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:: ‘De Olho nas Lentes’

UM TELEFÉRICO PARA O CRISTO

Sobre a questão da urbanização e da segurança na área do Cristo da Serra do Periperi, do escultor Mário Cravo, o nosso amigo e companheiro Dal Farias nos lembra que um dos maiores projetos discutido na Câmara de Vereadores, no início dos anos 90, foi do parlamentar Adison Vilas Boas (in memoriam) visando tornar o local no maior ponto turístico de Vitória da Conquista, inclusive com a implantação de um teleférico (um bondinho) ligando a Serra ao Poço Escuro. Essa iniciativa me faz lembrar também da proposta do ex-prefeito Raul Ferraz quando se candidatou ao poder executivo, pela segunda vez, se não me engano no início dos anos 2000. Sua ideia era construir um bondinho ligando o Cristo ao final da Ernesto Dantas. Bem, o projeto do vereador foi engavetado. Dal nos recorda ainda que, quando Conquista ainda não tinha virado uma “Suíça Baiana”, uma comissão com o governador ACM esteve na cidade, para mostrar as potencialidades regionais e turísticas do Planalto de Conquista. “Em minha opinião está faltando na Câmara lideranças robustas que voltem a encampar os grandes assuntos de interesse da cidade e da região. Fazem algumas audiências públicas, mas ineficazes, que não fazem o efeito esperado para a população. Os grandes temas de Conquista estão ficando no esquecimento” – brada Dal Farias. É isso aí, meu amigo, até quando aqueles quiosques vão continuar fechados por falta de segurança permanente no local? Vamos nos contentar apenas com aquele mirante e o resto permanecendo no mesmo? As pessoas ainda têm medo de visitar o monumento e apreciar a cidade lá do alto. Não bastam esses eventos promovidos pela Polícia Militar. Aquela área merece muito mais que isso.

QUIOSQUES FECHADOS

Todas as vezes que vou visitar o Cristo da Serra do Periperi, do artista plástico Mário Cravo, fico a me perguntar do porquê aqueles quiosques sempre estarem fechados, quando poderiam estar abertos para atender os visitantes com lanches e bebidas? Ninguém se interessou em se habilitar para explorar aqueles pontos, ou a Prefeitura Municipal não abriu concorrência? Os quiosques se transformaram em pontos das cachorradas de ruas, como flagraram minhas lentes, na mais recente ida ao local, no feriadão de final de ano, quando levei meu filho, sua esposa e minha neta que vieram do Rio de Janeiro. Apesar das obras elevatórias para se ter uma vista melhor da cidade lá do alto, pouca gente tirando fotos e uma sensação de insegurança. O local, que poderia ser um cartão postal de Vitória da Conquista, bem visitado, passa uma impressão de verdadeiro abandono, sem uma digna urbanização e mais vigilância para quem chega de fora. Há 35 anos, quando vim trabalhar em Conquista como jornalista de A Tarde, pouca coisa mudou, e cada prefeito faz um tiquinho. Passa um tempão para vir outro e colocar um tijolo para dizer que fez alguma coisa. Aqui ali era para ser um ponto de encontro, lazer e divertimento todos os dias, principalmente em finais de semana, com bares e restaurantes abertos, com muita segurança e estrutura. Toda vez que subo à Serra ao encontro do Cristo, tenho a sensação que ele se sente esquecido, na solidão do tempo e no zunir do vento. Aliás, sua base está suja de velas, santinhos e outros objetos como sinais de promessas de religiosos. Nada contra a fé, mas a escultura do Cristo não pode se transformar numa romaria. É lamentável e vergonhoso!

 

 

 

 

 

 

 

 

O HERBÁRIO DA SERRA

Para quem mora dentro da cidade numa selva de pedra, no corre-corre do dia a dia, entrar numa floresta é sentir uma sensação de paz, frescor e quietude na alma. Só em ouvir o canto dos pássaros e o farfalhar das folhas, parece que nos transportamos para um paraíso. Os problemas voam e nos sentimos mais leves. Depois de mais de 20 anos fui, nesta semana, ao Herbário (ainda pequeno) da Serra do Periperi e, imediatamente, bateu a lembrança de Walter, o criador daquele local mágico, que dedicou quase toda sua vida, com amor e dedicação, a cuidar das plantas, num descampado onde existia ao lado um camping, um espaço de acampamentos para os amantes da natureza. Hoje o Herbário fica dentro da mata de cipó, uma extensão até o Poço Escuro, inclusive com uma trilha de acesso. Foram momentos de prazer e encantamento, flagrados pelas lentes da nossa máquina. Fui recepcionado por Lázaro que cultiva mudas que são distribuídas aos interessados em plantar uma árvore em sua calçada ou no quintal. Walter nos deixou há uns quatro anos, mas lá ficou sua viva presença através de seus pertences e anotações. Fui testemunha como ele amava aquele local e muito contribuiu para sua preservação. Merece toda nossa homenagem. Por sua vez, fiquei triste ao ver o avanço das habitações do Bairro Guarani até o topo da Serra, por muitos anos castigada com a retirada de terra, areia, pedra e outros materiais pelo setor da construção civil. Para o porte de Vitória da Conquista, é um Herbário que precisa ser ampliado com mais espécies para atender a demanda. Se houvesse mais investimentos por parte do poder executivo, o local poderia até ser transformado num ponto turístico, com trilhas e outros equipamentos atrativos aos visitantes.

 

ÁRVORE FRONDOSA

Em 2026 continue sendo como uma árvore frondosa que, além de oferecer sombra contra o sol escaldante, produz frutos para alimentar as pessoas. Muitas vezes, nem todos são sadios por causa das pragas. É só saber separar os bons dos ruins, mas o que importa mesmo é dar frutos do bem. Sejamos, então como uma árvore frondosa, principalmente neste mundo tão conturbado e difícil de se viver. Vamos cuidar da nossa árvore.   Nela, as aves fazem seus ninhos  e se abrigam, inclusive de possíveis predadores. Que neste 2026 sejamos árvores frondosas, para acolher a todos estradeiros e rancheiros da vida.

POLITICAGEM PARA AGRADAR

Que me lembre, nestes mais de 34 anos em Vitória da Conquista, não via um recesso tão extenso e longo para os servidores públicos municipais, de duas semanas, com a grande maioria das secretarias fechadas. Pelo decreto da prefeita, só estão funcionando os serviços essenciais. No meu entendimento, todos são imprescindíveis para o cidadão. Trata-se de uma politicagem para agradar os funcionários, mas prejudicial aos usuários contribuintes que pagam altos impostos. Neste país e nesta Bahia, especialmente, já temos muitos feriados e feriadões que atrasam o desenvolvimento econômico e social, sem contar que é o período de mais gastanças e acidentes no trânsito, com aumento de mortes. São as épocas em que o sistema SUS fica sobrecarregado, com mais custos para o Tesouro. Na Bahia, por exemplo, as festas começam em início de dezembro e só terminam em março. O legislativo e o judiciário entram em recesso por dois meses, e agora vem o poder executivo de Conquista querendo fazer quase o mesmo. Tudo isso é muito bom para o setor de turismo em geral, como agências de viagens, transportes e hotéis. Do outro lado, deixa a classe com menor poder aquisitivo, que sempre está imitando o rico, ainda mais endividada. Vamos todos às farras e às favas para o trabalho.

TEM DE TUDO NA FEIRINHA

As feiras nasceram com as primeiras tribos humanitárias de agricultores, classificados como sedentários, diferente dos caçadores e coletores que eram nômades. São tão antigas quanto a humanidade e surgiram da necessidade da troca de seus produtos entre as pequenas comunidades. Elas existem em qualquer parte do planeta, incluindo as grandes metrópoles, e sobrevivem ao mundo moderno das tecnologias, desde a criação dos armazéns, das lojas comerciais, dos supermercados e até dos mercados virtuais. Não existem cidades, vilas e distritos que não tenham a sua. Nas grandes são várias, como é o caso de Vitória da Conquista, mas sempre tem uma que entra nas graças de seus moradores. Em Salvador é a Feira de São Joaquim. Em Conquista é a Feirinha do Bairro Brasil, a mais famosa e graciosa, considerada patrimônio cultural da cidade. Aliás, toda feira é um palco livre da nossa expressão cultural, como a nossa histórica Feirinha onde se encontra de tudo, desde boxes de carnes, peixes, frutas, verduras, bebidas (cachaças), um caldo de cana com pastel (para quem aprecia o pastel), temperos, cereais em geral, a utensílios usados de casa, roupas, sapatos, ferragens, artesanatos, mesas, cadeiras, objetos de uso pessoal e um monte de bugigangas, superando os supermercados, com o diferencial que na feira o cliente pode pechinchar os preços. É gostoso passear na feira e fazer suas compras ao ar livre, sem estar empurrando carrinhos e pegando filas naquelas máquinas registradoras. Nos encontros com os amigos e conhecidos, até o papo na feira é mais prazeroso que o de um supermercado.  Na feira você não precisa ficar rodando entre prateleiras para encontrar um produto. As mercadorias ficam em bancas e até no chão. Além de ter de tudo, na feira existe muito mais calor humano e você pode até trocar um dedo de prosa com o vendedor, como se tornar freguês e selar uma amizade duradoura. Quando vou à feira, lembro dos meus tempos de moleque roceiro do interior onde fui até comerciante de farinha. A Feirinha do Bairro Brasil, por exemplo, tem algo de especial e é ali onde você se sente mais gente, mais humano e menos número e máquina. Trata-se de um ambiente mais social, bem mais popular, principalmente pela simplicidade da sua gente por onde circula. Nossas lentes flagraram esse colorido de imagens que não existe num supermercado.

O ANEL VIÁRIO E A ROTA DO LIXO

Meu amigo “Zé Maria”, do Movimenta Conquista, a duplicação da BR-116 é para inglês ver. Deveríamos concentrar nossas forças para a construção de viadutos e passarelas no Anel Viário em torno da cidade. Esses pontos (zonas sul, oeste, leste e norte) se tornaram em passagens da morte. Quando fizeram o Anel, há cerca de 30 anos, prometeram fazer estas obras e até agora nada, só armengues, e agora umas sinaleiras da prefeitura que não solucionam o problema. São apenas paliativos.  Na boca do sertão, quem sai de Conquista para Anagé e Brumado, no sapé da Serra do Periperi, entre o Bairro Senhorinha Cairo e Henriqueta Prates, nossas lentes flagraram o tormento dessa travessia para motoristas e pedestres. É só confusão e, vez por outra, acontecem acidentes. Cadê os nossos políticos que, cinicamente, abrem a boca para dizer que estão trabalhando pelo povo. Conquista é uma cidade grande em termos de habitantes, mas pequena em sua infraestrutura.

Nesse trevo louco, sem viaduto e passarela, observei também que aquele local pode ser chamado de rota do lixo, a começar pela “Sucata Esperança”, que nada tem de esperança, mas de perturbação aos moradores da vizinhança. Além da zoeira das máquinas, o dia todo ela solta fuligem e poeiras tóxicas no ar poluindo as casas próximas. É um verdadeiro atentado à saúde pública. Cadê o poder executivo, o Ministério Público, a OAB e a própria Câmara de Vereadores que não tomam providências para relocalizar esse entulho para outro ponto distante da cidade. Além da sucata, ainda temos duas unidades de reciclagem do lixo, menos grave, mas que fazem parte da rota do lixo de Vitória da Conquista. Ainda tem gente idiota burguesa que chama aqui de “Suíça Baiana”. Essas pessoas não passam de alienadas que não conhecem as periferias da cidade, a maioria vivendo nas encostas da Serra do Periperi. Bem que essa rota do lixo poderia se transformar em mais um ponto turístico, já que aqui existem poucos para se visitar.

A SERRA E O TEMPO

O tema daria para se fazer um poema e ser musicado, uma crônica, um filme de ficção ou documentário, outro gênero literário e até mesmo uma tese de doutorado.  Claro que estou a me referir sobre a nossa popular Serra do Periperi, em Vitória da Conquista, que poderia ser chamada de Serra dos Mongoiós, Monachós, também conhecidos como Camacãs. A Serra e o Tempo, dela sobrou o vento no lamento zunido de seus antepassados espíritos.

A Serra tem muitas lendas e histórias para serem contadas. São poesias do tempo, matas que pertenceram aos índios, expulsos e exterminados de suas terras virgens pelos colonizadores. Corredeiras de águas que alimentavam o rio Verruga e matava a sede de seus primeiros nativos.

Há mais de 100 anos, em 1817, quando aqui chegou (Arraial da Conquista) o príncipe alemão Maximiliano Wied-Newied, ele ficou encantado com a exuberância da sua floresta, ainda praticamente virgem. Se retornasse depois ao túnel do tempo, ficaria horrorizado e decepcionado pela ação predadora do homem.

Dela sobrou uma pequena área do Poço Escuro, mesmo assim carente de preservação e urbanização. Por mais de 100 anos depredaram a Serra, derrubaram suas árvores, retiraram terra, pedras e areia, aterraram suas nascentes e, ao longo desse período, seus habitantes invadiram suas encostas. Maldita exploração imobiliária! O capital tem o dom do extermínio.

No final dos anos 90 ela foi cortada de ponta a ponta para construir o asfaltamento do Anel Viário, como mostram as imagens de comboios de carretas flagradas pelas nossas lentes. Lembro que se criou uma grande polêmica na época com opiniões contrárias dos ambientalistas e defensores da preservação da Serra, a esta altura totalmente desfigurada, verdadeira terra arrasada. A discussão custou a demissão do secretário municipal do Meio Ambiente que contestou pontos do projeto.

Toda sua encosta hoje, praticamente de ruas de chão, sem saneamento básico, está tomada pela pobreza periférica que mais sofre com as fortes chuvas. As partes altas e baixas da cidade também são atingidas por lamas, pedras e todos tipos de detritos que descem da Serra pela falta de uma vegetação mais densa como naqueles tempos da visita do príncipe.

 

O ANTIGO E O MODERNO

No bico da pena, o grande artista das pegadas nordestinas, no sabor da vida simples dos sertões, Silvio Jessé nos apresenta uma exposição inédita que retrata o antigo e o moderno dos 185 anos de emancipação de Vitória da Conquista. Vale a pena visitar seus trabalhos que estão no “Memorial” da Câmara Municipal de Vereadores. A partir da visão do príncipe alemão Maximiliano, que visitou o arraial da Conquista, por volta de 1917, Jessé nos presenteia com belos quadros sobre a cidade antiga e a moderna, mostrando sua evolução nos tempos. Sua sensibilidade ultrapassou fronteiras entre o regional e o internacional, com pinturas encantadoras e realistas sobre o nosso sertão nordestino. Ele tem um olhar artístico que faz a pessoa penetrar em suas paisagens, de tão reais que são.

Como o pintor espanhol Pablo Picasso que retratou os horrores da guerra civil espanhola e as atrocidades do ditador Franco, o nosso artista conquistense Silvio Jessé pincela, em outras obras, os sofrimentos dos sertanejos diante da seca e da omissão dos políticos e governantes em resolver os problemas do homem do campo. Sílvio é o Picasso do sertão, embora com outras formas, linhas e estilos modernistas.

Lembro como jornalista de uma entrevista que fiz há muitos anos sobre o trabalho de Silvio onde ele recordava da sua infância numa fazenda do município de Vitória da Conquista. Dizia que foi ali que começou a aprender a pintar, usando a terra e olhando as pessoas, seus costumes e hábitos. Tudo isso é vida e pura poesia que transborda da alma.

Como escreveu a curadora Ester Figueiredo sobre sua última  exposição no Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima, com o tema “Sertão Colorido Quanto Preto e Branco, obras inspiradas no grande fotógrafo Evandro Teixeira (saudades do amigo que se foi), Silvio Jessé é tudo isso, expressão maior do seu tempo de moleque travesso na roça.

 

EXÓTICA FLOR

Essa nossa caatinga exótica tem suas espécies únicas que só existem em nosso Nordeste místico carregado de símbolos e fé. Assim são suas raras flores, como a estrela marrom de um cacto, primo do mandacaru, que também produz a sua uma vez por ano. Por serem diferentes, são difíceis de serem captadas pelos olhos humanos, mas são espíritos encantados ou espelhos encantadores da alma. São elas rústicas as minhas preferidas que representam o reflexo do meu ser. Para mim, elas têm um grande significado e retratam o que eu penso. Podem ser amor, tempo, vida, existência, conflito ou sentido do viver. Criaturas que brotam do chão, mesmo em tempos de seca em meio a uma paisagem cinzenta, como esta que tem a sua cor distinta entre o verde. É um tipo exótico, mas é uma flor das flores.





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