem entre a Europa e o Brasil, hospedagem durante os oito primeiros dias após o desembarque e transporte terrestre para toda família, tudo por conta do Tesouro Nacional. Cada adulto receberia uma subvenção pessoal de 150 mil réis. As crianças teriam direito à metade.
De acordo com Laurentino Gomes, autor da trilogia “Escravidão, a importação de colonos estrangeiros era um projeto antigo, ainda da época da corte de D. João VI, em que foram criados pequenos núcleos com alemães e suíços, mas o plano foi adiado devido a abundância de mão-de-obra cativa.
O programa foi retomado com a proibição do tráfico negreiro, em 1850, através da Lei Eusébio de Queirós. A partir dali os preços dos escravos começaram a disparar, mesmo com a comercialização entre as províncias, despencando após a Lei Áurea de 1888.
Segundo Laurentino, entre 1886 e 1900, com o estímulo à imigração, o Brasil receberia cerca de 1,3 milhão de europeus, 60% dos quais eram italianos. Isso era quase o dobro de toda população escrava existente no país no ano da Abolição. O projeto era uma questão de sobrevivência nacional.
Os próprios abolicionistas Joaquim Nabuco e André Rebouças defendiam a criação de um imposto territorial como forma de acabar com o latifúndio improdutivo, democratizar a propriedade da terra e atrair imigrantes de outros países. André Rebouças, inclusive, defendia a reforma agrária, coisa que provocou a ira dos fazendeiros até com movimentos de revolta.
Nabuco acreditava que a redução do latifúndio estava ligada ao fim da escravidão como forma de acelerar o desenvolvimento do país. Dizia que era preciso destruir a obra da escravidão. O manifesto da Confederação Abolicionista, fundada em 1883, no Rio de Janeiro, acusava os grandes latifundiários e o sistema escravista de levar o país à ruína ao inviabilizar todo incentivo ao trabalho livre.
“O hábito de distribuir sesmarias era praticado pela Coroa Portuguesa ao longo de todo período colonial, mas o sistema foi sendo desvirtuado após a Independência do Brasil pelas relações de promiscuidade entre o governo imperial e sua base de apoio agrária”- destacou Laurentino. Havia um limite para a área de terra a ser doada de até 12 mil hectares. Depois da independência passou a valer a lei do mais forte, chegando a mais de 200 mil hectares.
Ao contrário dos Estados Unidos, a Lei de Terras Brasileira ergueu barreiras à aquisição dela tanto por parte de negros libertos como de imigrantes pobres que chegavam da Europa. No entanto, havia exceções, como no caso dos confederados norte-americanos.
A lei dos EUA, em 1862, atraiu mais de 5 milhões de imigrantes. Na mesma época, no Brasil, o número não passava de 50 mil. A lei de 1850, conforme descreve Laurentino, foi responsável por boa parte do legado de desigualdades e concentração de privilégios que marcariam o futuro do país.
No âmbito da imigração, a primeira tentativa partiu do senador Nicolau dos Campos Vergueiro, um traficante clandestino de escravos africanos. No começo do século XIX, Vergueiro conseguiu da Coroa vastas poções de terras na região de Piracicaba, Limeira e Rio Claro.
Em 1846 ele iniciou o assentamento de imigrantes na fazenda Ibicaba pelo sistema de parceria. Os colonos assinavam um contrato pelo qual o fazendeiro pagava as passagens, transporte e alimentação até o local de trabalho. Em troca, o colono assumia o compromisso de cultivar as lavouras até ressarcir o proprietário, com 6% de juros por ano. As primeiras famílias vieram da Bavária e da Prússia. Vergueiro colocava o colono na situação de escravo branco.
O tratamento dispensado pelos feitores era semelhante ao vigente nas antigas senzalas. Como resultado, houve uma revolta de estrangeiros na fazenda Ibicaba, em 1857. As denúncias de maus tratos levaram alguns países, como a Prússia, a proibir a vinda de imigrantes para o Brasil.
A TEORIA DO BRANQUEAMENTO
Além de substituir a mão-de-obra cativa, Laurentino assinala que a chegada dos colonos cumpria a tarefa de realizar um dos projetos mais acalentados pela elite brasileira escravocrata no século XIX, o de branqueamento da população, sob a influência das teorias raciais onde se dizia que o negro era inferior e que deveria ser devolvido para a África.
Um dos maiores defensores dessa teoria foi o juiz, deputado e crítico literário Sílvio Romero, desde 1881. “ A vitória na luta pela vida, entre nós, pertencerá no povir ao branco” Ele defendia a extinção do tráfico de africanos e o desaparecimento dos índios, e de outro, a imigração europeia.
Também, o médico Domingos José Nogueira afirmava ser preciso aperfeiçoar a raça no cruzamento do africano com o mulato e este com o branco. O deputado alagoano Aureliano Cândido ia mais longe quando enfatizava que um Brasil só habitado por brancos teria sua riqueza triplicada.
O médico francês Louis Couty foi um dos principais teóricos da inferioridade racial do negro. Era misógino e racista atém a raiz. Couty via a mulher negra somente como objeto sexual que qualquer um poderia possuir.











