JANGO E EU – MEMÓRIAS DE UM EXÍLIO SEM VOLTA
Melancolia, saudades da pátria, dos tempos da infância quando pouca coisa se entende dos acontecimentos, lembranças vividas num diário-romance, com passagens políticas desde o golpe de abril de 1964 até a morte misteriosa de seu pai, em dezembro de 1976, em “Jango e Eu – Memórias de um Exílio sem Volta”, escrito por João Vicente Goulart, numa linguagem simples, solta e descontraída, bem longe das amarras acadêmicas.
É um livro que eu diria bem prazeroso para se ler que se passa no Uruguai, na Argentina, Paraguai e tem uns fiapos interessantes na França, na Espanha e na Inglaterra. São narrativas espontâneas, algumas soltas, que, em pedaços, formam o todo de um tempo difícil que marcou nossa história brasileira. Não precisa que tenha vivido aqueles dias, nem que seja um estudioso do assunto da ditadura. Você vai compreender de uma maneira fácil como tudo aconteceu. O leitor faz um passeio relaxante em paisagens não repetidas.
Os grandes homens do século XX
No prefácio do livro, Tarso Genro lembra os grandes homens do século XX, com os generais Rondon e Lott, os políticos e intelectuais Luis Carlos Prestes, Jacob Gorender, João Amazonas, Juscelino Kubitschek, Leonel Brizola, Getúlio Vargas, Alberto Pasqualini, Anísio Teixeira, Carlos Nelson Coutinho, Antônio Cândido, Leandro Konder, Florestan Fernandes e, em especial, João Goulart, o mais avançado, democrático e tolerante.
Conta ainda sobre os trinta dias que ficou na fazenda de Jango, em Tacuarembó, no Uruguai, em 1972. Quase 40 anos depois assinou, como ministro da Justiça, a anistia de Jango. Destacou que Jango não era socialista, nem comunista e nem pretendia instalar uma ditadura no país. Pretendia implantar a reforma agrária nas terras situadas a dez quilômetros à margem das rodovias. Essa nunca foi feita no Brasil. Ele ainda fundou a Eletrobrás; reescalonou a dívida externa; limitou a sangria da remessa de lucros para o exterior; e abriu relações comerciais com a China, pois teve a visão de perceber o potencial daquele país.
Afirma Tarso Genro que o ex-presidente foi vítima brutal de difamações dos grandes veículos de comunicação, das arengas das forças armadas, da classe média e da ampla maioria da Igreja Católica. “A elite direitista detestava ele e o considerava traidor. Falava com os grandes chefes de Estado, como Kennedy, Fidel Castro e Mao Tsé-tung. Era um social democrata de esquerda num tempo “errado”. Apenas achava que o capitalismo poderia ser mais justo e evitou uma guerra civil”. O Brasil continuava submisso e atrasado dependente das matérias-primas na exportação. Sessenta anos depois permanece o mesmo quadro descrito por Tarso.
O prólogo da obra fala do desconhecimento dos fatos que atingiram o país a partir de 1964. O autor ressalta se sentir no dever de contar a história de seus dias de exílio junto ao pai Jango, sua mãe Maria Thereza e a irmã Denize. Ele relata o dia a dia de uma família refugiada no exílio político, se situando no período de 1964 a 1976 quando o pai morreu. “O exílio nos faz peregrinos”. Essa história real da América Latina (“Veias Abertas”, de Eduardo Galeano) “chegou até nosso cotidiano dentro de casa”
Tudo se inicia quando pisou em terras uruguaias. Mais e mais ditaduras fechavam o cerco. Recorda das constantes perseguições dos exilados, desaparecimentos e trocas de prisioneiros entre as ditaduras, como se fosse contrabando. “A liberdade é uma só” – dizia o seu pai.
Quando tudo começou
Tudo começou no dia 31 de março de 1964, na Granja do Torto, com os rumores do golpe. Os telefonemas eram cada vez mais alarmantes. Darcy Ribeiro, ministro-chefe do Gabinete Civil avisou que Jango estava no Rio de Janeiro. “Pela manhã já havia malas arrumadas para irmos direto para o aeroporto. Não pudemos levar tudo”.
Canta, em forma de diário, que ele (João Vicente), sua mãe e a irmã saíram apressados num avião da FAB, que não era o mesmo em que viajavam, em direção a Porto Alegre. Deixaram para trás pertences pessoais que nunca foram devolvidos, inclusive joias e documentos públicos e privados. Segundo o autor, o governo Jango foi o único que não preparou sua saída do poder. Depois tiveram que lhe devolver o patrimônio que havia sido bloqueado. O voo para Porto Alegre foi demorado. Jango ainda estava em Brasília, a caminho do Rio Grande do Sul.
O pai ordenou que seguissem viagem para São Borja, sua terra natal. No avião, a mãe, Denize, o cabeleireiro Virgílio, a babá Etelvina e ele. “Viajamos no DC-3 que conseguiu pousar na Fazenda Rancho Grande, no dia 1º de abril. Lá estavam o capataz Amálio e os peões armados. Manoel Soares Leões, o Maneco, sempre foi o piloto particular de Jango desde 1946.
No outro dia 2 de abril, um jipe militar havia chegado à sede da fazenda. Quatro militares levaram ordem do comando para que eles partissem em 24 horas. Ao meio dia, Maneco pousou na pista da fazenda, levando ordens de Jango, que estava em Porto Alegre, tentando resistir, para que levasse sua família para o Uruguai. O cerco estava se fechando.
Montevidéu foi a primeira cidade do exílio. No livro, João Vicente lembra a carreira política de seu pai desde 1946, e que Jango deixou o território nacional como presidente constitucional do Brasil, com 80% da opinião pública a seu favor. Saiu forçado de seus país aos 45 anos.
Enquanto Jango voava do Rio para Brasília, as tropas do general Olímpio Mourão Filho saiam de Juiz de Fora, com a complacência do governador de Minas Gerais, Magalhães Pinto. Tudo acontecia com o silêncio de Juscelino, que apoiou Castelo Branco, que prometeu eleições em 1965. Ao chegar em Brasília. Jango foi para a Granja do Torto e depois para o Palácio do Planalto se reunir com Darcy Ribeiro, Waldir Pires, Doutel de Andrade, Raul Riff , Bocaiúva Cunha e outros.
Em Brasília as tropas estavam aquarteladas, e o general Nicolau Fico tranquilizava Jango. Mais de 170 parlamentares, financiados pela CIA, conspiravam. Ficou acertado que Jango iria para o Rio Grande do Sul onde havia tropas legalistas. Disse Vicente que seu pai começava a desconfiar da traição do corpo militar, até do general Amaury Kruel, (Jango era padrinho de seu filho), comandante do segundo exército.
Na verdade, o comandante queria que Jango fechasse os sindicatos, o Congresso Nacional e prendesse Brizola e Miguel Arraes. Jango preferiu o exílio. Foi para o aeroporto, e de lá, para Porto Alegre. Mandou Darcy fazer um documento informando ao Congresso que iria ao Rio Grande do Sul para resistir na legalidade. No Congresso falava-se em impeachment.
O avião do presidente não conseguia decolar. Estava em andamento uma sabotagem da aeronáutica. Depois de uma hora esperando, saiu do avião e mandou o comandante preparar um Avro, de dois motores turbo-hélice. Depois das seis e meia da noite do dia 31 de março de 1964 Jango seguiu rumo a Porto Alegre. Nessa mesma hora, sua família pousava no Rancho Grande, em São Borja. O general Fico mandou suas tropas cercar o Congresso.
De forma covarde, foi feita a legalização do golpe por meio da declaração de vacância da presidência da República pelo senador Áureo Moura de Andrade, o mesmo que dias antes caminhou na “marcha da família”, em São Paulo, com agentes da CIA.
O presidente ainda estava em território nacional onde permaneceu por mais quatro dias até nomearem Ranieri Mazzilli. Jango chegou a Porto Alegre no auge da crise. Depois de muitas conversas com militares, preferiu partir para o exílio, para não provocar derramamento de sangue, Forças da esquerda e da direita lhe criticaram por não resistir. O autor do livro indaga por que o Partido Comunista, Brizola, os sindicatos, as ligas camponesas, Arraes e outros não resistiram? Ele julga que forças da esquerda, ao criarem dificuldades, queriam dar o golpe. Para ele, as esquerdas desejavam um avanço mais rápido, enquanto Lacerda, Magalhães Pinto e Adhemar de Barros tinham financiamento dos norte-americanos.
“Cunhado não é parente, Brizola presidente”. Arraes se articulava no Nordeste e JK colocava o slogan “Juscelino 65”. Jango teve que retirar a mensagem de estado de sítio por falta de apoio das esquerdas. “Jango caiu, não por seus erros, mas sim pelos seus acertos” – declarou Darcy.
Na noite de 1º de abril, em Porto Alegre, numa reunião conturbada com o general Ladário Telles, o exército estava fragmentado. Brizola queria ser ministro da Justiça e indicar Ladário para ministro da Guerra. A quarta frota americana já estava posicionada na costa brasileira com fuzileiros navais. Lyindon Johnson comunicava ao seu embaixador Lincoln Gordon que ia reconhecer o novo governo.
Rumo ao Uruguai
Dali iria para o exílio, mas antes passou por São Borja, no dia 2 de abril, enquanto a família sai de Rancho Grande para Uruguai, com o piloto Maneco, e de lá retornaria para buscar Jango, que havia falado com dom Alonso Mintegui, em Montevidéu, para avisar a ida deles para as autoridades uruguaias.
Quando no exílio, em 1974 (sempre desejava voltar ao Brasil), dizia para o amigo Pinheiro Neto: “Bons amigos, como tu, têm vindo aqui no Uruguai me recomendar para cuidar da saúde para preparar-me para a volta, mas digo para Maria Thereza que se prepare para retornar ao meu país viúva e com netos, pois acho que esta jornada está se tornando longa demais, e eu não retornarei”.
Na viagem para Montevidéu, os meninos dormiram o tempo todo até o de Melilla. Dona Tereza estava muito nervosa. João perguntou: mãe para onde estamos indo? Para o Uruguai. Onde é isto? É outro país. De que cor é o Uruguai? É azul João Vicente, e a irmã: tem banana no Uruguai?
Quando decolava, Maneco comunicava pelo rádio que levava a bordo a família do ex-presidente da República. O ministério do Interior já tinha conhecimento, pois o presidente Fernando Crespo já havia autorizado que Jango se exilasse em seu país. As autoridades, no entanto, estavam esperando no aeroporto Internacional de Carrasco. Alguém foi a Melilla para liberar os documentos. Maneco retornou no Cesna 310 para pegar Jango, em São Borja, dois dias depois, trazendo também o general Argemiro Assis Brasil. Mazzilli já havia alçado ao posto de presidente da República. Os militares festejavam o primeiro golpe contra a democracia brasileira.
Montevidéu, com pouco mais de um milhão de habitantes, era uma cidade cinzenta com carros velhos dos anos 1946/47. “Foi como entrar no túnel do tempo”. A família tinha o endereço de dom Alonso que trabalhava no consulado brasileiro. Morava na Plaza Independência, num edifício ao lado do Palácio Salvo onde depois foi morar Leonel Brizola.
Depois de muita espera, chegou um carro velho dirigido por um amigo de dom Alfonso, seu primo Domingos Mintegui. No apartamento, dom Alonso e sua esposa Nela já estavam esperando. Era dois de abril, quando empossaram o presidente da Câmara, Ranieri Mazzilli. “Comemos bolachinhas e tomamos leite”. De lá a família foi para Solymar onde Alonso tinha uma casinha de praia.
O exército brasileiro já estava caçando Jango em São Borja. Dom Alonso avisou que havia falado com o presidente pela manhã, e ainda estava em Porto Alegre. O exército informava que estava quase prendendo Jango. Ele e o Manco ficaram pulando de lugar em lugar com o avião. Seu Domingos ficou com dona Thereza e os filhos. Em Solymar, dona Nela ficou na casa de uns amigos.
A notícia não demorou muito a se espalhar que a família do ex-presidente estava em Solymar. Quando ela voltou das compras já havia um batalhão de repórteres na porta. “Meu pai nunca fez tanta falta como naqueles momentos de desespero e aflição. Aquela foi a entrevista mais triste que ela deu”.
No dia 4 chega Jango
A manhã de 4 de abril tinha um céu azul brilhante. Havia muita gente do lado de fora da casa. A família foi almoçar na casa de uns vizinhos de dom Mintegui. Depois ele foi à base militar de Pando onde pousaria a aeronave que traria o ex-presidente João Belchior Marques Goulart.
Depois da façanha de resgatar o presidente, Maneco recebeu a ordem para que voltasse para o Brasil, mas ele se recusou, afirmando que não havia mais condições técnicas. “O senhor seria preso. Acabei de receber notícias de que a pista da grama da Granja São Vicente, em São Borja, foi lavrada com tratores e tomada pelos militares”.
Jango concordou e pediu para que o piloto falasse com Mintegui para providenciar a volta de Assis Brasil, senão seria considerado como desertor. A saída de Jango foi agitada. Depois de deixar a família em Melilla, Maneco voou por mais de duas horas para a fazenda de Santa Luzia, no interior do Rio Grande do Sul, onde Jango estava na companhia do general Assis, esperando a posse de Mazzilli.
Presidente, minha obrigação como chefe da Casa Militar é acompanhá-lo até o exílio, voltar e apresentar-me ao novo governo – disse Assis, adiantando que Jango não poderia mais continuar em território brasileiro, pois seria preso.
Os dois estavam sozinhos sendo perseguidos. Jango queria ficar no Brasil por mais um tempo, numa terrinha que ele tinha em Goiás. Assis o advertiu que ele seria preso. Para ele, a posse de Mazzilli foi uma manobra ilegal porque o presidente ainda continuava em território brasileiro.
No diálogo, Assis explicou que o avião, no qual ele veio de Brasília para Porto Alegre, foi sabotado, e a FAB poderia ter abatido o bimotor, tentando convencê-lo que não dava mais para ficar no Brasil.
O Cesna 310 estava no dia 3 de abril abastecido para mais de quatro horas de voo. Jango decidiu sair no outro dia, para saber de mais notícias. Ficaram ouvindo rádio até a madrugada. Ao amanhecer, tropeiros avisaram que as tropas estavam se aproximando da fazenda Santa Luzia.
Jango ainda pediu a Maneco para pousar em “Pesqueiro”, uma pequena área de terra na beira do rio Uruguai, mas era arriscado porque era uma área de 400 metros de chão batido. A saída para o exílio ficaria comprometida. Mesmo assim, Maneco foi para “Pesqueiro”. Jango queria tomar um banho e botar uma gravata. Ainda tinha esperanças de ficar.
Depois do banho, Jango ainda pensou em ir para outra fazenda, em Itaqui, e só depois tomaria seu destino. O tempo estava se esgotando. Decolou à tarde para a Cinamomo, uma fazenda só de gado. O general estava inquieto. Jango estava melancólico e divagando em suas lembranças dos tempos com a mãe Vicentina, seu pai Vicente e os irmãos, quando entrou na política através de Vargas e fez carreira meteórica até presidente.
Ele tentou ir para outro estado quando já era noite estrelada. Maneco avisou que podia entrar uma frente com vento norte que atrapalharia a rota para Montevidéu. Por fim, subiram no Cesna 310. A viagem para o Uruguai foi tumultuada e marcada por diálogos nervosos. Maneco manteve o bimotor em baixa altitude para não ser visto por aviões da base de Santa Maria, até entrar no Uruguai e comunicar que estava levando a bordo o ex-presidente.
Viajaram por uma hora e meia até se aproximar do aeroporto de Carrasco, mas recebeu ordem de aterrissar na Base Aérea Militar de Pando. Foi aí que Jango deu uma ordem para retornar para o Brasil. Prefiro me entregar aos militares do meu país. Agora é impossível – respondeu Maneco. “Não existem mais condições de retorno”. Em 4 de abril pousou em solo uruguaio. João Vicente descreve em seu livro que eles eram uma família desterrada.
No Hotel Columbia e a retirada de Brizola
Da praia de Solymar, a família foi se hospedar no Hotel Columbia, em frente ao rio da Prata. Logo que chegou, Jango se sentiu isolado, sem seus bens (foram bloqueados por um tempo pelas forças armadas) e teve que começar tudo de novo.
Meses depois, Leonel Brizola e sua esposa Neuza foram morar no prédio de dom Mintegui, na Plaza Independência. Ele se tornou inimigo de Jango, seu cunhado, por divergir quanto a ideia do ex-presidente de não resistir. Brizola resolveu ficar no Brasil, em 2 de abril para lutar. Não conseguiu e teve que se esconder em vários lugares. O exército estava em seu encalço.
Então, Jango chamou Maneco e disse que tinham uma missão perigosa que envolvia sua vida e a da sua família. Avisou ter recebido notícias de que Brizola corria perigo de ser preso no Rio Grande do Sul, “e temos que tirar o cara de lá”. Maneco aceitou ir, contanto que Jango cuidasse de sua família se alguma coisa lhe acontecesse. O ex-presidente concordou.
Leonel estava escondido no litoral gaúcho, e o piloto teria que pegá-lo numa das praias. “Temos que estudar as marés, presidente, dependendo do dia e da lua para que a faixa de areia esteja seca para aterrissar”. O Skylane 180 seria o ideal por ser mais leve, mas tem menos autonomia que o Cesna 310.
Maneco – afirmou Jango – o pessoal do Brasil está imaginando que ele esteja na praia de Imbé. A operação seria feita três dias depois, com algumas modificações, como o lugar do pouso, que foi realizado na praia de Pinhal. Às cinco da manhã, Maneco decolou no escuro de Punta del Este. Tinha algumas senhas e instruções. No lugar estabelecido deveria haver três carros e dois caminhões de areia como senha de que tudo estava em ordem. Após um voo rasante, o piloto aterrissou para recolher Brizola, que estaria vestido com uniforme da polícia militar.
Maneco seguiu uma rota triangular sobre o mar, voando a baixa altitude quando entrasse em território brasileiro. Às sete da manhã já estava na praia de Pinhal. Quando saiu do mar, os caminhões não estavam posicionados. Quem falhou foi o Azmúz, ex-presidente do Internacional de Porto Alegre e empresário fornecedor de areia. Tremeu na base e não mandou os veículos. Mesmo assim, Maneco não voltou mar adentro. Resolveu dar o rasante, mesmo com o risco de ser abatido. Leonel, então, saiu de trás das dunas e Maneco o reconheceu. Baixou os trens de pouso e aterrissou na areia, sem desligar os motores. Abriu a porta, e Brizola subiu na cabine e fechou a porta. Decolou novamente no raso mar adentro, refazendo a rota rumo ao exílio, no Uruguai.
Bens entregues
Somente no fim de 1964, depois dos inquéritos policiais militares, que nada provaram contra Jango, seus bons foram entregues aos procuradores (Bijuja, Waldir Borges, Wilson Mirza, Lutero Fagundes e Carlos Cunha) para que ele os administrassem. Jango autorizou a Bijuja a vender a fazenda Tacuarembó, em Santiago, no Rio Grande do Sul. Em 1965 comprou sua fazenda, à qual deu o nome de El Rincón, para criar e invernar novilhos.
Dizia que o tempo existe para os fortes, que são contra a prepotência dos covardes. Para o filho, afirmava que o trabalho é a força do homem. “Se tiver que cavar com uma enxada, estarei cavando com os camponeses brasileiros. Se tiver que pegar numa enxada, eu pego”.
Teve bons amigos que lhe ajudaram, como seu ex-ministro Moreira Salles, que lhe emprestou dinheiro nos primeiros meses. Do outro lado, vários políticos esperavam as eleições de 1965, que não houve, como o Juscelino (votou em Castelo Branco) e outros que foram cassados. Ele achava que se tivesse resistido, embora tenha sido chamado de covarde, haveria uma luta prolongada e dividido o país entre norte e sul, como na Coréia e Vietnã.
Ele era um homem de grande visão empreendedora, simples e determinado. Foi o primeiro a introduzir a plantação de arroz irrigado no Uruguai e, em suas novas fazendas, agregava produtos, construindo frigoríficos de derivados bovinos e beneficiamento do arroz. Desde 1944, Jango já entregava a Swift Armour, em Livramento, 30 mil novilhos gordos. Desde moço era invernador de gado e entendia muito do ramo.
Política e conspiração
Enquanto esteve no Hotel Columbia, recebia vários exilados que iam chegando a Montevidéu. Começou ali a organização dos exilados clandestinos. Outro ponto de encontro era o Café Sorocabana, na 18 de julho. Falava-se de luta armada, política e conspiração. O local logo passou a ser espionado por agentes brasileiros.
Tempos depois, muitos deixaram de ir aos encontros por medo e conveniência. Ser amigo de Jango era perigoso. Muitos diziam que ele era subversivo e comunista. “Jango sempre esteve convicto de sua luta pelos trabalhadores e pelos mais humildes, e me explicou que esse era o preço a ser pago pelos que lutam por justiça social, econômica e política”.
De acordo com uma pesquisa do Ibope, escondida por muito tempo, quando Jango sofreu o golpe, tinham aprovação da maior parte dos brasileiros e, se concorresse, em 1965, ganharia as eleições, perdendo apenas em Belo Horizonte e Fortaleza.
A família ficou no Hotel Columbia por uns dois meses. Depois alugou um apartamento, em Villla Biarritz, no bairro Pocitos, por intermédio de Leocádio Antunes, na rua Leyenda Patria, 2.984, edifício Fontainebleau, onde ficou até 1971, quando comprou uma casa no Parque de Los Aliados.
Em Pocitos, bairro de classe média alta, Jango ficou perto dos amigos Waldir Pires (Christina, Wladimir, Lídia, Vivian e Francisco), Darcy Ribeiro, Maneco Leões, Ivo Magalhães, Neiva Moreira, Cláudio Braga e Amaury Silva. Havia o clube Biguá de Villa Biarritz, do qual Jango virou sócio. Muito abalado, já na França, Wladimir (Filho de Waldir Pires) acabou cometendo suicídio. Os filhos de Jango foram matriculados no colégio inglês Erwy School, de tradição rígida. Lá, João Vicente fez amizade com vários colegas e frequentavam a praia La Estacada.
Waldir Pires chegou com Darcy em um pequeno avião Cesna 170, que Rubens Paiva lhe conseguira para sair do Brasil. Depois de algum tempo houve ruptura com Brizola por vários motivos, como desacordos patrimoniais, mas a questão principal foi porque Jango não concordava com a luta armada. Houve uma divisão entre brizolistas e janguistas.
O ex-presidente não esqueceu o Brasil e sempre insistia em retornar, mas recuava diante da situação. Alugou um escritório na rua Cerro Largo, para começar a trabalhar em alguma coisa. O coronel Azambuja, o Cocota, um dos oficiais do gabinete presidencial, tinha trânsito livre entre Brasil e Uruguai. Foi ele que conduziu João Vicente, em 1973, para fazer o alistamento militar em Porto Alegre.
Nas conversas com os exilados, muitos queriam conspirar contra o regime, mas Jango achava isso ilegal dentro do país que lhe concedeu asilo político. Terminou ficando inimigo do próprio Brizola que organizou a luta armada na Serra Caparaó. Muitos que se exilaram em outros países, como Iugoslávia, México, Tchecoslováquia e Peru acabaram indo para o Uruguai.
Abrigo aos exilados
Jango procurou o Ivo Magalhães, ex-prefeito de Brasília, e recomendou que procurasse alguns empresários para abrigar os exilados. Com o Pedoja arrendaram um hotel antigo “Alhambra”, na Ciudad Vieja. O hotel passou a abrigar os companheiros, e Jango mandava dinheiro para pagar as despesas. Pedir a Ivo para dar uma mão para Cláudio Braga, ex-deputado por Pernambuco.
Os encontros eram acalorados com as mais diversas opiniões para derrubar a ditadura. Eles queriam que Jango aderisse à luta armada, mas ele não concordava por ser uma briga desigual. Isso estava a pleno vapor em 1965. Tudo acontecia mais no Café Sorocabana.
Os serviços secretos brasileiros passaram a frequentar o local. O núcleo de revolucionários queria derrubar o regime com cinco fuzis, duas armas de chumbo e muita coragem. Jango era discriminado, tanto pela direita, que o considerava comunista, amigo de Nikita Kruschev (reatou relações diplomáticas com a União Soviética) e Mao (primeiro líder ocidental a visitar a velha China de um bilhão de habitantes), como pela esquerda. Dez anos depois Nixon também foi acusado de comunista.
Para a esquerda, ele era um titubeante que não queria fechar o Congresso na lei, ou na marra, nem passar por cima da Constituição. A frente nacionalista pregava a ruptura institucional. Jango não aceitava propostas golpistas, só que o senador Áureo Moura legitimou o golpe.
No exílio, alguns parentes de Jango preferiram ficar ao lado do novo governo. Pombo Dornelles e Miguel Macedo, casados com as irmãs de Jango, após a derrubada do governo, entraram com uma ação retroativa ao inventário dos pais Vicente e Vicentina, mortos em 1944 e 1963. Tal ação acabou arquivada. Pombo depois pediu desculpas. Pouco tempo antes de morrer, em 1976, Jango fez as pazes com Brizola. Waldir passou um tempo estudando francês e partiu para Paris onde foi dar aulas. Darcy demorou mais, pois foi convidado a fazer a reforma acadêmica da Universidad de la República no Uruguai.














