Há dez anos, em 13 de junho, surgiam as manifestações em São Paulo por um grupo de jovens que contestavam as tarifas de ônibus e lutavam para que os transportes coletivos não fossem pagos. A princípio, tudo era ordeiro, mas os movimentos foram engrossando e descambando para outras reivindicações, se espalhando por todo Brasil.

Sempre dizem que os brasileiros têm pouca memória, e a mídia em geral não faz uma reflexão sobre aqueles episódios que ocorreram no governo de Dilma Russelff. Li poucas análises   políticas-científicas e sociológicas sobre aqueles acontecimentos em artigos na imprensa escrita, muitas na linha academicistas.

Prefiro uma linguagem mais direta e objetiva de que foi dali que despertou ou ressuscitou a extrema direita do Brasil que estava mofando em túmulos e armários, gerando depois o ovo da serpente de nome Jair Bolsonaro, filhote do chamado baixo clero na Câmara dos Deputados onde esbravejava impropérios e destilava sua raiva contra o PT, sem falar nas suas atitudes racistas, homofóbicas, ditatoriais e misóginas.

As jornadas de junho invadiram nosso país, e das tarifas, o povo e outros infiltrados baderneiros e vândalos extremistas passaram a cobrar casa própria, mais justiça social, segurança pública, um monte de direitos individuais com cartazes na mão e gritos de rebelião. Das tarifas, o alvo maior passou a ser a corrupção generalizada no governo apurada pela Operação Lava-Jato, sem falar no “bota fora” de Dilma (golpe da direita).

Sem contar a ascensão dos evangélicos que já vinham ganhando terreno (Malafaia e outros pastores) em seus comandos de postos e cargos na política no Congresso Nacional e mostravam sua cara conservadora, o ovo da serpente nazifascista começava a sair da casca, culminando com sua eleição em 2018.

O junho de 2013 foi o despertar do extremismo fascista medieval negativista da ciência e da elite burguesa que não aceitava sentar ao lado dos mais pobres nos aviões dos aeroportos, frequentar shopping center e nem ver uma classe, antes mais baixa, comprar veículos nas concessionárias. Lula colocava lenha na fogueira dizendo: “É nós contra eles”. A ira só fez aumentar, inclusive entre famílias, de pais contar filhos e irmãos contra irmãos.

Dalí surgiram outras enxurradas de movimentos nas ruas, como os camisas amarelas ou da seleção brasileira a pedir o impeachment de Dilma, colocando como mote principal as corrupções generalizadas. Tiveram ainda o bate panelas contra o PT e seu modo de governar. O partido se fechou em seu casulo e rejeitou reconhecer seus erros, fazer um mea culpa.

O juiz Sérgio Moro, que depois foi ser ministro do capitão Bozó e considerado parcial pelo Supremo Tribunal Federal nos julgamentos de Lula e de seus companheiros, passou a ser visto como o herói da nação, de homem íntegro a serviço de bem contra o mal.

Até comentaram que ele estava a serviço da extrema-direita norte-americana para destroçar a esquerda. Foi esse mesmo grupo que depois elegeu o maluco do Trump que veio apoiar o governo do capitão-presidente. A grande mídia não ficou de fora com seus exorcismos contra os diabos malignos, mas tivemos o trabalho diferenciado da imprensa alternativa mostrando o outro lado da história.

Seus aliados, como o MST e as centrais sindicais não apresentaram força suficiente para conter a onda fascista terraplanistas e deu no que deu. A oposição foi opaca, dúbia e equivocada. Na verdade, o ódio e a intolerância tiveram origens lá atrás nas jornadas de junhos. As redes sociais exerceram destaque e papel preponderante na disseminação dos atos agressivos e das fake news desde os fatídicos fenômenos de junho de 2013.