UM SÃO JOÃO PROFANADO PELOS INTRUSOS TRAVESTIDOS DE CANGACEIROS
São uns verdadeiros caras de paus esses cantores de arrocha, sofrência, lambadas, axé, sertanejos ou “sertanôjos”, forró eletrônico dentre outros ritmos, sem letras e enredos de conteúdos, subirem aos palcos com indumentárias de chapéus de couro e de cangaceiros para impressionar o público e ainda dizer que estão defendendo a nossa tradição junina! São uns profanadores e predadores carcarás travestidos de falsos forrozeiros!
As cenas são hilárias e lamentáveis, mas o pior ainda são esses prefeitos safadões e ladrões da nossa cultura que contratam essas bandas e músicos por 200 a 500 mil reis quando toda essa grana poderia ser distribuída pelos forrozeiros autênticos da terra prata da casa e mesmo outros nacionais símbolos do nosso forró pé de serra ou arrasta-pé que estão na estrada há muitos anos.
Todos os anos existe essa invasão de bárbaros na nossa festa junina, tipicamente nordestina, que fala da vida desse povo, de amor, de seus hábitos, costumes e da saudade da terra de origem, com o consentimento da população e dos turistas, sem falar do apoio dessa mídia que se cala ou faz elogios diante desses absurdos e anomalias.
Neste ano fiquei de fora, por problemas pessoais, desses festejos que tanto amo mais que o Natal e Ano Novo (nem falo do carnaval bagaceira elitizado), mas fiquei estarrecido com as imagens na televisão em “reportagens” jornalísticas da grande mídia jogando confetes nessas contratações de intrusos que descaracterizam o nosso São João de Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Marinês, Sivuca, Trio Nordestino e tantos outros que nos deram tantas alegrias ao som da sanfona, do triângulo e da zabumba.
Todos os anos os forrozeiros autênticos denunciam e protestam contra esses intrusos em nossa festa, mas, infelizmente, cada ano a coisa sai pior e o nosso forró vai perdendo espaço para essa turma de aproveitadores e oportunistas que nada têm com o chamado pé de serra. O mais ridículo é que eles dizem que tocam forró desde criancinhas e aparecem vestidos de cangaceiros. Os artistas e os movimentos culturais bem que podiam lançar um manifesto público de repúdio.
No entanto, sou obrigado a concordar que os maiores culpados são esses prefeitos politiqueiros que, com o nosso suado dinheiro, contratam essa gente de fora com cachês de até 500 mil reais, muitos dos quais superfaturados onde uma parte é subtraída para os bolsos deles e de seus assessores. SE os tribunais de contas fizerem investigações mais rígidas e profundas, com certeza, vão encontrar irregularidades nesses “contratos”.
Culpados ainda são o Ministério Público, os artistas nordestinos, os intelectuais, as comunidades e outros segmentos de preservação da nossa cultura que pouco fazem para evitar essa mistura indigesta que nada tem a ver com o nosso forró, nosso baião, nosso xote e xaxado que nasceram do fifó do candeeiro e da lamparina na poeira dos arrasta-pés.
Os festejos juninos de Santo Antônio, São João e São Pedro (São José poderia também ter entrado nesse grupo da Igreja Católica) sempre representaram tradição, religiosidade e fé e vieram dos salões nobres da Europa (passagem do solstício da primavera para o verão), principalmente de Portugal, para nossos recintos populares (quadrilhas e o maracatu) com um conjunto de hábitos simbólicos que também estão desaparecendo com o tempo, inclusive nas comidas e bebidas.
Somente os amantes verdadeiros das festas juninas ficam indignados com o que está ocorrendo. Não se trata de saudosismo, mas de respeito à nossa ancestralidade, e é uma questão de preservar nossa memória para que ela não seja apagada por esses invasores bárbaros que contam com a safadeza de muitos prefeitos e até da aquiescência dessa mídia que só visa o lucro e a audiência.
Vitória da Conquista é um exemplo que contratou o Thierry do arrocha e da sofrência. Vi e ouvi a mídia local dizer que foi um tremendo show. A tendência é que com o passar dos anos o nosso forró será esmagado por essa gente fantasiada de cangaceira e chapéu de couro e sandálias nordestinas.











