O livro de Laurentino Gomes, “ESCRAVIDÃO” mostra curiosidades do tráfico negreiro, muitas das quais de horror, mas que precisam ser conhecidas por historiadores, estudantes e todos brasileiros sobre o que aconteceu nos quase 350 anos de escravidão no Brasil.

Em prosseguimento aos relatos do autor, vamos destacar alguns deles sobre os sofrimentos dos negros no cativeiro:

No capítulo sobre “O Brasil”, o autor faz uma relação direta entre o que representava o açúcar para a escravidão, dizendo que “o açúcar era sinônimo de escravidão”. Até um pouco depois da independência, em 1822, o produto era o principal item da pauta de exportação brasileira. Em 1760 correspondia a 50% do total, contra 46% da mineração. Somente em 1831, o café passou a ser o novo rei da exportação.

“Os escravos são as mãos e os pés do senhor de engenho, porque sem eles no brasil não é possível fazer, conservar e aumentar fazenda, nem ter engenho corrente” – escreveu por volta de 1710 o padre jesuíta André João Antonil.

Originário do sudeste asiático, a cana de açúcar percorreu um longo caminho até chegar às terras escuras e úmidas da Zona da Mata pernambucana e do Recôncavo Baiano, no início da colonização. Na antiguidade, o cultivo era praticado na Pérsia e na região de Bengala, na Índia. Depois os árabes levaram para as margens do Mar Mediterrâneo. A cana tornou-se uma das fontes de renda dos cavaleiros cruzados cristãos que ocuparam a Palestina entre os séculos XII e XIII. Dali espalhou-se para outras partes do mundo, como Espanha, Portugal (Ilhas da Madeira, Canárias e Açores).

De acordo com Laurentino, com as lavouras e os engenhos, seguiam também os escravos. Para historiadores, açúcar, escravidão e ocupação da América são histórias interligadas. Da moenda numa pedra circular, os engenhos foram se evoluindo. Da Madeira, a cana saltaria para a América (Caribe) através de Cristóvão Colombo em sua viagem de 1493.

A cana se adaptou bem no Nordeste brasileiro por ter terras em abundância, solos férteis e clima quente ensolarado. Faltava apenas o quarto item: mão de obra escrava. A solução definitiva começou a ser adotada em 1559, quando Mem de Sá, terceiro governador-geral do Brasil ordenou a redução em 40% das tarifas alfandegárias para a entrada de cativos africanos no Brasil, com objetivo de estimular a produção de açúcar.

A chegada dos primeiros escravos africanos coincide com o vertiginoso ciclo da cana, que viria a transformar a paisagem brasileira, bem como os costumes e os hábitos. Em 1664, a prosperidade gerada pelo açúcar era tão grande que D. João IV definiria o Brasil como uma “vaca de leite” de Portugal.

A cultura do açúcar nos trópicos, segundo Laurentino, caracterizava-se pelo binômio casa-grande e senzala. Os donos dos maiores engenhos exploravam o trabalho de 100 a 150 escravos. O produto era consumido em quase toda Europa, e uma das grandes entusiastas era a rainha Elizabeth I, da Inglaterra. Na próxima coluna vamos mostrar os sofrimentos dos escravos nos trabalhos degradantes e desumanos nas usinas e nas lavouras.