Versos do jornalista e escritor Jeremias Macário, que fazem parte do seu último livro “ANDANÇAS”.

Meu amigo camarada,

Desculpe meu jeito serial,

Assim fui criado e feito,

Numa couraça de crença,

De um sistema desigual.

 

O tempo é uma cilada,

Entre o amor e a dor,

Nem sei se sei, se sou,

Como um quase nada,

Ou um pouco de cada.

 

A morte só é uma graça,

Quando vira uma piada,

Em conversa na praça,

Mas passa sem dar risada,

Com sua sentença marcada.

 

Nem sei se assim sou,

Um pavio do candeeiro,

Na face de um escravo e patrão,

Como lobo, e um cordeiro,

Vigilante errante de plantão.

 

Nada que reluz me conduz;

Faço destinos em pedaços,

De fios de algodão e de aços,

Ora sou laço nos espaços,

Ora sou simples traços.

 

Nem sei se sou encanto,

Alegria, lamento e pranto,

Em alguma parte desse canto,

Que mais parece um conto,

De encontro e desencontro.

 

Uma hora penso ser corda,

Grossa de sisal, ou de viola,

Outra hora, sou uma estola;

Procuro quem me consola,

E a dura realidade me acorda.

 

Nem sei se sou criatura,

Como diz a benta Escritura,

Nessa eterna via de procura,

De caminhos de aventura,

Cheios de ódio e de ternura.

 

Nem sei aqui qual meu papel,

Se é de cortina, ou de véu,

E assim vou indo ao léu,

Como a semente ao vento,

Do nascente ao sol poente.