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CONSELHO IMPULSIONA A CULTURA EM CONQUISTA

Carlos González – jornalista

Um ano de trabalho foi o suficiente para que o conquistense observasse que o esforço de um pequeno grupo de voluntários, eleitos em agosto passado para compor o Conselho Municipal de Cultura, deu um impulso num dos ramos mais importantes da política social de qualquer administração pública. A pandemia e o empenho de um governo inteiramente voltado para a reeleição – Cultura, deve ter pensado o gestor, não dá voto – contribuíram para o estado de abandono dos artistas da região.

Na gestão passada, de influência bolsonarista, as atividades culturais em Vitória da Conquista ficaram praticamente limitadas às apresentações da Neojiba, um núcleo de formação de orquestras infantis e juvenis vinculado à Secretaria de Justiça do Estado.

O tratamento dado pelo ex-prefeito Herzem Gusmão (1948-2021) à cultura, dentro da mesma linha do governo federal, com nítido viés evangélico, não traz boas lembranças à classe artística de Vitória da Conquista. Bolsonaristas fanáticos defendiam a queima dos livros do educador Paulo Freire (1921-1997) e do escritor Monteiro Lobato (1882-1948) e modificavam fatos históricos inseridos nos livros didáticos, como por exemplo a ditadura militar (1964-1985).

Manifesto assinado por artistas, intelectuais, políticos e cientistas denunciou na época a “escalada autoritária” do governo Bolsonaro, considerando-o como ultraconservador, colocando-se como censor de livros e de filmes, e dificultando o acesso da ciência às pesquisas nas universidades

Com uma visão menos conservadora, a prefeita Sheila Lemos tem reservado para a cultura parte da sua agenda de trabalho. Depois de nomear para a Secretaria de Cultura, Turismo, Esporte e Lazer (Sectel) pessoas que não estavam preparadas para o cargo, a gestora foi buscar um nome ligado à música sertaneja de raiz, o cantador Eugênio  Avelino Lopes Souza, popularmente conhecido pelo nome artístico de Xangai. Há mais de 50 anos ele divulga a música nordestina nos palcos e festas populares por todo o Brasil.

Frasista, o romancista paraibano Ariano Suassuna (1927-2014) manifestou certa vez ser “a favor da internacionalização da cultura, mas não acabando com as peculiaridades locais”. Na abertura de seu discurso de posse, proferido em julho de 2021, Xangai prometeu, como principal meta de sua administração. “harmonizar o setor, evitar a política e levar a cultura de Vitória da Conquista a todo o planeta”.

Xangai comprometeu-se a batalhar para conseguir recursos com a finalidade de proporcionar, pelos menos sobrevivência, aos artistas conquistenses, “abandonados durante a pandemia”, com muitos deles vivendo no anonimato na zona rural do município.

“Eu estou puto”, protestou Xangai, e completou: “É uma covardia; abuso de confiança”, ao ver o seu nome associado ao do deputado Jair Bolsonaro na campanha presidencial de 2018. Aquela apropriação indébita de seu nome e de sua imagem levou o cantador, ao ser convidado para o cargo, advertir a prefeita de que não se envolve com a política partidária.

Xangai se cercou de pessoas dispostas a colocar em prática seu programa de trabalho, eleitas sem qualquer tipo de ingerência e imunizadas contra a burocracia, um vírus que emperra o serviço nas repartições públicas do país. Assessores diretos do secretário, o Conselho Municipal de Cultura teve recentemente um encontro com a prefeita para fazer a entrega de várias propostas, entre elas a de  criar uma secretaria especial para a Cultura e organizar feiras de livros.

Feira Literária em Belo Campo

Argumentou o CMC que é inviável para qualquer administrador se dedicar, como o município pede, a quatro atividades essenciais à população. Os conselheiros reforçaram a ideia de que o conquistense não lê (livrarias fechando as portas, quatro ou cinco bancas de revistas em toda a cidade e os jornais de Salvador chegando no dia seguinte), conseguindo arrancar de Sheila a promessa de organizar ainda este ano um festival literário.

“Não dá pra entender que municípios de menor potencial promovam eventos literários, enquanto nós conquistenses, que temos uma população de mais de 400 mil habitantes e contamos com cinco universidades, estamos em débito com a nossa Cultura”, lamentou um dos conselheiros.

Nessa reunião foi lembrada a Feira Literária e Gastronômica de Belo Campo, divulgada em rede nacional pelo G1, onde os visitantes conviveram com variadas mostras culturais do sudoeste baiano, e percorreram estandes de vendas e exposições de livros de autores da região. Ainda este ano cinco cidades vão aquecer a cultura baiana. Uma delas é Cachoeira, no Recôncavo, que realiza, entre os dias 24 e 27 de outubro, sua festa literária internacional, a Flica, considerada como a mais charmosa do Brasil.

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SÍMBOLO NORDESTINO

Ah, os cordeias que nos fazem entrar no túnel do tempo desde a época medieval, na voz dos anunciadores dos fatos que aconteciam nos reinos! Eram os repórteres das notícias. Da oralidade para a escrita, ganharam notoriedade. Da Península Ibérica, com os portugueses, vieram bater no Nordeste onde se deram bem e prosperaram em terra árida do agreste, com seus cantadores e repentistas de viola. Eles são símbolos da nossa cultura nordestina, e Ariano Suassuna é um dos grandes representantes desse gênero, tão espirituoso, criativo e mensageiro que, em cima das verdades, crenças e lendas, crescem em outras estórias e nos faz rir e também refletir. O meio acadêmico não tem dado o seu devido valor que merece, por ser uma cultura popular, embora rica em sua linguagem. Os cordéis me fazem lembrar Patativa, Cuíca de Santo Amaro, Bule-Bule, Apolônio Alves, Arievaldo Viana Lima, Antônio Brasileiro Borges, Cego Aderaldo, Elias de Carvalho, Firmino Teixeira, Leandro Gomes de Barros (o maior dos maiores 1865-1918) e tantos outros. Um dos cordéis mais famosos foi A Discussão do Carioca com o Pau-de-Arara, de Apolônio Alves dos Santos. Tem também Cordel, de Patativa do Assaré e Peleja do Cego Aderaldo com Zé Pretinho do Tucum, de Firmino Teixeira do Amaral. O cordel veio com os colonizadores, mais precisamente em Salvador. Estudos apontam 1893 como o marco desse gênero literário, quando o paraibano Leandro Gomes teria publicado seus primeiros versos. Erram folhetos amarrados em cordas, vendidos a baixo custo nas feiras e locais públicos. Eles estavam presentes na Feira Literária de Belo Campo, da qual participei e tive a honra de flagrar esses livrinhos tão mágicos. É uma foto que muito representa nossa literatura, a arte do jogo de palavras.

A VELHICE

Verso de autoria do jornalista Jeremias Macário

Da velhice fazem piadas,

Que dói aqui, dói acolá,

Esquece que seu dia vai chegar,

Para seu ciclo fechar.

 

Falam que a velhice,

Volta a ser criança,

Que ela é o renascer,

Com a face da sabedoria,

A firme crendice,

Que não existe,

Uma única filosofia.

 

Velhice não é o fim,

É só um idoso jardim,

Colha dele sua flor,

Da senhora ou senhor.

 

Ela está no rio,

Que se encontra com o mar;

É terra em seu cio,

Semente que vai renovar,

O amanhecer do amanhã,

Fumaça do grande chamã,

O sol, montanha e o ar.

 

Meu camarada,

Você não sabe distinguir,

Entre o tudo e o nada;

Use sua cuca inteligente,

Para ser mais engraçado,

Que a velhice de repente,

Vai estar bem ao seu lado.

ANISTIA TOTAL PARA OS ENDIVIDADOS VÍTIMAS DOS BANQUEIROS AVARENTOS

Pelos anos de agiotagem dos banqueiros, financeiras e operadoras de cartão de crédito, cobrando juros exorbitantes dos brasileiros, o governo, se fosse sério e tivesse pulso forte, deveria decretar anistia total para as dívidas dos empréstimos consignados descontados todos os meses dos aposentados do INSS.

O mesmo poderia ser feito para daqueles que também foram obrigados a se endividar, vítimas da inflação e dos baixos salários que não são suficientes para cobrir as necessidades básicas de sobrevivência. Essa anistia não abalaria o sistema financeiro e ainda reduziria substancialmente o endividamento e a pobreza no Brasil. Numa pancada só, resolveria boa parte de um grave problema social.

Nesses tempos “modernos” de tanto consumismo desvairado que se mistura com as necessidades básicas de viver nas cidades, nos deparamos com intrincados problemas sociais que às vezes nos deixa até em estado de depressão e estresse.

O desemprego, o custo de vida, o endividamento e a pobreza são faces da mesma moeda maldita que está deixando milhões de seres brasileiros aflitos, atormentados e doentes do corpo e da mente. O pior é que de imediato não existe uma vacina para curar esse paciente desses vírus.

Em parte, esse endividamento vem da ânsia consumista (uma droga perigosa) de se comprar tudo que se vê, para manter uma aparência imposta pela sociedade capitalista. Da outra, é acarretado pela inflação nos produtos e serviços que a pessoa tem que pagar para sobreviver, incluindo luz, água, aluguel e alimentos.

Existem vários tipos de endividados. Tem aqueles que usam o cartão de crédito, com juros na estratosfera, como se fosse dinheiro de graça em caixa. Quando se acorda do sonho e é intimado a quitar o débito, escolhe como única saída pagar o mínimo que vira uma bola de neve.

Tem o endividado do empréstimo, feito justamente para amortecer a dívida contraída, e ainda o do consignado idoso aposentado do INSS que foi obrigado a apelar para essa modalidade porque seu benefício é simplesmente uma merreca que não dá para atender suas despesas com comida, habitação e remédios.

Nisso tudo aí, entram os vilões roedores de porões que são os banqueiros, financeiras e as operadoras de cartão de crédito. O desemprego, outra marca da nossa miséria, levou uma legião de gente às ruas para oferecer possibilidades de crédito, principalmente de jovens que ficaram no olho da rua interceptando os transeuntes a entrar numa loja para pegar uma grana.

Esses setores são os exploradores frios e avarentos que mais estão se enricando com a miséria provocada pelo sistema econômico perverso e a fraqueza de espírito dos viciados consumidores compulsivos. Esses segmentos agiotas improdutivos são os verdadeiros sugadores de almas, os chamados chupa-cabras alienígenas extraterrestres.

Para essas lacrais venenosas, que há anos já embolsaram bilhões de reais com juros nas alturas (existem até a taxas de riscos por perdas), caso houvesse um governo de credibilidade e sério, deveria ser decretada uma lei de anistia total para os endividados nas classes dos consignados e para as vítimas da inflação que tentam sobreviver com o salário mínimo para pagar as contas básicas em dia.

Pelos anos de parcelas e mais parcelas que já foram quitadas, com juros exorbitantes, essa turma da agiotagem (bancos, financeiras, operadoras de cartão de crédito) já recebeu de volta tudo que já foi emprestado com o triplo dos valores. Portanto, uma anistia total não abalaria os alicerces desse sistema selvagem que arranca até as entranhas dos pobres brasileiros.

 

A VISÃO ROMÂNTICA DE ESCRITOR

De supetão chega um moço falante com seu filho ao lado em minha mesa numa Feira Literária e vai logo me perguntado em que horas eu escrevo, se pela manhã, à tarde ou pela madrugada. Fico atônito por ter me pego de surpresa e respondo que a qualquer momento do dia e, às vezes, parte da noite, mesmo porque tenho o hábito de dormir por volta das duas da madruga.

O senhor bem afeiçoado não parou por aí, e foi me enchendo de outros interrogatórios, semelhante a uma criança curiosa, mas também com aquela visão romântica que se tem de um escritor ou de um outro qualquer artista, como se não fosse um humano, e sim, um deus qualquer vindo do Olimpo. Por último, quis saber se eu era mesmo formado numa universidade.

Aquele papo ligeiro e inquisidor, confesso, me deixou encabulado porque ninguém nunca me fez esses questionamentos, mas sobre o conteúdo da obra, editora, gênero ou outra coisa parecida. O visitante não parava de me interrogar, como se eu estivesse ali num tribunal para ser condenado, ou numa prova para testar se eu era falso ou verdadeiro.

Fiquei até animado porque achei que, finalmente, iria vender um livro para, pelo menos, comprar o leite do “véio”, ou pagar minha gasolina e estadia na cidade, logo eu que estava ali parado pensativo só olhando as pessoas passarem em frente ao meu estante, sem ao menos entrar para conhecer o trabalho daquele jornalista caipira do interior.

Que nada! Conversou, sapateou; fez aquele monte de perguntas; e depois foi-se embora, sem levar pelo menos um exemplar debaixo do braço. Pensei comigo naquele ditado de que “alegria de pobre dura pouco”. Acho até que ele estava mais pretendendo deixar o filho impressionado com sua “desenvoltura de bom letrado”. Ora, poderia ao menos ter presenteado o filhote que ficou calado só observando suas investidas sobre o mundo da escrita.

Além da sua mentalidade romântica, o que mais me deixou encafifado foi sobre se eu era mesmo formado, como se existisse alguma faculdade para escritor, ou quem não fez um nível universitário não tivesse capacidade para escrever um livro. Quem sabe, na ideia dele, fosse até proibido parir um livro, sem antes não pegar um “canudo” de doutor depois de passar anos alisando banco de escola, decorando gramática, datas históricas e teoremas de Pitágoras.

De certa forma aquele lance foi inusitado e até engraçado, mas depois fiquei a imaginar que ainda existe gente que possui uma visão romântica medieval da “belle époque”, ou do “mal de siècle”, onde o artista escritor, músico, poeta, pintor, escultor, ator/atriz ou de outra linguagem era um ser de outro universo que não dorme, não come, não bebe, não faz sexo, não precisa de dinheiro e vive só de boemia, lambendo as sobras dos outros.

Talvez seja por essa ótica distorcida que pessoas ainda hoje desvalorizam tanto o trabalho do artista, sem falar que é visto como um marginal qualquer. Muitos acham que a arte de redigir um texto ou pintar um quadro é fácil de ser feita, daí não ter o mesmo valor ou superior a um bem material de consumo, como um belo vestido, um relógio, um celular ou um terno.

Na conversa daquele homem, para ser escritor ou fazer uma peça artística qualquer tem que ter muita insônia, ou andar por aí vagando em noite de lua cheia com lobisomem. Grandes escritores, como Tolstói, Dostoievsky, Hemingway e até brasileiros sofriam de insônias terríveis; atravessavam noites nas boemias etílicas, mas isso não é uma regra geral.

Cada um tem seu hábito de vida e opta mesmo pelos seus horários prediletos e momentos de inspiração. A noite pode até ser uma criança para uns, mas outros preferem dormir bem para levantar com a cabeça fresca para elaborar sua obra.

A minha lida jornalística de 50 anos me ensinou e me treinou a escrever a qualquer hora, mesmo porque esse tipo de profissional é escravo do fato, o qual não tem hora para acontecer. Quanto a escrever um livro, você tem mais liberdade, e não existe o leitor em sua cola, mesmo assim tem aquele editor lhe cobrando, sugando quanto pode o seu suor ou seus neurônios.

NOVA CEASA AO NÍVEL DE CONQUISTA

Estive neste sábado pela manhã (dia 06/08) visitando o novo Centro de Abastecimento de Vitória da Conquista com meu amigo jornalista Carlos Gonzalez e gostei do que vi em termos de estrutura e organização, se bem que ainda não esteja em pleno funcionamento (ainda falta muita coisa).

Agora sim, Conquista vai contar com uma Ceasa ao nível da cidade, porque a antiga na Avenida Juracy Magalhães, com aquela sujeira e desorganização, era uma vergonha, não somente para moradores e visitantes. A nova empresa, na saída para Anagé e Brumado e outras cidades do nosso sertão, na boca da caatinga, é fruto de um consórcio de empresários de Jaguaquara.

Por falar nisso, o crescimento de Conquista deve-se muito à iniciativa privada em vários setores, como na educação e na saúde. Há 32 anos venho acompanhando esse processo, principalmente com minha narrativa jornalística. Até o final dos anos 90, Conquista só tinha a Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia-Uesb sofrendo uma carência enorme no ensino de nível superior.

Para contornar o problema, foi um grupo de empresários que tomou a frente para criar faculdades, com a oferta de vários cursos, “forçando” o poder público a também entrar nessa luta para trazer a Universidade Federal e o Ifba. Da mesma forma ocorreu na área da saúde, com a vinda de muitas clínicas e hospitais, de baixa, média e alta complexidade.

Quanto a nova Ceasa, não deixa nada a dever com relação a outras existentes em cidades do seu mesmo porte na Bahia, inclusive Salvador, de certa forma até melhor e maior. O empreendimento, com praça de alimentação, lojas comerciais, prédio de administração, galpões de varejo e atacado e um vasto espaço para estacionamento, vai beneficiar milhares de comerciantes da região, abrangendo cerca de 70 a 80 municípios.

Como ainda não está em plena atividade, entendo que seja construída uma rotatória em sua entrada, para evitar acidentes, visto que o movimento de carros é intenso na proximidade da cidade. É uma obra que vai gerar milhares de empregos diretos e indiretos, sem contar os benefícios para os consumidores em geral, que terão outras opções de compra.

A INGLATERRA E A ESCRAVIDÃO (Final)

A INGLATERRA DECRETOU A ABOLIÇÃO DA ESCRAVATURA EM 1834, MAS, AO INVÉS DOS CATIVOS, INDENIZOU OS SENHORES COM O TESOURO DOS PRÓPRIOS CONTRIBUINTES, E AINDA RETARDOU A LIBERDADE DOS NEGROS AFRICANOS POR SEIS ANOS.

Até o final do século XVIII, as vozes contra a escravidão africana eram esparsas e desconectadas, mas sempre existiram manifestações desde o século XVI, incluindo textos de missionários capuchinhos, relatos de viajantes e outros documentos que criticavam a maneira como os negros eram escravizados e tratados.

Essa descrição do quadro é do jornalista e escritor Laurentino Gomes na segunda trilogia de “Escravidão”, acrescentando que, em sua gênese, o abolicionismo teve um importante componente religioso. “A grande revolução começou de forma religiosa, no adro das igrejas da Inglaterra e dos Estados Unidos”. Entre seus líderes estavam os quakers, uma vertente do protestantismo, criada em 1652 pelo inglês George Fox.

Os quarkers eram um grupo pequeno. Por volta de 1750 havia cerca de 90 mil nos Estados Unidos e no Reino Unido. Eram ricos, letrados, banqueiros, comerciantes, armadores e financiadores do negócio negreiro, influentes em suas comunidades. Foram convocados a desistirem do tráfico de cativos.

A esse grupo coube a criação da primeira sociedade de abolicionistas, sediada na Filadélfia e Nova York (EUA) e Londres e Manchester (Inglaterra). Nove dos doze da “Sociedade para Abolição do Tráfico de Escravos”, estabelecida em 1787, na capital britânica, eram quarkers.

Essa instituição serviu de modelo para outras organizações. Elas traziam uma mudança significativa. Refletiam a ideia de que a sociedade humana poderia ser algo maior do que apenas lucro, ganância e poder, conforme observou o historiador David Brion Davis.

O movimento reunia pessoas de diferentes origens e perfis sociais, de acordo com Laurentino. Quase todos tinham alguma filiação religiosa, como Anthony Benezet, francês de pais protestantes, professor de uma das raras escolas para negros existente nos EUA, na primeira metade do século XVIII, e líder dos quarkers na Filadélfia.

Outro foi Benjamim Franklin, inventor do para-raios e um dos pais da Independência dos Estados Unidos. Tinha sido senhor de escravos até resolver libertá-los e aderir ao movimento abolicionista. Também John Wesley, teólogo anglicano, precursor do movimento espiritual que daria origem à Igreja Metodista, em 1739.

O reverendo John Newton foi capitão de navio negreiro antes de se converter, tornar-se abolicionista e compor um dos hinos religiosos de todos os tempos – Amazing Grace (Maravilhosa Graça), incorporada à cultura pop na voz de Elvis Presley.

Na Inglaterra destacaram-se Granville Sharp (o mais veterano), Thomas Clarkson e William Wilberforce. Granville defendia a causa dos negros escravizados desde 1765. Foi autor de um plano para criação de uma colônia para ex-cativos na costa da África que daria origem ao atual país de Serra Leoa.

Clarkson foi o mais infatigável de todos abolicionistas. Durante sua campanha, teria viajado 50 mil quilômetros pela Grã-Bretanha fazendo pesquisas a respeito do negócio negreiro e divulgando suas ideias.

Segundo Laurentino, o abolicionismo foi também a primeira campanha popular a usar técnicas modernas de propaganda de massa com fins políticos. Seus líderes tinham a consciência de que não bastava a defesa de princípios morais e valores cristãos para convencer a opinião pública quanto o abolicionismo.

Reuniões, palestras e comícios nas ruas e praças ajudaram na promoção dos milhares de abaixo-assinados que chegaram ao Parlamento. A participação feminina foi intensa e importante, como o boicote do açúcar produzido nas colônias escravistas do Caribe. O abolicionismo, além de uma filosofia, tinha um cunho ativista.

Um caso particular de crueldade do tráfico se tornou comoção nacional. Foi a tragédia ocorrida a bordo de um navio negreiro entre a África e o Caribe, no dia seis de setembro de 1781, com o navio Zong, de Liverpol. Essa nau saiu da África para Jamaica com excesso de carga.

No meio do Atlântico, em novembro, 60 negros já haviam morrido. Temendo perder toda carga, o capitão Luke decidiu jogar ao mar todos escravos doentes ou desnutridos. Em três dias, 133 negros foram atirados vivos da amurada, e só um conseguiu escapar.

Era um horror a viagem nos porões, como narra  Laurentino. Lá  dentro, a cada homem adulto cabia um retângulo de 1,82 metro de comprimento por 40 centímetros de largura. Cada menina espremia-se numa faixa de 1,22 metro por 35,6 centímetros. A altura entre as diferentes plataformas era de 1,70 metro.

Nos Estados Unidos, um grupo liderado por Benezet conseguiu fazer aprovar, na Pensilvânia, em 1780, uma primeira lei de emancipação gradual. Medidas idênticas foram aprovadas depois em Massachusettes, Vermont, Connecticut, Nova York, Nova Jersey e Alto Canadá.

Na Inglaterra, em 1805, o governo concordou em banir a importação de cativos para os territórios da Guiana e ilha de Trinidad. No ano seguinte proibiu os súditos de se envolverem no comércio de escravos com domínios e colônias estrangeiras.

Em março de 1807, o tráfico foi totalmente proibido a partir de primeiro de janeiro do ano seguinte, mesma data em que os EUA proibiram a importação de novos cativos em seus domínios. No entanto, a abolição total só viria mesmo em 1865, após a Guerra da Secessão.

Portugal, Espanha e o Brasil foram as últimas potências escravistas do hemisfério ocidental a extinguir o tráfico. Entre 1820 a 1880, cerca de 2,3 milhões de africanos escravizados embarcariam em navios negreiros rumo a América, a maior parte com destino a Cuba e Brasil.

Em 1834, o movimento conseguiu a tão sonhada vitória que foi a abolição, não apenas do tráfico, mas da própria escravidão em todos os territórios britânicos, só quer a um grande custo para o Tesouro. O parlamento abolia a escravidão comprando de seus donos, 800 mil cativos.

O dinheiro foi usado não para indenizar os escravos pela exploração do trabalho cativo, mas para compensar os senhores pela perda do que consideravam um investimento e um valioso patrimônio. Lord Harewood, um dos mais ricos da época recebeu 26 mil libras esterlinas pela alforria de 1.277 negros. Além disso, a liberdade foi somente para crianças com até seis anos de idade. Os demais tiveram que ficar mais seis anos com seus antigos donos na condição de “aprendizes”, sob a orientação de seus senhores.

O ATRASO E O MORALISMO NUM PAÍS CRISTÃO DE HERANÇAS CONSERVADORAS

Na verdade, alimentamos diariamente nossos espíritos de mentiras, até nas juras de amor no altar, como bem disse o nosso cancioneiro do rock Raul Seixas, e nas histórias dos vencedores contra os vencidos, dos brancos com relação aos índios, enganados com presentes fajutos. Mentimos nas trapaças e ainda queremos impor nossa moral. Tentamos enrolar o meio ambiente, mas este nos dá o troco. Pouco evoluímos, se mentimos para nós mesmos.

Todo atraso e moralismo de uma sociedade cristã-judaica foi exportado de Portugal para o Brasil quando aqui aportou Cabral com suas naus. A primeira chaga se deu com a escravidão a partir do século XVI, um sistema que durou cerca de 350 anos, o último a ser “abolido” no hemisfério ocidental, mas que ainda persiste de forma estrutural e institucional por uma elite egoísta que se acha raça superior e recusa mudar seus conceitos medievais de propriedade.

O atraso e o moralismo andam de mãos dadas e criaram um quadro desumano e cruel. Na escravidão, a Igreja Católica foi conivente e ainda exerceu fortemente o papel de escravista, até fazendo parte do tráfico negreiro. Hoje pede perdão pelos males, mas continua em seu pedestal confortável conservadorista, fora algumas ações pontuais. Na cisão luterana do século XVI, as ideias de renovação transformaram os evangélicos de hoje num bando de fanáticos extremistas, com algumas exceções de pastores com outra visão mais moderna.

Outra marca registrada foi o patriarcalismo coronelista corrupto e trambiqueiro, que até nos tempos atuais perdura, por mais que se tenha combatido e contestado. Ainda não inventaram uma substância química para limpar essas nódoas. Essas pragas sempre receberam a cobertura do moralismo e da impunidade, protegidos por um paradoxo de montanhas de leis criadas para serem burladas pelos poderosos.

Nesses 522 anos continuam vivos o atraso e o moralismo, este mais que safado e promíscuo de duas faces. Uma com aparência de bom cristão que disfarça seu racismo e homofobia quando o indivíduo diz numa entrevista que não carrega consigo o preconceito. A outra face está oculta quando se fala uma coisa para ficar bem na imagem da entrevista e se faz outra totalmente diferente entre quatro paredes. É o cruzamento entre dois animais de espécies diferentes que só gera aberrações.

Nos últimos anos temos visto estes atrasos e moralismos se expandirem cada vez mais. São inúmeros os casos que podemos aqui citar sem pejo de dizer que vivemos num país que nos envergonha. Um deles é a pobreza extrema de famílias com numerosos filhos, justamente dentro de um cenário de fome, como do menino de cinco irmãos com um celular que pede socorro à polícia por comida. Fica a interrogação sobre qual a prioridade, o aparelho ou o alimento, sem contar que existem milhões na mesma situação? Na mentalidade cristã, não deve haver controle de natalidade através dos métodos científicos.

Outro moralismo irracional é a criminalização das drogas ditas “ilícitas” cunhadas pelo sistema, mas a liberação de outras até piores com direito a propagandas e incentivos do capitalismo. É um atraso e absurdo como tratam a maconha até hoje, vista como coisa do demônio. Para se obter o óleo da canabis com fins de tratamento de crianças autistas e pessoas que sofrem de epilepsia, convulsões e outros transtornos parecidos, é preciso ter a liberação da Anvisa e autorização da justiça superior. Não é um atraso moralista?

Há cinquenta anos ou mais já se gastaram bilhões de reais com tanques, fuzis, metralhadoras e soldados nas ruas e favelas para combater o tráfico de drogas, com resultados cada vez mais nefastos, como os massacres e as matanças, sem considerar o crescente aumento desse comércio entre os bandidos. A ponta dos negociantes é relegada a segundo ou terceiro plano. Esse esquema estúpido não solucionou o problema, muito pelo contrário.

Para o Estado e o “cristão” moralistas fariseus, a descriminalização das drogas é um palavrão e coisa de comunista marginal. É para quem está com o satanás no corpo, ou é ateu. Do outro lado, consentem, permitem e fazem vistas grossas para as bebidas alcoólicas e outros vícios consumidos largamente, inclusive entre jovens menores nas baladas das noites etílicas de “músicas” levianas com sentidos de até violência.

A publicidade é proibida para o cigarro, mas não para a cachaça, o uísque e a cerveja. Prostituta é quem vive no prostíbulo, tratada com desprezo e discriminação. Mulher de programas é uma profissão sofisticada e até respeitada pelos moralistas de plantão. Servem de companhias para altas negociatas irregulares, para depois serem usadas nas comemorações.

No fim, somos todos escravos do moralismo que há séculos se enraizou em nossos conceitos de falsos espíritos cristãos, os quais vão para as igrejas, rezam, mas quando saem dali, se for preciso, passam a rasteiro no irmão do lado, por dinheiro ou interesse individual.

Fazemos de conta que vivemos numa plena democracia, mas todos os dias estamos violando os direitos humanos, negando a educação, explorando os trabalhadores, convivendo com a fome e os bárbaros crimes como coisas naturais. Trocamos o certo pelo errado e o normal pelo anormal. Um dos piores moralismos é o silêncio dos bons que proporciona o crescimento do mal.

BELA, PORÉM ABANDONADA

Em minhas andanças como repórter jornalístico, até hoje me emociona e sempre paro para tirar uma foto quando vejo uma capelinha, pois, como já disse várias vezes, sou mais as capelas do que as catedrais, porque nelas (as capelas) está a simplicidade e a sinceridade da fé dos pobres sertanejos. Nas catedrais, os nobres exibem suas aparências e falsidades, como narram as histórias. Não há religiosidade tão fervorosa como nas capelinhas. Na semana passada, quando fui a Belo Campo participar da Feira Literária, antes de adentrar ao evento, me deparei com esta bela capelinha, porém abandonada, quando deveria estar bem conservada e limpa. Confesso que fiquei triste de ver seu estado. Imaginei quanto fieis e orações ela acolheu no silêncio dos pensamentos! Ela está situada na bela Praça da Prefeitura, que já deveria ter acionado seus prepostos e combinar com a Igreja para reformar esse belo monumento, de forma a combinar com o nome da cidade.

NA CONTRAMÃO

Do livro Pofesto – Ação Direta, de Danilo Jamal

Na contramão a arte,

Que tenta fugir dessa estrutura de tanta

Amargura.

Quem for artista que se cuide!

Repressão retada, truta!

Se vacilar eles vão querer de dar um pega

E não uma trufa.

Sempre eles, os donos da verdade

Absoluta.

Do outro lado, nós na luta,

Ferozes na labuta,

Por não aceitarmos esses filhos da puta,

Cheios de falhas na conduta,

Que não respeitam artistas de rua,

Que suam, todos os dias, para sobreviver,

Vencer e entender…

Por que nos prender?

Ah, tá! Eles pensam em deixar as ruas

Limpas, mas, pra quê?

Tem lógica esse pensamento?

Realmente, sinceramente…

O que falar dessas vendas nos olhos?

Incentivo só para os playboys nos postos.

Acidentes, sociedade no puro ódio,

Tempos retrógrados…

Quem é artista que fique ligado,

Negócio vai ficar pegado,

Alívio mesmo, só quando for carburar

Distante dos folgados.

Observem o que o cabresto faz?

Nos tira todas as possibilidades reais.

 





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