AS TIRADAS TIRANAS DA DITADURA (I)
Este texto faz parte do livro “Andanças”, lançado recentemente pelo jornalista e escritor Jeremias Macário. É bom lembrar os fatos para que nunca mais se repitam
A história das revoluções, levantes, rebeliões e golpes está repleta de citações e tiradas de líderes, chefes, comandantes e tiranos que se tornaram imortais. O golpe civil-militar de 1964 no Brasil que se transformou numa ditadura por mais de 20 anos também teve seus protagonistas que deixaram suas marcas, algumas irônicas e outras divertidas e tristes.
O presidente João Goulart era visto nos círculos militares como um cão leproso. Brizola era o mais afoito e pressionava o cunhado para decretar reforma já. Sob as influências das ideias socialistas, as lideranças de esquerda sacudiram os campos e as cidades. As elites burguesas revidavam.O presidente não sabia se atendia a direita ou acomodava a esquerda em seu ninho.
Semanas antes do Comício da Central do Brasil (13 de março), em meio às agitadas reformas sociais, centenas de mulheres rezadeiras com seus terços em mãos impediram Leonel Brizola de realizar um comício em Belo Horizonte. Encurralado, Brizola escapou do tumulto e, para fugir de vez da ira das senhoras, sequestrou um carro apontando um revólver para o motorista.
No seu jornal “O Panfleto”, Leonel Brizola, eleito deputado federal pela Guanabara, com 270 mil votos, escrevia que não eram rosários que iam combater as reformas anunciadas no dia 13 de março.
No Comício da Central, quando Jango anunciou as reformas pediu ao seu assessor de cerimônia Hércules Corrêa que limitasse o tempo da fala do presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), José Serra.
– Vou te anunciar, você dá boa noite, recebe as palmas e encerra, Serra. Não foi isso o que aconteceu. No discurso Serra chamou o general Amauri Kruel de traidor incestuoso.
O cabo José Anselmo dos Santos, “cabo Anselmo”, discursou para dois mil marinheiros no dia 25 de março, no Sindicato dos Metalúrgicos (Rio de Janeiro). Os manifestantes declararam insurreição. O ministro da Marinha, Silvio Mota pediu para sair. Depois do golpe, o cabo passou dois anos em Cuba. Voltou e foi preso, torturado e cooptado pelo delegado Sérgio Fleury que o apelidou de “Kimble”, do filme “O Fugitivo”. Tempos depois dedurou 73 líderes da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), em Recife, inclusive sua mulher Soledad.
No dia 28 de março, o ex-governador de Minas Gerais, Magalhães Pinto, o general Carlos Luis Guedes, o marechal Odílio Denys já tramavam os detalhes do Golpe.
– Medo, o diabo não tem. Se ele fosse medroso, não chegaria ao que chegamos – comentou o general Olímpio Mourão. Dois dias depois queria prender Magalhães que num manifesto não pedia a saída de João Goulart. O general Guedes ignorou a ordem.
Na véspera do golpe, Tancredo Neves aconselhou Jango a não ir à reunião do Automóvel Clube. Os generais tramavam impedir o evento. Já o general Ernesto Geisel disse: Deixem que se faça a reunião. Agora quanto pior melhor para a nossa causa. Ele, Golbery do Couto e Silva e Castello Branco fizeram a “revolução” por telefone.
Darcy Ribeiro, o chefe da Casa Civil, o homem que tinha mania de ser imperador do Brasil, abriu, no dia 31 de março, duas caixas cheias de metralhadoras e convocou um grupo de deputados para acabar com a raça dos Udenistas.
– Doutor Jango, o senhor vai me desculpar, mas se o povo não for para as ruas, não tem governo – declarou o presidente da CGT (Central Geral dos Trabalhadores) e da CNTI (Confederação Nacional dos Trabalhadores da Indústria) Clodesmidt Riani.
– Estou negociando com o general Kruel. – Nós vamos é para a greve – respondeu o sindicalista. O povo e a Igreja aplaudiram os golpistas.
O general Humberto Alencar Castello Branco, o cearense que sempre rejeitou tomar parte nos golpes (tentou voltar aos quartéis a tropa de Mourão Filho), gostava de poesia e como irônico não era bem visto pelos seus pares.“Fuja dos generais intuitivos e emocionais. A hecatombe nunca anda longe deles”.
Foi, no entanto, o primeiro a criar um aparelho clandestino e obedecia a um talCoronel “Y”. Mesmo assim, não possuía a senha do movimento como “o bebê nasceu” ou “o trem partiu da estação”. Tinha 63 anos, mas eram 66, pois o pai dele roubou três para garantir gratuidade no Colégio Militar.
Castello recomendou que Carlos Lacerda, o corvo derrubador de governos, que apoiou o movimento militar, deixasse o Palácio Guanabara.
EM REFEIÇÃO
Depois de pegar no pesado durante todo dia de trabalho, puxando carroça pra e pra cá, felizmente ele teve seu descanso merecido e saiu por aí até encontrar sua refeição sossegada num terreno vazio, com muito capim nesses tempos chuvosos. Ainda tem gente, inclusive carroceiros ingratos e brutos, que praticam agressões e surram animais fazendo pegar peso e trabalhar além do seu limite. Como ele, o burro, seu irmão jumento, também sofre e ainda está sendo levado ao matadouro para servir de carne e pele para os chineses. São animais em extinção que já ajudaram muito o homem, principalmente o sertanejo nordestino, no sustento da família. É muita ingratidão. Este a pastar foi um flagrante do jornalista Jeremias Macário que, com sua máquina, clicou sua bela refeição do dia. Ninguém sabe do seu dono, mas o bom é que naquele momento ele estava se sentindo livre e à vontade.
DE LIVRO NA MÃO
Poema (atualizado) de autoria do jornalista Jeremias Macário
O Brasil vai ter armas nucleares,
Cortar nossa magra educação;
A cultura definhar como cambito;
Todo povo viver em corrida manada;
O meio ambiente sumir pelos ares,
No buraco negro fundo do infinito;
A Amazônia, uma fazenda de boiada;
Os índios morrendo de calamidade;
E todos de armas em punho sem lição.
De livro e com a escrita na mão,
Me livro das armas e dessa cilada,
Do soldado a torturar e a matar
Negros e pobres nos tiros favelada.
Não vou ser mais lenha na fornalha,
Nem ser boi ferrado, caça de caçada,
Inocente útil de cabeça fútil dominada,
Nem cangalha dessa tropa de canalha.
Vou de livro na mão e sair da contramão;
Ser poeta pra falar de razão, amor e dor;
Voar alto e livre nas asas do Condor,
Pra condenar quem nega a ditadura,
Planta veneno e esconjura nossa Sofia,
Mente que não existiu porões da tortura
E ainda tenta roubar o livro da nossa mão,
Pra nos fazer de massa guia de manobra,
Pau mandado e reio cru pra toda obra.
CONQUISTA PODE VOLTAR A FECHAR
Precisou realizar uma pesquisa em São Paulo para constatar que os mais pobres e miseráveis estão sim no grupo dos vulneráveis ao coronavírus por vários fatores já conhecidos. Desde março que venho comentando sobre essa questão pelo simples fato do ambiente onde mora esta camada em casebres apertados, sem água potável e serviços de saneamento básico, sem uma alimentação adequada (milhares passam fome) e pela necessidade de deslocamento constante das pessoas para trabalhar, como informais ou não, para a própria sobrevivência.
No entanto, não é este o assunto do qual pretendo abordar. Quero focar a situação da Covid-19 em Vitória da Conquista onde cerca de 800 moradores já foram infectados e, por pressão dos comerciantes e empresários em geral, o prefeito, ou o comitê de crise, resolve abrir as portas de praticamente todas as atividades, inclusive academias, bares e restaurantes. Mesmo com todos cuidados, a população insiste em sair às ruas, muitas das vezes sem precisar.
Como apontam os dados diários de contaminados, os casos só fazem aumentar, e a tendência é que dentro de pouco tempo, o prefeito Hérzem Gusmão, que sumiu e não aparece em entrevistas, como faz o seu colega amigo de Salvador, vai ser obrigado a endurecer novamente e determinar o fechamento das lojas e outros setores da economia, como está ocorrendo na vizinha Itabuna. É só uma questão de tempo e, não é necessário ser especialista ou infectologista, para prever esse retorno do arriar as portas.
Pela sua situação geográfica, numa encruzilhada entre os estados do Sudeste e Nordeste e ponto de entrada e saída para várias cidades da região, Conquista recebe muita gente de fora, sem contar que é uma central de abastecimento comercial e referência na área da saúde. Diariamente, entram centenas de pacientes vindos de várias partes à procura de tratamento, inclusive do coronavírus.
Entendo que essa reabertura geral está sendo precipitada, e o número de infectados pode subir ainda mais, como está acontecendo nas grandes cidades baianas (Feira de Santana, Juazeiro e Ilhéus). Esse abre e fecha cria mais incertezas e abala até o psicológico das pessoas, principalmente daquelas que leva esse vírus a sério e cumpre as regras de isolamento, porque a maioria nem está aí para a pandemia.
Não é somente em Conquista que os dados estatísticos só fazem subir, mas em todo Brasil, um país precário em todos setores, com um povo sem instrução e indisciplinado que só obedece aos decretos e leis na base do ferrão e do policiamento ostensivo, sem contar a ausência de uma liderança central de um presidente que trabalhe em sintonia com estados e municípios.
Por essas e outras, talvez o Brasil seja o único país do mundo a baixar o número de infectados e a sair dessa pandemia, a não ser através de uma vacina. Infelizmente, nosso país é um caso único de bagunça geral onde até corruptos se aproveitam para roubar, Os governantes não respeitam nem os mais de 60 mil mortos e depois agem com falsidade e hipocrisia fazendo campanhas políticas de homenagens. Não acredito nesse embuste de “lamentamos”.
O MARCO DO SANEAMENTO BÁSICO E A DESCONSTRUÇÃO DO NOSSO BRASIL
Seria interminável fazer uma lista das metas propostas ao longo desses anos direcionadas ao desenvolvimento social, à saúde, à economia, à educação e de outros setores da nossa vida nacional que deixaram de ser cumpridas. Inúmeras ficaram para trás, perdidas pelo caminho da corrupção e da má gestão, sem contar que muitas instituições e órgãos foram destruídos, e o nosso Brasil só faz retroceder aos olhos internos e externos do mundo.
Agora, o Congresso Nacional aprovou o marco regulatório do saneamento básico para que até o ano de 2033 mais de 90% das habitações brasileiras tenham o serviço de esgotamento sanitário (mais da metade da população não têm saneamento) e água potável, que falta nas casas de 36 milhões de brasileiros.
Esse marco será prorrogado
Pelo andar da carruagem, não é questão de ser pessimista, mas recomendo aos otimistas mais jovens anotarem em suas agendas ou celulares e acompanhar esse processo até o ano 33. Não sei se chego lá para comprovar minha posição, de que esse marco será prorrogado por várias vezes.
Para citar um caso mais recente, alguém lembra aí do programa que obriga todas cidades de porte médio e grande construírem seus próprios aterros sanitários, acabando de vez com os lixões proliferadores de doenças e miséria?
Pois é, já faz mais de dez anos, e essa meta já foi adiada por várias vezes por desculpa de falta de recursos e outras justificativas esfarrapadas, mas tudo se resume na falta de planejamento, decisão política e seriedade em reduzir a desigualdade social e a degradação humana de tanta pobreza.
Depois de prontos e anunciados, os marcos e propostas ficam nas gavetas e caem no esquecimento. Só voltam a ser lembrados quando estão próximos do vencimento do prazo. Então, entra a pressão dos agentes políticos, estaduais e municipais para serem prorrogados por mais alguns anos. Coisas que só acontecem em nosso país. De antemão, eles (os responsáveis executores) já sabem que o plano será postergado.
Enquanto isso, o Brasil continua sendo uma nação doente e enferma terminal, devastada por pandemias, endemias, mosquitos da dengue, zica, chicunkuhya, sarampo, febre amarela, varíola, malária e vírus transmitidos por ratos e morcegos que já deveriam ter sido eliminados, se o Brasil tivesse mais de 90% de cobertura de esgotamento sanitário e água potável para todos.
Como não existe prevenção sanitária, o Brasil gasta bilhões de reais em todos os tipos de vacinas, e o sistema de saúde já vive em colapso há anos, com os hospitais superlotados e milhares morrendo por ano por falta de atendimento médico.
É um extermínio indiscriminado que já poderia ter sido evitado. Os responsáveis por essa matança em massa poderiam ter sido condenados por um Tribunal Internacional de Justiça como crimes de lesa-humanidade.
Toda essa montanha de dinheiro destinada todos os anos à vacinação poderia ter sido economizada para programas sociais (educação, saúde), se alguns bilhões já tivessem sido aplicados, há anos, nos serviços de saneamento básico, de modo que mais de 100 milhões não vivessem nas periferias, favelas e casebres, pisando e respirando esgotos a céu aberto.
DESCONSTRUÇÃO
Não é somente isso que está levando o país ao caos. O Brasil vem sendo desconstruído há anos, principalmente a partir do golpe civil-militar de 1964, com a repressão às liberdades e o desmonte das reformas de base propostas pelo Governo João Goulart.
No rápido Governo Collor, foi aquele desastre. Acabou com a Ancine e outros órgãos, e os marajás continuaram a corroer como ratos o orçamento público. Fernando Henrique Cardoso se concentrou nas privatizações das grandes empresas estatais, como a Vale, Companhia Siderúrgica Nacional e tantas outras. Bilhões de reais foram investidos para recuperar o sistema financeiro, e o social sempre permaneceu sendo secundário.
Os trabalhadores urbanos foram perdendo rendas para o capitalismo e, no campo, a almejada reforma agrária nunca saiu do papel. Até no Governo do PT ela não passou de um arremedo, que cedeu às pressões da elite burguesa.
Com o tempo, acabaram com os grandes projetos estruturados por economistas de renome internacional, como a Sudene, o BNDES e até a Petrobrás, desmantelados pela corrupção voraz. Os Correios é uma empresa falida, e perdemos a confiança dos investidores do exterior.
Atualmente, entrou um Governo que não veio para construir, mas para destruir com os restos que ainda sobraram da educação, da saúde e de outros setores essenciais para o desenvolvimento sustentável do Brasil.
O Ministério da Saúde passou a ser Ministério das Armas, ou da Bala. Na educação, uma verdadeira Torre de Babel, culminando com a indicação de um embusteiro plagiador de títulos e diplomas de mestrado e doutor.
O meio ambiente está sendo destruído através do desmatamento da Amazônia e extermínio dos índios, sobretudo agora com o coronavírus. Temos um capitão-presidente que é contra a ciência e ataca as populações mais excluídas. Consegui acabar com a cultura e o Ministério do Trabalho e tem um pacote pronto para fechar os restantes das estatais a preços de banana.
Para não prolongar, porque a lista de desmandos e má gestão é extensa, infelizmente, esse é o quadro de um Brasil em desconstrução, que agora entrou em retrocesso total e desacreditado.
O povo padece de memória e vai aos reboques de governos que transformaram o público em coisa privada. As desigualdades sociais se aprofundaram. A pobreza e a miséria só crescem. O futuro é incerto, e as metas não são cumpridas, como vai ocorrer com o marco do saneamento básico.
“CIGANOS NO BRASIL – UMA BREVE HISTÓRIA” (PARTE FINAL)
AS CORRERIAS E O FIM DO ESCRAVISMO
Fotos divulgação
As “correrias de ciganos” ocorreram por diversos fatores, como o fim do escravismo, quando muitos bandos perderam sua principal atividade econômica, principalmente no Campo de Santana, nas ruas dos Ciganos e no Valongo, no Rio de Janeiro. Com isso, a comunidade foi entrando em decadência. Muitos bandos deixaram o Rio rumo a Minas Gerais, aumentando o número deles no território mineiro. Contribuiu também para as correrias, a crise na lavoura canavieira no Nordeste no final do século XIX, junto com o êxodo de homens pobres para o Centro-Sul. Foram para Minas, ciganos caldeireiros que trabalhavam no conserto de peças e objetos de latão e de cobre nos engenhos.
Diz Teixeira que entre 1870 e 1930, intelectuais brasileiros acharam que deveriam mudar a configuração racial do Brasil. Em alguns casos, eram propostas soluções de eugenia e do extermínio de populações indesejáveis, como indígenas. Possivelmente, segundo o autor, isso inspirou as ações policiais mineiras nas Correrias de Ciganos. Surgiram ideias de integrar certas parcelas da população, tentando ordenar o espetáculo das raças. Para essa gente, formar a raça brasileira significava construir a nacionalidade.
Essas ideologias voltaram com força no governo atual, eleito em 2018. Os estrangeiros, no entanto, achavam impossível construir uma raça a partir da miscigenação. Os ciganos sempre estiveram fora do chamado espetáculo brasileiro das raças. Na Europa, eram vistos como mestiços degenerados, enquanto no Brasil como raça maldita e inferior. “Em fins do século XIX, a perseguição aos ciganos repercutia as transformações ligadas à construção da nacionalidade cada vez mais “racializada”. O projeto higienista associou os ciganos à mais baixa escória, caracterizando-os como horda, malta, manada de facínoras, desordeiros, sujos, preguiçosos e vagabundos.
A inserção dos ciganos na economia
Sobre a inserção dos ciganos na economia, um dos capítulos do livro, eles demonstraram habilidades como empreendedores e encontraram brechas no mercado para atuar na venda de escravos (séculos XVIII e XIX), de animais, arreios de prata, tecidos e roupas, relógios de ouro, consertadores de caldeiras, quiromantes (buena dicha) e até nas atividades artísticas de músicos, ilusionistas, de saltimbancos e circense. Contam que foram os primeiros artistas que atuaram em Minas Gerais. Como comediantes, chegaram a ser denunciados ao Santo Ofício, em junho de 1727, pelo bispo do Rio de Janeiro, D. Frei Antônio de Guadalupe. A acusação dizia que suas comédias e óperas eram imorais, com afronta aos preceitos da Santa Igreja.
Gilberto Freyre faz menção aos ciganos como introdutores de animais exóticos nos engenhos e nas feiras nordestinas, acompanhados de meninos que faziam acrobacias sobre cavalos. Usavam ursos verdadeiros, ou então fingidos, que dançavam ao som de pandeiros. Os macacos e macacas eram vestidos de sinhás, com laços de fitas, que dançavam e faziam graças. No interior mineiro, tornaram-se famosos os ursos ciganos. Geralmente, os ciganos que trabalhavam nessa área circense pertenciam ao grupo Rom, vindos da Europa Central.
Os maiores circos pertencentes a famílias ciganas no Brasil (Kalderash, Robatini e outras da Hungria, Romênia e da Itália) foram Circo Orlando Orfei, Circo Norte Americano, Circo Nova York e Circo México. Conta que a numerosa família Wassilnovitch (trocaram o nome por Silva) chegou ao Brasil através do porto de Salvador, com a família François, na década de 1880. Suas primeiras apresentações foram feitas em praças públicas por falta de recursos. O capitão Zurka Sbano (Kalderasch), residindo em São Paulo, conta que sua família se tornou circense em fins do século XIX. Seu avô mascateava e fazia tachos e alambiques
Eles concorriam com o comércio dos mascates portugueses, judeus, da Itália, do Líbano e da Síria. Estes procuravam atender pedidos e criar demanda. Os ciganos tinham a facilidade de fazer trocas e criar barganhas. Era difícil enganar um cigano. Muitos tinham o truque de transformar pangarés em vistosos cavalos de raça. Por isso, eram chamados de embusteiros e trapaceiros. Eram vistos por viajantes memorialistas em Sorocaba, onde funcionou o maior centro de comércio de muares trazidos dos pampas (Província do Rio Grande de São Pedro do Sul –Viamão). Era um dos principais pontos onde os tropeiros de Minas renovavam suas tropas. Havia o estilo cigano de tratar e montar o animal.
1964, O ANO QUE NOS SEPAROU
Este texto faz parte do livro “ANDANÇAS”, lançado há pouco tempo pelo jornalista e escritor Jeremias Macário. Como diz o título, trata da maldita ditadura civil-militar de 1964 que prendeu, torturou e matou muita gente. Vamos sempre lembrar desses tempos de chumbo para que ela nunca mais retorne ao nosso Brasil. Vigilância sempre, porque os ditadores não tiram férias.
Até então era a Igreja Católica e a juventude cristã com seus movimentos libertários em defesa da justiça social. Os operários, estudantes e professores pediam melhorias nas fábricas e nas escolas; os camponeses e seus sindicatos queriam mais terras para trabalhar; os marinheiros e outras fardas lutavam para se livrar de seus opressores navios e quartéis; as esquerdas políticas e seus líderes, inspirados nos ideais das revoluções socialistas, defendiam as chamadas reformas de base; e as famílias se uniam para ver seus filhos prosperarem na educação.
As camadas mais conscientes e politizadas da população avançavam e se agitavam no terreno das conquistas. Divergiam nos métodos, mas convergiam nos objetivos, enquanto a burguesia e a elite atiravam pedras. Ai apareceu a cavalaria de 1964 com seus tanques, fuzis, lanças e metralhadoras e nos separou. O governante desistiu de encarar a luta e a grande maioria não acreditou no que estava acontecendo. Com a dispersão, não houve tempo para reunir as forças.
O golpe civil-militar de 1964 foi mesmo o ano que nos separou e nos deixou mais distantes do sonho e da esperança. Foi o ano que empurrou os brasileiros para uma longa noite de trevas e uma tenebrosa separação nos anos seguintes. Foi o ano que criou carrascos para excomungar a liberdade de opinião, prender seus opositores e dar guarida aos apoiadores. Foi o prenúncio da escuridão e o ano em que irmão dedurou irmão.
1964 foi o ano que separou as pastorais dos padres de seus militantes, os progressistas dos conservadores, o bispo do sacerdote; separou os pais de seus filhos, o aluno da sala de aula, o trabalhador do seu ofício; separou os sindicados e as associações de seus filiados, os grêmios estudantis da sociedade; separou a ação do ideal, o pensar do expressar; separou Jonas de Natália, José de Maria, o amigo do amigo, a amiga do amigo, o pedreiro do jardineiro, o soldado da sua farda, o universitário do secundarista; separou os casais e a criança dos braços; separou os namorados e dividiu o companheirismo e a camaradagem.
Foi o ano que espatifou a solidariedade e transformou o amigo em inimigo. Separou o Estado da Nação. Foi o ano que separou a filosofia da lógica e assassinou a dialética marxista. Separou os avôs de seus netos, a viola da canção, o cancioneiro do palco, o palco do povo e o povo do show. Separou o agricultor da terra, o mestre do ensino e gestou mais de 30 organizações armadas que nasceram anos depois na clandestinidade.
Foi o ano que separou o artista da sua arte, o escritor da pena, o jornal da informação, o jornalista da verdade, a denúncia da página e o fuzil perfurou as notícias nas bancas de revistas. Foi o ano que separou o cineasta das filmagens de protesto, o ator do teatro e o fotógrafo de suas câmaras violadas no país da repressão.
1964 foi o ano que nos separou da democracia e gerou o monstro do AI-5 (Ato Institucional) e nos ofereceu depois uma amarela anistia. Foi o ano que separou o amor da filha do general pelo filho do deputado comunista cassado. Destroçou amizades e criou traidor contra grupos políticos rivais. Foi o ano que separou os anéis dos dedos e o casamento no altar.
Foi o ano que separou a UNE (União Nacional dos Estudantes) do seu povo que ficou órfão de seus pensadores maiores que logo partiram para o longo exílio em terras estrangeiras. Foi o ano em que o rouxinol e o sabiá perderam o canto e as flores amanheceram murchas. Foi o ano que separou, mas uniu os ditadores e tiranos.
Separação faz doer no peito a saudade do ente querido que parte fugido e nunca mais retorna ao seu lar. É tristeza e melancolia. O ano de 1964 não só separou como desterrou e fez desaparecer. Foi como um cavalo de fogo que transformou a liberdade em brasas. Foi como o rasgo da espora na barriga do animal.
Não se imaginava que aquele ano fosse tanto se prolongar por mais de duas décadas de separações, de encontros e desencontros apressados, de noites sem dormir esperando o outro clarão e que fosse separar a primavera dos raios de luz e fazer as folhas caírem secas sobre o chão. Foi o ano que nos separou e nos proibiu de marcharmos juntos cantando o hino nacional. Foi o ano que nos obrigou com mão de ferro a nos separar.
EM TEMPOS DE CORONAVÍRUS
Pelas lentes do jornalista Jeremias Macário, o tempo está carregado, incerto e com nuvens sombrias, mas amanhã será outro dia com o sol brilhando, e muita gente nele se banhando, para realizar seus sonhos que, apenas deram uma parada. É como estamos em tempos desse coronavírus, mas as nuvens turvas vão passar e todos vão se abraçar, mas, para isso acontecer, todos têm que deixar de ser individualistas e pensar no coletivo, no outros e nos mais de 50 mil que se foram no Brasil. Lamentavelmente, depois de quase quatro meses, ainda tem gente que não acredita no que está ocorrendo e acha que tudo é mentira. Infelizmente, outros entram em pânico e, de medo piram, fazendo com que a mente adoeça e, consequentemente, o corpo enfraquece e abre a guarda para o danado mortal do vírus. Sempre digo que os mais pobres são os mais vulneráveis a esse tempo pesado e carrancudo. É tempo de ler, meditar, de reduzir o consumo de supérfluos e mergulhar em si mesmo para puder mergulhar nos outros, e respeitar a ciência e os espaços de cada um.
UMA NAÇÃO EM CORRERIAS
Este poema de autoria do jornalista Jeremias Macário é inédito e saiu agora do forno. Fala de um povo que foi e ainda é muito discriminado pelos olhos preconceituosos.
Fotos divulgação
Um dia, uma bela “buena dicha”,
Cigana do Rio Campo de Santana,
Leu as raias da minha mão,
Falou do meu passado e futuro,
E de uma nação em correrias,
De um povo livre Calon e dos Rom,
Origens de várias partes do mundo,
Visto como trapaceiro e vagabundo.
Reza a lenda que um grupo do Egito,
Não acolheu o Infante em sua tenda,
Quando fugia com sua Família no deserto,
E aí caiu maldição de vagar como nômade,
Viver sua gente em disparadas correrias,
Forasteira peregrina a pagar a sua sina,
Mas tudo foi engano cigano feito mito.
Da Grécia Antiga e dos confins da Ásia,
Na Romênia, a nação Rom foi escrava,
Falseou de imigrantes alemães e italianos,
E da Península Ibérica veio o Calon Kalé,
No galé do navio degredado por Portugal,
Para o Rio como bandidos imundos vadios,
Nos mares negreiros do Brasil Colonial.
Para sobreviver, negociou com escravos,
Arreios de prata, cavalos e bestas animais,
Cigano Calon do cobre, zinco e do latão,
Caldeireiro engenho da mata canaviais;
Do Nordeste, de Minas a Bahia nos jornais,
Noticiado como sujo, embusteiro sem etnia,
Pela polícia dessa sádica elite sociedade,
Como desordeiro, preguiçoso e ladrão.
Das correrias dos sangrentos tiroteios,
As posturas municipais de torturas,
Acusam ciganos de zíngaros imorais,
A “buena” de bruxa astuta prostituta,
Uma nação com suas marcas culturais,
Sem direito à cidadania do ir e do vir.
De tez morena, olhar mágico lógico,
Com seu tempo sem relógio dividido,
Não linear, de labirinto reprimido,
Curtindo na rede, a deusa do ócio,
Como um transgressor das normas,
Herege banido dessa moral religiosa,
Vai a cigana Andaluz a bailar formosa,
Nas batidas sonoras das castanholas,
A sonhar com seu reino mitológico.
Essa é a história de uma nação em correrias,
De cidade em cidade, província em província,
Artista amante da dança nas noites de boemias
Que com seu jogral encantou toda Corte Real.
UMA ATITUDE INUSITADA
Albán González – jornalista
Minha avó espanhola costumava chamar a pessoa idosa, ranzinza, de “velho rabugento”. O prefeito Herzem Gusmão, que parece estar sempre irritadiço, principalmente agora que seu grande adversário é uma criatura invisível, que vem atrapalhando seus planos de passar mais quatro anos na prefeitura de Vitória da Conquista, esquecendo que 70 anos é a idade limite para o servidor público se aposentar. Minha avó Áurea teria mandado nosso alcaide vestir o pijama e voltar a fazer o circuito das emissoras de rádio da cidade, o que lhe dá um enorme prazer
Eleito por aqueles que não suportavam mais testemunhar os mensalões e petrolões, patrocinados pelo PT nacional, e como não havia outra opção, a maioria dos conquistenses, principalmente as classes A e B, elegeu Herzem. Prestes a completar seu quarto ano de mandato, o radialista, que no passado empunhou a bandeira vermelha do Partido dos Trabalhadores, teve o apoio dos irmãos Vieira Lima e do ex-presidente Michel Temer, alvos da Lava-Jato. Em vez de trabalhar pela cidade, acusou seus antecessores por ter colocado em suas mãos um “abacaxi”, que pretende continuar a descascar pelos próximos quatro anos.
Indiferente ao aumento dos números de mortos, contaminados e de leitos ocupados, vítimas da Covid – 19, após a reabertura do comércio e dos templos religiosos, no último dia 1º, pressionado por uma parcela do seu eleitorado, constituída por lojistas e evangélicos – as igrejas católicas permanecem fechadas – Herzem trava uma disputa contra o governo estadual, a Justiça, o Ministério Público, organizações mundiais de saúde, pesquisadores e infectologistas, para manter as lojas abertas e a realização de cultos em recintos fechados.
Segundo Herzem, com bases em estudos técnicos, a Covid -19 está sob controle em Conquista, razão pela qual não vê razão para cumprir a Ação Cível Pública, assinada pela promotora Guiomar Oliveira Neto, pedindo a revogação do decreto que determinou a reabertura do comércio e das igrejas evangélicas.
As autoridades municipais fecham os olhos para as aglomerações no Centro, com filas nas portas dos bancos, lotéricas e estabelecimentos comerciais; à chegada de ônibus clandestinos, vindos de São Paulo, trazendo passageiros contaminados pelo vírus; ruas fechadas, passageiros dos ônibus sob a chuva, caos no trânsito, para que o prefeito possa entregar à cidade o novo Terminal da Lauro de Freitas, seu carro-chefe da campanha pela reeleição. Por último, avalizou a queima de fogueiras e de fogos de artifícios, proibidos por médicos e sanitaristas, no segundo feriado de São João, que havia sido antecipado por decreto estadual.
A crise sanitária em Conquista, causada pelo novo coronavírus, seria melhor administrada se Herzem tomasse como exemplo a conduta do seu novo guru, o prefeito de Salvador, ACM Neto, que deu as mãos ao seu adversário político, o governador Rui Costa, numa frente de batalha contra o vírus. Para ambos, a vida humana é mais preciosa. Contudo, o conquistense prefere a guerra de palavras, levar a doença para o terreno da política, ao modelo do seu mito, o presidente Bolsonaro.


















