:: jul/2023
AS INSTRUÇÕES DE “TERROR” E UM MATUTO NA “CIDADE MARAVILHOSA”
Para quem tem medo de avião e quem também não tem, como lembra o cantor, compositor e poeta cearense Belchior em sua bela canção, é no mínimo assustador e até cheira a contradição.
No sábado passado fui à “Cidade Maravilhosa”, que já não tem muita coisa disso diante de tanta violência e, na preparação para a decolagem, fiquei a matutar com as instruções de segurança dada pela tripulação antes do “pássaro” voar aos céus rumo ao nosso destino.
Primeiro entra um membro da tripulação com a cara feia e bem séria e vai transmitindo as instruções gravadas, mil vezes repetidas em cada viagem. Se não me engano, começa pelas máscaras de oxigênio que caem no caso de haver despressurização. “Antes de ajudar alguém, ajuste a sua”.
A coisa vai ficando sombria com o andar do “papo” esquisito. Logo bate a danada da morte na cabeça. Essa aeronave tem duas saídas de emergência na parte traseira de cada lado, duas no meio e mais duas na frente.
O mais arrepiante que dá vontade de você pedir para abrir a porta e sair, vem no final. Em caso de um pouso na água (coisa mais rara de ocorrer), pegue seu colete salva-vidas que está embaixo da poltrona e sopre no canudo para encher de ar.
A esta altura, o viajante que estiver atento, porque quase ninguém presta mais atenção, já está nervoso e pensando como vai ter uma conversa com São Pedro lá na porta do céu. Pede perdão de seus pecados e até confessa para a mulher ao lado, caso ela esteja, que já deu uma pulada de cerca ou de muro.
É nessa hora que dá vontade de dizer para o instrutor ou instrutora: Vá para a puta que te pariu com suas informações de terror! Se esse gigante voador cortante do vento e do ar der um treco em algum motor ou equipamento e começar a cair, meu amigo, não sobra uma viva alma.
Vamos no popular e deixar desse lero-lero porque todo mundo vai morrer mesmo. Olha, se essa máquina embicar em direção a terra, já era, não sobra ninguém para contar a história. Esqueçam as instruções. Na agonia, muitos corações param de bater lá em cima mesmo.
Tudo bem! Temos um alento que é a afirmação dos estudiosos e técnicos da aviação de que “esse bicho” aí é um dos meios de transportes mais seguros do mundo. Portanto, relaxa, meu camarada, porque lá embaixo pode ser bem pior!
Na Cidade Maravilhosa do Rio de Janeiro aterrissei no “Elefante Branco” chamado de Galeão e depois percorri uma trilha de túneis e avenidas de violência, exposto a um tiroteio no meio do caminho.
Ainda bem que cheguei ileso em meu destino, no meu caso no Bairro das Laranjeiras e, como sou tricolor até que me senti envaidecido, mas o trânsito e o formigar de gente em correrias me deixou atordoado, como se fosse um matuto nordestino da Bahia em terras estranhas.
As pessoas cruzam meu caminho com caras fechadas. Ninguém liga para ninguém. Fiquei no apartamento do meu filho onde a janela do quarto bate bem de frente com o vaivém louco de veículos que soltam gases tóxicos no ar durante 24 horas. Não dá muito para levantar bem-humorado, mas procuro disfarçar o incômodo.
Não conheço bem a cidade, mas resolvo ir sozinho ao Bairro do Flamengo, meu adversário nas “batalhas” futebolísticas. Com duas máquinas fotográficas, resolvi, por segurança, colocá-las na mochila.
Meu primeiro contato foi com o porteiro com um bom dia e fui logo indagando se dava para ir andando até o meu ponto na rua Ferreira Viana, no hotel Windsor Flórida. Disse que era um pouco longe e me recomendou pegar um taxi ou um Uber. Não sou simpático a essa empresa capitalista norte-americana que invade países e tira o pão da boca dos nossos taxistas.
Como tenho formação jornalística e aprendi a ter outras informações, atravessei a rua e logo vejo um gari em seu trabalho diário de limpeza. Prestativo e atencioso, me ensinou e chegar até lá e garantiu que dava para ir na paleta. “Segue direto o tempo todo até o Largo do Machado. Chegando lá é só perguntar que qualquer um vai lhe indicar a posição certa do hotel”.
São dois pontos de vistas diferentes. Um que fica todo dia sentado vigiando quem entra e sai no prédio. O outro roda o dia todo e tem uma noção do longe e do mais perto que pode ser alcançada sem a necessidade de um carro. Decidi seguir o gari e fiz meu exercício num percurso em torno de um quilômetro e meio ou dois.
Fui perguntado aqui e acolá sempre para alguém sentado num banco de jardim ou um motoqueiro parado numa esquina. Visei gente mais humilde e nunca àquelas pessoas carrancudas no corre-corre do dia a dia, mas cair na besteira de abordar um moço no celular. Mudo e surdo nem respondeu ao meu bom dia.
JOGO TUDO NA GAMELA
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Minhas contas de luz e água,
Faturas dos cartões de crédito:
Tudo é só débito,
Toda vez como freguês.
O selvagem capital,
Me trata como faquir,
Que toma banho na gamela,
Ainda me cobra,
Conta paga,
Para ir na camela conferir,
E fico a olhar tudo que quitei,
Todo sangue que já dei.
Logo vai chegando,
O outro mês:
Nem sei mais o que gastei:
Jogo tudo na gamela,
Depois nos arquivos,
Como mortos inativos.
Jogo tudo na gamela,
No banho que lá tomei,
Quando criança esperança,
No campo ou na favela,
E quando morro,
Nessa vida de aventura,
Num caixão apertado sem largura,
Só tenho direito a uma vela.
Jogo tudo na gamela,
Essa remela,
Do trabalhador,
Tratado como escravo insano,
Como nos tempos,
Do tráfico africano.
CONSELHO DE CULTURA REPUDIA DEMOLIÇÃO DA ESCOLA NORMAL
Em reunião realizada ontem (dia 19/07/2023), na sede da Casa Régis Pacheco, o Conselho Municipal de Cultura de Vitória da Conquista aprovou, por unanimidade de seus membros, uma nota de repúdio pela demolição do Instituto de Educação Euclides Dantas, mais conhecido como Escola Normal, localizado na Praça Guadalajara.
A instituição de ensino, uma das mais antigas de Conquista por onde passou alunos que hoje são personagens importantes e representativas da nossa cultura e intelectualidade, não somente em âmbito regional e estadual, era uma unidade pertencente ao Governo do Estado.
A comunidade conquistense nem sequer foi ouvida sobre esse processo de destruição da Escola Normal que, em seu lugar, será construído um complexo esportivo. Os conselheiros afirmaram ser uma triste notícia e propõem que pelo menos em sua área seja erguido um memorial para que sua memória não seja totalmente extinta.
O Instituto representa uma história para a cidade, principalmente por ter beneficiado dezenas de gerações e milhares de cidadãos. Naquela escola foram realizados jogos de basquetebol, vôlei, futebol de salão e outras modalidades esportivas, sem falar nas atividades culturais, como peças teatrais e musicais.
Um antigo aluno do colégio disse em tom de tristeza que “se vai uma parte das nossas vidas”. O oftalmologista Armênio Santos, por exemplo, declarou que se sente indignado. Em nota nas redes sociais, destacou que cada dia, edificações que constituem nossa história/memória, estão sendo destruídas, com a omissão permissiva dos poderes públicos.
A Escola Normal foi inaugurada em 20 de março de 1952 pelo governador Régis Pacheco e pelo prefeito Gérson Sales, mas, desde a década de 30, já se falava sobre a necessidade de uma instituição desse tipo em Conquista, sobretudo porque naquela ocasião, o então diretor da Instrução Pública do Estado da Bahia (Secretaria da Educação), Anísio Teixeira, reinaugurava a Escola Normal de Caetité, em 1926. A Bahia era governada por Góes Calmon.
De acordo com a revista “História da Educação em Conquista”, escrita pelo saudoso jornalista Luís Fernandes, o professor Euclides Dantas, juntamente com Francisco Bastos e o então prefeito Deraldo Mendes, pleitearam junto ao interventor Federal da Bahia, tenente Juracy Magalhães, uma escola normal.
Em 1935 foi inaugurado o Grupo Escolar Barão de Macaúbas, primeira escola estadual deste município que, durante muito tempo, ostentou o status de melhor casa de ensino da cidade. Em 29 de janeiro de 1950, pelo decreto número 14.296, foi criada a Escola Normal de Vitória da Conquista e autorizada sua construção. Foi a primeira instituição de formação de professores da cidade.
“FLUXO E REFLUXO” XXVIII
LISTA DOS NAVIOS NA PRAÇA DA BAHIA, MOVIMENTO DAS EMBARCAÇÕES ENTRE BAHIA E O GOLFO DO BENIM E LOCAL DE ORIGEM DOS NEGROS.
Nos apêndices de sua obra, “Fluxo e Refluxo”, Pierre Verger faz uma extensa lista de navios capturados pelos cruzadores ingleses. Cita que entre 1811 e 1812, os dez primeiros vasos aprisionados pelos comandantes da Inglaterra receberam um total de 500 libras esterlinas em indenização pela convenção luso-britânica de 21 de janeiro de 1815.
Entre os navios aponta o Brigue Calipso, Bergantim Vênus, Goleta Mariana, Bergantim Prazeres, Sumaca Lindeza, Flor do Porto, Americano, dentre outros. De 1814 a 1820 dezesseis foram condenados em Serra Leoa. Foram beneficiados por meio de uma revisão pela comissão mista luso-britânica em Londres, destacando o Brigue Bom Sucesso, Bergantim Conceição, Triunfo Americano, Correio São Thomé e outros.
Sobre o movimento dos navios, Verger explica não ser fácil fazer uma reconstituição dada a raridade de documentos existentes. Ele dividiu os estudos em quatro períodos: o tráfico legal no Golfo do Benim entre 1678-1815, tráfico legal no sul do equador, de 1815 a 1830, tráfico clandestino de 1831 a 1851 e o período posterior à extinção após 1851.
Esses navios se movimentavam em vários lugares, como ilhas Trindade, Cabo das Palmas, Costa da Mina, Costa da Malagueta, Cabinda, Molambo, ilhas de S. Thomé e Príncipe, Cabo Verde e Fernando Pó. Verger fez uma pesquisa no Arquivo Público da Bahia a respeito do assunto, entre 1678 e 1815, época em que o tráfico se torna ilegal ao norte do equador.
Em 1678, os traficantes mencionavam o grande serviço prestado na busca de escravos na Costa da Mina para a Bahia, em razão da falta de mão-de-obra nos engenhos e canaviais. Em 1700 é lembrado que não poderá ser transportado nenhum tabaco senão o de terceira categoria. Em 1720 foi proibida a venda de pólvora e outro tipo de munição na Costa da Mina (Golfo do Benim).
Após 1743, ocorre uma diminuição do número de navios em razão do monopólio concedido a 24. A partir de 1756 ocorre um aumento devido a abertura do comércio na Costa da Mina. Em 1808 acontece a abertura dos portos brasileiros a outras nações com a chegada da família real de D. João VI.
Um fato interessante é que no início do tráfico negreiro, os traficantes escolhiam nomes de santos para seus navios, prevalecendo o de Nossa Senhora, especialmente da Conceição, do Rosário, do Amparo, da Boa morte e por aí. Mais tarde surgiram os nomes de deuses pagãos, personagens históricas e diversos que representavam sorte, como Ventura, Esperança e Fortuna, isto em final do século XVIII e durante o XIX.
Os escravoss vindo à Bahia tinham várias origens africanas, destacando os jejes (adjás) do Damomé, atual República Popular do Benin, os iorubás da região da Nigéria, cangoleses, benguelas, angolas, moçambicanos, Cabinda, São Thomé, Mundubi, Barba, Ladá, Corabani, Molambo, com uma grande variedade de etnias.
A INVASÃO DOS GAFANHOTOS
Vitória da Conquista, a capital do sudoeste baiano, segundo a última pesquisa do IBGE, tem cerca de 370 mil habitantes. Em termos de veículos em dias úteis da semana quando a cidade recebe gente de vários municípios da região, fala-se em 150 a 200 mil. Confesso que não sei o número de motos (o núcleo do Detran deve ter esses dados), mas houve uma invasão significativa desse meio de transporte nos últimos anos, os gafanhotos, com a consequente elevação de mortes e acidentes no trânsito, provocados, na maioria das vezes, pelos próprios condutores que não respeitam os sinais, principalmente os semáforos. Já vi muitas vezes, fora do centro, onde não existe o radar das câmaras, esses “gafanhotos motoqueiros” invadirem o sinal vermelho. No trânsito, eles cortam de todos os lados, costuram e aparecem repentinamente em seu retrovisor. É um tremendo susto! Na maioria das vezes, os motoqueiros culpam o motorista de quatro rodas e juntos pulam em seu cangote como se fossem “gafanhotos”, esbravejando e lhe xingando. Querem lhe bater. Nem sempre a culpa é do veículo grande. Certa vez um passou por mim na contramão e arrebentou o retrovisor do meu carro. Sumiu na poeira. Não estou aqui incentivando a intolerância no trânsito, mas os motoqueiros precisam ser mais prudentes e conscientes, e não somente colocar a culpa nos veículos maiores. Com o crescimento acelerado da cidade, está ficando cada vez mais difícil dirigir em Conquista. Imagine quando chegar a 500 mil habitantes. Tem que haver um melhoramento na infraestrutura urbana para acompanhar esse aumento populacional, com mais carros e motos rodando nas ruas. Como diz a ciência: Dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço.
O SILÊNCIO E OS RUÍDOS
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Na magia do meu campo,
Na alquimia da natureza,
Das águas correntes a roncar,
Entre pedras e cachoeiras,
Em meu sertão profundo,
Escuto o canto dos pássaros,
Sem os ruídos dos corações,
Invejosos dos bárbaros,
Das traiçoeiras competições.
Sou o silêncio sem os ruídos,
O mergulhar em meu eu interior,
O zunido da abelha na flor,
Para nela polinizar,
Sem os ruídos dos instintos,
Egoístas da sedução,
Labirintos da exposição,
De si mesmo para divagar,
Nos toques do celular.
O silêncio vale ouro.
Digo ser reflexão,
Da alma o tesouro,
Absinto da razão.
Fortaleça seu silêncio,
Para dar voz ao silêncio,
Contra os ruídos capitais,
Das injustiças sociais,
E não ao silêncio sepulcral,
Que causa tanto mal.
OS ESCRITORES NA CONFERÊNCIA MUNICIPAL
Como nas décadas de 50 e 60, ainda na era dos jornais impressos, em que Vitória da Conquista vivia uma efervescência cultural, especialmente na área literária, com destaques para Camilo de Jesus Lima, Lionor Brasil, Ruy Bruno Bacelar e tantos outros, os escritores conquistenses da atualidade estão voltando com toda força e união.
Com grandes talentos, inclusive de jovens, um dos propósitos desse grupo é o de mostrar suas obras e apresentar suas ações, visando incentivar a arte do escrever, umas das linguagens artísticas que mais sofreu com o advento dos meios eletrônicos da internet e a falta de apoios do poder público e privado.
Neste sentido, demos o primeiro passo através de uma reunião virtual realizada no último dia 08/07/23 onde estiveram reunidos Adilson Ventura, Caio Aguiar Sirino, Jeremias Macário, John Barros, Juliana Brito, Lídia Cunha, Luís Altério, Morgana Poiesis, Nélio Silzantov e Paulo Henrique Medrado.
Após as apresentações pessoais, as pautas que seriam discutidas cederam lugar à elaboração de propostas a serem divulgadas durante a reunião do Conselho Municipal de Cultura, a ser realizada no dia 19 de julho, visando traçar um plano da literatura para a Conferência Municipal de Cultural em setembro próximo, no Centro de Cultura. Essa Conferência também tem como proposta principal criar o Plano Municipal de Cultura.
A princípio, os escritores conquistenses estão dispostos a realizar uma mostra de suas obras na área aberta do Centro de Cultura, com possíveis lançamentos de livros, bem como, a divulgação de um documento/manifesto sobre as demandas do setor durante a Conferência. Foi sugerido também a realização de um Encontro de Escritores, possivelmente em setembro.
Questões como a organização de uma Feira/Festa Literária, criação de uma associação, projeto de atividades literárias em escolas, formação de público leitor foram ainda pontuadas pelos participantes da reunião.
Vale dizer ainda que o universo de escritores em Conquista é vasto, como Ana Luz, Charles Ribeiro, Ed Goma, Giulia Santana, Leonardo Oliveira, Mateus Costa, Natan, Noi Soul, Renas Barreto, Victor Lima, Afonso Silvestre, Leon Lacerda, Gisberta Kali, Linaura Neto, Durval Menezes, Mozart Tanajura, Isnaura Pereira Ivo, Maria Aparecida Silva de Souza, Ruy Medeiros, Alberto David, Conceição Barros, entre outros.
Quanto ao Encontro de Escritores, apresentamos como justificativas e objetivos a serem alcançados a elaboração de atividades literárias a serem executadas pelo grupo, criações de acervo físico-digital e uma associação, organização de uma Feira/Festa Literária, levantamento de escritores residentes na cidade, promoção de concurso para novos escritores, bem como um formulário para mapeamento de escritores a ser divulgado pelas redes sociais.
O Encontro de Escritores tem como propósito elaborar atividades eventuais e permanentes, para fortalecer a cena literária na cidade. Nesse sentido, além de contar com a participação do grupo, o evento será aberto para os demais escritores e membros da sociedade interessados.
Dentre as metas apontadas, espera-se ampliar a participação dos demais poetas e prosadores que até o presente momento não compõem o grupo, sendo necessário criar um levantamento de escritores residentes na cidade, além de produzir atividades literárias nas escolas, bibliotecas públicas e comunitárias, visando a formação de novos leitores e escritores.
Em Vitória da Conquista, como no restante do país, uma imensa parcela da nossa população não visita e não conhece os museus, memoriais e demais áreas culturais. Diante do exposto, existe a necessidade de criação de um espaço virtual dedicado à memória e à divulgação da literatura produzida em Conquista.
A associação teria ainda como função elaborar iniciativas voltadas para o desenvolvimento artístico e cultural da comunidade, apoiar estudos e pesquisa sobre a literatura conquistense, projetos educativos, culturais, artísticos, conferências, exposições, fóruns, cursos, bem como um selo literário próprio para viabilizar publicações dos escritores locais e inserí-los em todos processos de produção, distribuição e circulação do livro.
O CELULAR NAS ESCOLAS INCOMODA E FAZ CAIR O RENDIMENTO DO ALUNO
Pesquisas feitas em países mais desenvolvidos comprovaram que o não uso do celular, do tablete e outros tipos de aparelhos da internet nas escolas aumentaram o rendimento dos estudantes. Um desses estudos foi realizado pela London School of Economics, na Inglaterra, cujos alunos baniram os smartphones e melhoraram em 14% suas notas em exames de avaliação nacional.
Costumo dizer que o Brasil em termos de inovação tecnológica, na moda, nas mudanças das ideias, hábitos e tantas outras criações novas é um dos últimos países a adotar as novidades e também um dos últimos a excluir quando elas caducam e não estão dando mais resultados. É o caso do uso exagerado do celular que chega a causar doenças físicas e mentais.
Nesse item, o Brasil ainda parece um adolescente empolgado com seu novo “brinquedinho” de estimação que não larga o bicho por nada, desde o acordar ao dormir, nas refeições, nas mesas de bares, no bate-papo “descontraído” com os amigos, nas reuniões e outras atividades, incluindo a escolar.
Estava lendo o comentário de um cidadão num jornal da capital sobre o uso do celular onde ele dizia que tanta tecnologia empregada de forma equivocada é um inibidor do conhecimento. “Diversos países que no passado liberaram o uso dos celulares, tabletes e smartwatches para os estudantes e atacavam os professores que tentavam proibir o uso, se renderam à sabedoria dos mais velhos de que esses aparelhos em sala de aula atrapalham mais do que ajudam”.
O Brasil ainda resiste, mas muitos países modificaram suas leis para que os alunos fiquem longe de seus aparelhos no período em que estiverem em sala de aula, a não ser quando estritamente necessário e excepcional para fins educacionais de pesquisa.
A Holanda, por exemplo, anunciou que irá banir celulares das salas de aulas, como tentativa de limitar as distrações durante o ensino. Há dois anos a Finlândia, um padrão tecnológico que deve ser seguido no quesito educação de qualidade, já adotou a prática. O país passou a repensar seu modelo diante da era digital. Tem procurado focar seus esforços no ensino de habilidades e de matérias.
Na França existe uma lei proibindo o celular em aulas desde 2020. Não pegou muito, mas a norma proibitiva permanece. O uso em sala de aula é vetado. A província de Jiangxi, na China, tomou a iniciativa de emitir a primeira proibição para estudantes universitários de levarem dispositivos eletrônicos para as escolas. Outras unidades de ensino usam sacos para recolher os aparelhos. Quem se recusar vai ter pontuação menor nos exames.
Em Madri, o Ministério da Educação diz que exceções somente serão aceitas caso sejam expressamente previstos no projeto educacional. O Brasil, que já tem uma grande deficiência na educação (poucos brasileiros sabem ler e interpretar um texto), precisa rever seus conceitos, se os celulares devem ficar nas mãos dos estudantes durante as aulas ou pensar em outra alternativa.
No Vale do Silício, nos Estados Unidos, onde lá estão instaladas as grandes empresas tecnológicas, as escolas também voltaram praticamente aos métodos tradicionais de ensino com o consentimento dos pais, deixando afastado dos alunos esses aparelhos eletrônicos.
De forma contrária a tudo que escrevi neste texto, acabei de ler num jornal impresso a opinião de um educador onde ele afirma que essa tecnologia pode ser usada para melhorar a capacidade de leitura de várias maneiras, seja para sustentar os níveis de interesse da geração que nasceu conectada, bem como o vocabulário, a fluência e até mesmo a compreensão de palavras visuais por meio da leitura em um computador ou tablete.
Não sou especialista da área educacional, mas confesso não entender essa posição se a grande maioria dos navegantes de redes sociais “assassinam” o nosso português quando escreve, com graves erros de ortografia e concordância, principalmente, sem falar no vício da codificação das palavras. Como melhorar essa capacidade de leitura e vocabulário dos quais ele fala? Vejo nisso tudo um contraditório.
O BRASIL COMUNISTA?
Ainda tem muita gente por aí, e não são poucos (mais de 40%), da extrema direita, principalmente, que acredita que o Brasil pode se tornar um país comunista e logo na América do Sul. Esse pessoal praticamente nada sabe sobre o comunismo, só daquelas histórias de carochinhas de que comunista come criancinhas e mata idosos na ponta da faca. Estão viajando na maionese.
Ademais, nenhum país do mundo chegou a alcançar o comunismo, o comum entre a sociedade. A Rússia, no pós 1917, teve um regime stalinista totalitário que mandava trucidar os camponeses e políticos, especialmente os ucranianos que escondiam os alimentos, os quais deveriam sustentar as cidades e as indústrias de armamentos para tornar o país num poderio militar (Guerra Fria).
Também aqueles que eram contrários e criticavam o regime eram conduzidos a trabalhos forçados na Sibéria pelo resto de suas vidas. Milhões morreram por conta das atrocidades de Stalin. Naquela época estava se tentando implantar um socialismo de Estado, tanto que aos escritores se estabeleceu a literatura do realismo socialista. Muitos membros do partido, até certo tempo, defendiam os métodos de Stalin por acharem necessários para eliminar os contras.
Depois veio a tomada de poder na China com Mao (1947) e em Cuba (1959) com Fidel Castro, que só foi declarar a ilha como país socialista, em 1961, a partir dos embargos econômicos decretados pelos Estados Unidos. A China hoje é um misto de poder único ditatorial onde se proíbe o livre pensar com um capitalismo liberal onde a mão-de-obra é explorada com baixos salários. Cuba tem mais o DNA socialista com seus avanços na educação e na saúde, mas que vigia com mão de ferro a liberdade de expressão.
Em suas teorias, Marx e Engels discutiam a questão de classes, o trabalho e a exploração do capital, bem como, o poder do proletariado, não no sentido propriamente comunista do qual se fala hoje como se fosse possível isso se tornar realidade. Os direitistas de ideias egocêntricas e negativistas excomungam os dois, mas eles deixaram até hoje um grande legado de conquistas que a classe trabalhadora obteve com muito sangue e suor, para não dizer mortes em suas lutas reivindicatórias.
Os dois pensadores filósofos revolucionários da modernidade nasceram da Revolução Industrial no final do século XVIII, e o maior inimigo era justamente o capital que se apropriava do trabalho humano em condições desumanas, especialmente nas minas de carvão. A insatisfação dos operários estava na flor da pele onde existia um terreno fértil para os protestos e manifestações.
Tribos indígenas norte-americanas praticavam em suas aldeias um sistema de vida mais próximo do comunismo onde não haviam donos de terras e todos os bens eram comuns a todos. Tudo que se plantava, caçava ou colhia era compartilhado entre seus membros. Outras comunidades ou civilizações antigas na Ásia, na Oceania e até na África também adotavam esse mesmo esquema de vida. A Rússia ficou distante de atingir seu estágio comunista e nem conseguiu colocar em prática as teorias de Marx e Engels.
Quanto ao Brasil virar comunista é uma mera divagação tresloucada de quem não conhece a realidade sócio-político do país, dependente das nações capitalistas (Estados Unidos e Europa) e que até hoje, depois de 500 anos, nem é dona de si em termos de soberania. Pela sua formação, eminentemente capitalista desconjuntado, o Brasil nunca será uma país comunista.
O Lula nunca foi comunista e nem estudou sobre o assunto, embora ele diga que se orgulha de assim ser chamado. Ele faz o jogo de agradar os ricos poderosos, as elites burguesas, as castas políticas e econômicas e os pobres. Seu estilo é populista e de alianças com Deus e o diabo para se manter no poder.
Se os pobres têm o chamado Bolsa Família, com uma ajuda em torno de 700 reais por mês, os capitalistas (banqueiros, industriais, agropecuaristas, comerciantes e outros) ganham bem mais com isenções fiscais, subsídios ao crédito com juros baixos, dentre outros benefícios. Neste país, quem se declara de esquerda é logo visto como comunista. Nem os partidos comunistas são comunistas.
“FLUXO E REFLUXO” XXVII
POSFÁCIO – VERGER HISTORIADOR, POR JOÃO JOSÉ REIS.
No posfácio, o escritor João José Reis diz que “Fluxo e Refluxo” (livro de Pierre Verger) é um estudo detalhado do tráfico negreiro para a Bahia a partir do Golfo do Benim, região então considerada pelos luso-brasileiros como Costa da Mina. Ela se estende do sudoeste da Nigéria ao litoral do Togo, passando pela República do Benim.
No entanto, segundo ele, para efeito do tráfico baiano, “a geografia abrange também paisagens mais interioranas do Golfo, como o reino de Oyó, ao norte do território iorubá, chegando mesmo ao país haussás, ainda mais adentro, no norte da Nigéria”. Antes de realizar o livro, Verger já tinha percorrido vários lugares.
Em seu comentário, José Reis destaca que, “se os jejes foram maioria entre os africanos traficados ao longo do século XVIII, os nagôs predominaram no século seguinte, numa concentração nunca antes verificada, pois chegaram a constituir cerca de 80% dos cativos nascidos na África que viviam na Bahia no final da década de 1850”.
Os números apresentados por Verger sobre o tráfico no Golfo do Benim foram revisados pelo projeto Slave Voyages que documentou cerca de 36 mil viagens negreiras entre a África e as diversas regiões das Américas. Pelos dados levantados, o Brasil figura como a região que mais importou mão-de-obra africana escravizada, em torno de 45% dos pertos de 11 milhões de vítimas do tráfico transatlântico.
De acordo com Verger, a Bahia teria recebido 1,2 milhão de cativos, 71% dos quais vindos do Golfo do Benim. “Esses números agora cresceram para 1,5 milhão, o que corresponde a 32% do tráfico brasileiro, mas a proporção registrada por Verger para os vindos do Golfo do Benim se mantém, pelo menos para o século XIX”.
Ainda conforme o autor do posfácio, Verger noticia com detalhes que a autonomia baiana no tráfico era relativa, ou melhor, era disputada no sentido de que os negociantes estavam em constante tensão com a Coroa Portuguesa e seus representantes coloniais quanto a regulamentação e ao controle do comércio de gente. A metrópole buscou por diversos meios disciplinar o comércio entre as duas regiões, no que encontrou acirrada oposição de uns traficantes.
“Do outro lado do tabuleiro, os africanos negociavam com absoluta soberania junto aos comerciantes e representantes europeus, muitos deles dublês de traficantes. O poder e a riqueza dos reis, chefes e negociantes africanos cresceram à sombra do tráfico, pelo que competiam e guerreavam entre si em busca da preferência no fornecimento dos cativos. Por vezes, vários governantes da África enviavam embaixadas à Bahia e a Lisboa (mais tarde ao Rio de Janeiro), para negociar termos das relações comerciais…”
Portugal, França, Holanda, Inglaterra e Espanha, principalmente, foram nações envolvidas no tráfico com seus impérios coloniais. Verger deixa claro que os europeus foram os principais responsáveis pela trágica história do tráfico.
Apesar de alguns historiadores apontarem o ano de 1931 como primeira proibição do tráfico para o Brasil, no caso da Bahia essa data é anterior, já que pelo tratado de 1815, entre Portugal e Inglaterra, esse comércio seria oficialmente abolido acima da linha do Equador. Nessa latitude estavam os principais portos que faziam o tráfico com a Bahia, localizados no Golfo do Benim. Desde 1810, os cruzadores ingleses aprisionavam navios baianos naquela linha.
“No caso da Bahia, o caráter internacional do tráfico ilegal permanece até o último e trágico desembarque, em 1851, que resultou na morte de dezenas de escravos afogados ou de cansaço e fome. No chamado desembarque da Pontinha, o navio negreiro Relâmpago tinha por capitão um venezuelano, o piloto e o copiloto espanhóis de Málaga, um italiano como seu último proprietário e o rei de Lagos (Onim) como principal interessado na carga humana”.
No mesmo ano de 1851, a Inglaterra bombardeou Lagos, depôs o rei Kosoko e o substituiu por Akitoyê, que aceitou a política antitráfico inglês. Assim tinha início a ocupação britânica na Nigéria. Verger denuncia em sua obra que o espírito dos colonizadores na África era de que o branco, “mesmo se um bandido em território africano, devia sempre ser respeitado pelas autoridades africanas”.
Segundo Verger, os iorubás, enquanto nagôs, teriam criado na Bahia uma nova civilização harmônica, tendo na religião os orixás, o seu principal pilar. Sobre as rebeliões na Bahia, como a Revolta dos Malês, em 1835, Verger seguiu os passos de Nina Rodrigues através de pesquisas no Arquivo Público da Bahia. Eles atribuíam ao islã militante a responsabilidade pelos movimentos.













