:: 27/abr/2021 . 23:19
MAIS UMA VEZ LÁ SE VAI O NOSSO ENCANTADO E POPULAR SÃO JOÃO
Pela desorganização e bagunça dos nossos governantes, principalmente o federal, pelo negacionismo da ciência, pela falta de consciência do nosso povo, pela falta de uma cultura do distanciamento e isolamento social, por falta de disciplina dos brasileiro e respeito aos outros, mais uma vez vamos ficar sem o nosso encantado e popular São João dos encontros com os amigos e familiares distantes.
É lamentável viver num país sem estratégia, sem planejamento e uma liderança para conduzir seu povo pelo caminho certo. Quando o mau exemplo desce lá de cima, cá embaixo se perde o equilíbrio, a sensatez e a decência. Cada um passa a fazer o que bem entende, com aquele papo furado do direito do ir e do vir, mesmo que se trate de perdas de vidas. É uma imbecilidade. Estamos numa verdadeira nau dos insensatos.
UMA TERAPIA DE VIDA
Tudo indica que mais uma vez vamos ficar nas lembranças das festas juninas da minha querida Piritiba da Bahia, que nos deixam felizes. Pelo menos por uns dias nos sentimos livres de todos os problemas cotidianos da vida corrida. É uma terapia para a mente e o espírito, que supera todas as outras recomendadas por médicos psiquiatras.
Quando lá estou em minha terrinha, me faz lembrar dos tempos do trem cruzando a estação todos os dias, descendo para Iaçu e subindo para Senhor do Bonfim (não propriamente nessa ordem), trazendo e levando passageiros e cargas das mais variadas mercadorias. E o telégrafo com seu tic-tac traduzindo as palavras! As pongas nos vagões e a molecada gritando!
Saudades dos amigos e parentes, como o primo e irmão Roque (já se foi, mas continua entre nós), Leucia, Rossia, Luane e seu marido Dadai, da “diretoria”, Roniere, Diltão, do “dançar pode, fumar não”, Roquinho e sua esposa, Dalmário, João Rico, do poeta, músico e cantor Wilson Aragão, do grande poeta e teatrólogo Carlos Sampaio (meu colega que também se foi), Mirinho, Agamenon, Lane e Margá Barreto e de tantos outros picotando o tempo, jogando conversa fora e tomando umas biritas e geladas.
Minha Piritiba querida onde me fez moleque jogando bola de gude, baba na Praça de terra da “Getúlio Vargas”, esconde-esconde, chicotinho queimado, corridas de cavalo; tomar banho no açude; “furtar” melancia e frutas; andar nos trilhos do trem groteiro; trocar gibis; assistir filme de cowboys; e inventar outras estripulias nas folgas da escola primária da “Almirante Barroso”, ou quando não estava vendendo água em garotes, doces de leite nas ruas e feixes de lenhas nos jumentos. Naquela época ainda era uma Piritiba de terra batida, com luz de motor até às 22 horas, onde poucos tinham o fogão elétrico.
Minha querida Piritiba dos meus pais que possuíam uma terrinha na localidade de “Calderãozinho”, e aos sábados lá íamos nós em tropas para vender a melhor farinha da região na feira. Ela me deu regra e compasso quando fui para outras bandas estudar e ser seminarista, mas sempre lá estava para rever o meu povo; contar os causos; e curtir o melhor São João. Minha querida aldeia da tapioca gostosa de lamber os beiços.
Pois é, tudo leva a crer que mais uma vez (no ano passado não teve festa), essa pandemia da Covid-19 vai adiar nossos encontros memoráveis de muita tranquilidade e curtição, para contar as histórias e as estórias. Não podemos também deixar de citar a pinga catingueira misturada, as corridas de jegues na praça e as quadrilhas que mantém viva a nossa cultura popular.
Alimentam o nosso viver tomar um quentão; comer uma feijoada ou uma carne assada; e até “encher a cara”, sem nenhuma preocupação com o horário de retornar, mesmo andando na fresca do amanhecer. Ah, não posso esquecer da sagrada farofa de Leucia que só ela sabe fazer! Como é bom passar o São João em Piritiba!
UM BRASIL ANSIOSO E DEPRESSIVO
Hoje eu amanheci com o sentimento de que roubaram nossa primavera de flores, de que surrupiaram nossa dignidade e que a nossa pátria não tem zelado bem de seus filhos, os quais se sentem órfãos de pais. Acordei com aquele gosto amargo na boca de quem tem sede de justiça, com a sensação de que o nosso povo tem um futuro incerto num país tão rico e tão pobre onde existe uma exclusão e um extermínio acelerado dos mais fracos.
Levantei com aquele pesar de um Brasil doente, ansioso e depressivo, justamente de uma gente que sempre foi alegre, cheio de criatividade e orgulhoso da sua terra, da sua aldeia e povoado. Vi tribos divididas e se guerreando. A divisão só faz enfraquecer, e a história das nações está aí para comprovar isso.
UM POVO COM MEDO
A fé e a esperança não são as mesmas de anos atrás, e o nosso amanhã não nasce tão sorridente e radiante como antes, por mais que nos esforcemos para disfarçar a tristeza de uma vitória perdida. O nosso povo tem mais medo do que poderá acontecer no outro dia. Com tantas humilhações, não andamos mais nas ruas e nas multidões com cabeças erguidas, com a certeza de um futuro melhor e menos desigual.
Acordei com as imagens embaçadas como se estivesse numa ressaca e vi crianças de pés descalços a andar pelas favelas e morros maltrapilhos em plenos esgotos a céus abertos. Vi senhoras e senhores a chorar por nada ter o que comer meio dia com seus filhos.
Com a cara feia e estômago roncando, vi a danada da fome bater nas portas dos casebres de quase 20 milhões de nossos brasileiros. Vi jovens subindo e descendo os becos das violências com armas e drogas nas mãos, frutos de um sistema das brutalidades.
Nessa manhã, apareceu em minha mente os mais de 14 milhões de desempregados desiludidos por não encontrar um serviço para o sustento de suas famílias. É uma dor que parece não passar. O que mais ainda nos revolta é essa escravidão do trabalhador. Os oportunistas empresários aproveitam essa situação deplorável para explorar essa mão-de-obra faminta, pagando migalhas de até metade de um mísero salário mínimo.
Foram tantas coisas que passaram em minha cabeça nesse acordar, como de brasileiro que aos poucos vai perdendo seus sonhos. Vi os sindicatos esmagados por uma reforma trabalhista tirana capitalista que prometeu mais empregos, mas só fez escravizar os nossos operários que são obrigados a aceitar qualquer oferta na lida de mais e mais horas de trabalho
Como num pesadelo, foram fleches do passado, do presente e do futuro numa manhã nublada de nuvens carregadas. Vi com muita mágoa as chamas arderem e avançando em nossas amadas florestas, escorraçando e matando nossos animais e toda biodiversidade. Vi madeireiros derrubarem as matas de árvores sagradas.
Rezei para que a nossa Amazônia um dia não se transforme num grande campo de pastagens para bois, ou num deserto. Vi garimpeiros com suas pesadas máquinas escavando a terra à procura de ouro, jogando mercúrio no solo e contaminando os rios. Vi um cenário de escombros e de extermínio dos nossos índios, filhos da terra que sempre aqui estiveram há milhões de anos.
Muita gente pode não gostar, mas meu amanhecer foi um lamento que muitos preferem esquecer e não ficar remoendo, mas só os covardes fogem da realidade para não enfrentar a luta. Como gostaria de ver uma educação de qualidade para todos, com pessoas bem instruídas para termos um Brasil desenvolvido, mais igual e mais livre no amanhã.
Vi uma saúde em estado terminal com nossos irmãos sendo jogados como objetos nos corredores dos hospitais, sem o merecido cuidado e tratamento, principalmente nessa mortal pandemia que tarda a deixar o nosso país onde muitos negam a ciência. Por nossa desunião, falta de estratégia e organização, ódio e intolerâncias, ela aqui encontrou terreno fértil para se proliferar.
Em minhas recordações, depois dessa tormenta que parece não se acabar, vi um futuro, não muito próximo, de um Brasil renascido e renovado, como a fênix ressurge das cinzas, como no dito popular de que depois da tempestade vem a bonança. Assim como a Idade Média foi uma passagem para o Renascimento, assim caminha o nosso país para o porvir das novas ideias.
Para que as novas gerações desfrutem dessa mudança, temos que começar a renovar nossos espíritos para a escolha de um grande guia que una toda a nação em torno de um objetivo comum de acabar com as desigualdades sociais e nos libertar desses grilhões que tentam arrancar de nós a liberdade, o dom mais preciso.
Não basta apenas dizer que dias melhores virão e que tudo vai passar, como se uma graça fosse repentinamente cair dos céus. A divisão só faz nos levar à destruição como está ocorrendo nos dias atuais como o nosso Brasil. Será que estamos sendo testados a atravessar esse padecimento, como uma prova para o nascimento?
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