As “letras musicais”, se é que podem ser chamadas de letras, do carnaval deste ano, em Salvador, puxadas pelos trios dos mais “famosos”, bateram o recorde em porcarias horríveis em termos de pornografia nos pagodes, axés, arrochas e rebolas, tratando as mulheres como objeto sexual, sem falar no assassinato da nossa língua portuguesa. Isso tudo reflete anos e anos de péssima educação no ensino brasileiro.

O mais interessante, irônico e paradoxal, quando se fala em respeito às mulheres, vítimas de assédio sexual nos circuitos da folia, é que praticamente não vi nenhuma reação de repúdio dos grupos e entidades feministas, de sociólogos, psicólogos, antropólogos, de cantores e compositores da velha geração e da mídia que até deu troféu e fez propagandas de estímulos.

Ganhou “zona de perigo” – “bota no meu boneco”, do Léo Santana, que é uma apelação clara no tratamento com a mulher. Num trio, não me lembro bem qual, tem a cena de um cara explicitamente batendo na bunda de uma mulher. A plebe ignara ou a multidão alienada lá embaixo no asfalto vibrava e pulava.

Uns tempos desses foi feito uma enquete em Salvador sobre essas “letras” de duplo sentido sobre as mulheres e a maioria delas achou normal e que não se importava. Cadê os movimentos feministas? Eu só queria entender esse planeta dos macacos. Cuidado que pode cheirar a ofensa e alguém querer me processar.

O mais contraditório nisso tudo é que de um lado aparecem campanhas, inclusive da mídia, no sentido do respeito às mulheres no carnaval, dizendo ser crime passível de prisão. Do outro vem o consentimento e o silêncio com relação a essas letras horrorosas e agressivas.

Nossa sociedade e os segmentos dela, que se dizem organizados, é hipócrita, nojenta e fedorenta. Qual moral para condenar os assediadores sexuais com beijos e pegadas forçados, se lá em cima do trio desses cantores é só baixaria? Entre tantas, tem outra “letra”, não sei de Ivete Sangalo, que diz se “nós bebe, senta”, se nós senta, bebe”.

Ainda tem gente que chama esse conjunto de rebolados e de bumbuns nus de conteúdo. As escolhas das “melhores letras”, isto é, que mais bombaram no circuito e nas redes sociais, receberam mais de um milhão de votos. É muita gente despolitizada.

A mídia é a mais omissa que, por interesse particular na audiência e no dinheiro dos patrocinadores, ao invés de criticar e denunciar esse monte de porcaria que nos envergonha, faz é elogios, divulgação massiva e promove prêmios, quando deveria pelo seu papel de formadora de opinião, apoiar as boas letras e músicas. Ela está sendo é deformadora.

Confesso que não entendo essa gente, mas é para não entender mesmo (olá meu companheiro jornalista Carlos Gonzalez, diga aí). Conivente nos momentos que lhe interessa, mistura consentimento com condenação num caldo paradoxal e triste de se ver.

Depois é só dizer que nossa sociedade é por natureza culturalmente machista. Do outro lado, ela mesma contribui para a continuidade desse quadro retrógrado, atrasado e misógino. O mais preocupante é o silêncio dos bons, como dizia o pastor Martin Lutter King em seu discurso sobre a igualdade social e humana.  Sem mais comentários, antes que eu arrote mais xingamentos e revoltas.