O DESCARTE DE “AMIGOS” COMO COISAS QUE PERDEM A VALIDADE E AS DESCULPAS
Nos tempos atuais, amigos são tratados como se fossem aparelhos celulares, geladeiras, fogões ou outros bens materiais que só servem enquanto estão funcionando. Quando dão defeitos, joga-se no lixo como imprestáveis ou objetos descartáveis. O mesmo se faz com os “amigos” quando eles não representam mais interesse para o interessado. Simplesmente joga-se fora, pede-se desculpas e vira-se as costas. “Amigo” hoje tem prazo de validade.
Antigamente, amigo não tinha prazo de validade vencida. Valia para sempre. Podia ter em conta que o amigo era sincero e eterno. Hoje, o tempo de duração, na maioria das vezes, é bem curto, dependendo do ter posses ou do sucesso social e econômico.
Se entre os dois um entra em fracasso financeiro ou perde seu destaque na sociedade, o outro que ainda estiver numa boa, não mais o procura e, quando o encontra por acaso, sempre vem com aquelas desculpas fajutas na tentativa de justificar seu afastamento, ausência ou sumiço. Não existe mais aquele amigo certo nas horas incertas, dos problemas e dos momentos difíceis.
– Oh, “amigo”, desculpa aí não ter comparecido ao seu aniversário. É que tenho andado com a vida corrida, com falta de tempo. Sabe como é a vida hoje: É aquela loucura! Desculpe por não ter lhe telefonado, passado uma mensagem ou feito um áudio! Meu celular estava com problema! Esqueci totalmente…
É assim o papo que rola quando o “amigo da onça” se encontra com o outro que tanto lhe dava atenção e depositava nele consideração e confiança. O sujeito até inventa que estava doente ou em viagem, na maior cara de pau. Ele já está em outro esquema, se passando de “amigo” para um novo conhecido abonado.
-Entendo a situação, tudo bem, sem problema! Para um bom entendedor, tudo basta, só que não dá para engolir as desculpas mentirosas. Lá se vai mais uma “amizade” em que o outro achava ser firme e sincera. Lá se vai mais uma ilusão, mais uma decepção com o ser humano.
Por falar em desculpas, coisa também são as quantidades delas que se pedem atualmente ao outro, desde a falta de pontualidade corriqueira nos encontros marcados até às agressões verbais e físicas, principalmente quando se trata do homem que bate na mulher.
A desculpa se tornou tão maquinal que a pessoa repete a palavra tantas vezes sejam as ofensas cometidas, isto sem corrigir o erro, e nem sente. No caso da violência contra a mulher, ele pede mais desculpas do que o número de agressões. É um rosário de desculpas
Existe até a desculpa pelas desculpas, e a do namorado ou namorada que termina o relacionamento pelo celular e depois pede desculpas pelo mesmo aparelho por não ter praticado o ato pessoalmente, como deveria ser.
Essa ação repetitiva de pedir desculpas e não refletir depois que foi errado se tornou coisa normal nos dias de hoje. Você solicita desculpa hoje por um gesto desagradável contra o outro e amanhã faz a mesma coisa e volta a pedir desculpas da mesma forma, sem perceber que está sendo falso.
Tem também os grosseiros e as grosseiras que nem pedem desculpas, quanto mais perdão pelo que faz. Há quarenta ou cinquenta anos, as pessoas tinham mais consideração uns para com os outros, e um pedido de desculpas era carregado de sentimentos verdadeiros, sem contar que se procurava não mais cometer o mesmo erro.
Nesse mundo tecnológico e superficial, a desculpa virou sinônimo de falsidade na boca das pessoas, tanto quanto chamar o outro de amigo-irmão numa mesa de bar, puramente por interesse. Basta um aperto de mão para a pessoa desconhecida chamar a outra de “amigo”.











