:: 29/dez/2021 . 23:41
CHUVAS, BUROCRACIA E FESTAS
Depois das chuvas e os estragos físicos e humanos, o sofrimento das vítimas tende a se agravar. É como uma grande ressaca depois de uma bebedeira. O socorro de alimentos, vestuário e objetos de uso pessoal feito através de doações serve de alívio nos primeiros dias, mas aí entra a burocracia que impede a recuperação de prejuízos e danos materiais para quem tinha pequenos negócios como meio de sobrevivência.
A mídia faz a cobertura jornalística dos fatos que acontecem no dia-a-dia, muitas vezes até com certa dose de sensacionalismo, mas esquece de pautar matérias para averiguar se as famílias foram mesmo atendidas como prometeram os governantes. Dentro de mais um mês, ninguém fala mais nisso e nem retorna aos mesmos lugares das catástrofes e das tragédias.
Infelizmente, essa prática é um dos maiores defeitos da nossa imprensa, inclusive a nível internacional. Em nosso Brasil, ainda com maior gravidade por causa do fantasma da burocracia que deixa muita gente para trás quando tenta recorrer ao recurso do governo para erguer sua casa, seu comércio ou adquirir utensílios valiosos que foram destruídos.
Quando se vai bater à porta da verba anunciada, o processo é sempre emperrado nas exigências de papéis e provas de que a família perdeu seus pertences. Essa medida de liberação do FGTS para o trabalhador é sempre praxe nessas ocasiões, só que milhares não dispõem desse dinheiro porque são desempregados e informais. Se for o caso de auxílio, tem que ter o Cadastro Único, e aí muita gente fica de fora do programa.
A Bahia, o estado mais afetado, como cerca de 100 mil desabrigados e quase 700 mil afetados pelos temporais, vai ficar com uma merreca dos 80 milhões de reais do governo federal destinados para o Nordeste. Essa conversa de que é só no início, não convence. Os prejuízos são incalculáveis, e o Governo do Estado não tem condições de arcar com tudo, como conserto das estradas.
Outro fato que a nossa mídia deixa de questionar são as festas de final de ano que muitos prefeitos vão realizar. Além de ser um tremendo desrespeito diante da situação calamitosa, tem o lado da contradição com a tão decantada solidariedade do povo brasileiro, que confunde doação de cestas básicas com sentimento humano.
A prefeitura de Salvador está anunciando shows pirotécnicos em 20 pontos da capital, sem contar os gastos com músicos e cantores. O município de Porto Seguro, no sul, região mais castigada pelas chuvas, vai realizar a maior queima de fogos de artifícios de todos os tempos. Vivemos no país das contradições e dos absurdos, principalmente na Bahia, cujo cenário atual é de terra arrasada pelas enchentes.
Todo esse dinheiro que está sendo investido nas festas de final de ano não poderia ser revertido para as milhares de famílias que hoje estão sem nada e vivendo em abrigos improvisados, expostos a todo tipo de doenças, inclusive da Covid-19 e da gripe influenza? Cadê o sentido de solidariedade? Tudo isso não passa de um grande paradoxo, pouco comentado pelos veículos de comunicação, porque eles também lucram com as festividades.
AS CHUVAS E O DESEQUILÍBRIO CLIMÁTICO
A Bahia e Minas Gerais sendo arrasados pelas chuvas e ele de férias em Santa Catarina se aglomerando com seus malucos seguidores e declarando que não vai vacinar sua filha de 11 anos. Mais parece coisa do anticristo na figura de um Herodes que mandou matar as crianças na Judéia. O pior é que ainda fala em pátria amada.
Sem mais comentários sobre essa personagem amaldiçoada num Brasil que sofre hoje todos os tipos de mazelas. Sobre as chuvas torrenciais em pleno mês de dezembro, prefiro classificá-las como desastre ecológico ou desequilíbrio climático de tanto o ser humano castigar e poluir o meio ambiente. Sobe o nível do mar e as catástrofes varrem a terra, impiedosamente.
O pior em tudo isso é que são sempre os pobres os mais atingidos pelas tragédias, como dessa natureza que leva tudo pela frente e deixa um rastro de destruição e mortes. Nesses casos, a mídia foca na força das águas e nos alagamentos que expulsam os moradores de suas casas, mas existe um conjunto de fatores lá atrás que, somados um ao outro, agravaram mais ainda a situação. As consequências só poderiam ser desastrosas.
O homem pratica o mal contra a natureza e esquece do que faz. Na hora de pagar a conta sempre lembra de pedir socorro a Deus, e ainda diz que tudo está sob o seu controle, como se fosse Ele o causador da desgraça. Quando o temporal passa e as águas baixam, foi Deus que assim quis. É a cultura do homem religioso que não se previne.
Primeiro polui o ar de gazes tóxicos; despeja todo tipo de lixo no planeta para satisfazer seu consumismo desvairado; desmata as margens dos rios; levanta habitações em locais inadequados; constrói barragens de barro e acha que nunca virá o castigo.
Os governantes do passado e do presente continuam cometendo os mesmos erros, e o quadro só tende a piorar, com custos cada vez mais altos porque não se fez o devido controle lá na frente. Nessas horas, uns aparecem para capitalizar mais votos e outros somem, mas sempre quem leva a bordoada é o povo pobre que perde tudo, até a vida, mesmo com as ajudas que logo são relegadas.
Estava demorando a imprensa fazer seu sensacionalismo barato através de um “herói” dos resgastes, como do idoso em Itabuna que, sozinho e teimoso, insistiu em ficar dentro de casa, mesmo com a água subindo. Visivelmente uma pessoa desorientada e sem parentes para lhe cuidar. Não vi a repórter entrevistando algum filho ou neto do senhor que foi socorrido por alguns moradores.
Há quase 30 anos, ainda na atividade jornalística, acompanhei volume de chuvas desse porte, em 1992, quando testemunhei, como repórter, cidades como Guanambi, Ibiassucê, Caculé, Caetité, Malhada e outras invadidas pelas águas, mas não no final de ano.
Lembro o quanto foi difícil fazer as coberturas enfrentando correntezas de rios em cima de tambores e passando de barco quase no nível das copas das árvores, com cobras caindo dos galhos. Registrei, com o fotógrafo José Silva, pontes caiando e bairros dentro d´água onde o povo chorava com as perdas.
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