O INSTITUTO DOS CIGANOS DO BRASIL ESTÁ RECORRENDO AO GOVERNO FEDERAL PARA TOMAR PROVIDÊNCIAS CONTRA AÇÕES DE PRECONCEITOS AO SEU POVO.

Como nos tempos coloniais e do império quando para o Brasil eles foram deportados por Portugal e aqui perseguidos pela polícia com toda carga de preconceitos e violências como bandoleiros, preguiçosos, embusteiros, ladrões e malfeitores, o povo cigano continua a viver a mesma situação de terror e sendo “tratados como mercadorias”, conforme desabafou Rogério Ribeiro, ex-presidente e assessor de Comunicação do Instituto dos Ciganos do Brasil.

Em nome do presidente do Instituto, Itamar Cigano, com sede no Ceará, Rogério esteve nesta quarta-feira (dia 07/06), em Brasília, no Ministério da Justiça, Flávio Dino, e no Superior Tribunal de Justiça quando protocolou documento de revogação de prisão de ciganos e em defesa do seu povo contra os preconceito e abordagens arbitrárias por parte da polícia, inclusive muitos deles envolvidos em abuso de poder.

Entre outros assuntos, em audiências, Rogério falou da situação de vários sequestros na Bahia, como em Camaçari e Vitória da Conquista, bem como nos estados da Paraíba, Pernambuco e Minas Gerais. “Chega de tanta discriminação, abordagens desnecessárias e cigano não é mercadoria. Estamos solicitando apoio da Força Nacional para que se acabe de vez com essas perseguições” Ele se disse confiante nas tomadas de medidas do governo federal. “Os preconceitos continuam fortes e as coisa devem mudar”

Cita o documento que a Associação Beneficente Cultural e de Desenvolvimento Social dos Povos Ciganos do Brasil – ABECC foi formada por lideranças de diferentes comunidades, com o intuito de promover o desenvolvimento sustentável, para a defesa e garantia dos direitos do seu povo em situação de conflito.

SEQUESTROS E UMA TRAGÉDIA EM CONQUISTA

“As ameaças, sequestros e declarações de ódio contra os povos ciganos estão promovendo um verdadeiro medo e insegurança às famílias ciganas no estado da Bahia”- destaca o documento, ao denunciar que mais de 20 pessoas de origem cigana foram vítimas de sequestros, em 2021, na região metropolitana de Salvador, precisamente em Simões Filho e Camaçari.

Essas pessoas somente foram devolvidas mediante resgate com valores que chegaram a 150 mil reais. Em 2022 foram cerca de 10, sem contar outras tentativas. Neste ano, o primeiro ocorreu na tarde de quarta-feira, dia 11 de janeiro, na cidade de São Felipe. A vítima foi um adolescente de 14 anos. Os criminosos ameaçaram matar o jovem. O resgate custou o valor de 200 mil reais.

Os relatos prosseguem em relação aos constantes sequestros, como o do dia sete de março deste ano quando o cigano Lourival Gama, morador de Simões Filho reagiu a uma tentativa de sequestro e trocou tiros com os bandidos. A vítima foi morta com um tiro na barriga. Outros sequestros ocorreram em várias cidades. Outra agressão com assalto aconteceu recentemente no município de São Sebastião do Passé.

Há cerca de dois ou três anos ocorreu, em Vitória da Conquista, uma tragédia onde dois soldados foram mortos, no distrito de José Gonçalves. Em resposta a polícia militar agiu com terror e vários ciganos (uns sete ou oito) foram eliminados em “supostas trocas de tiros”. Como se não bastasse, muitos foram espancados e uma família foi obrigada a fugir do município através de uma medida protetiva.

VÍTIMAS DE UMA SOCIEDADE SEGREGACIONISTA

O autor da obra “Ciganos no Brasil-uma breve história” Rodrigo Correia Teixeira, desmistifica o estigma da visão estereotipada dos ciganos como sujos, embusteiros, baderneiros, trapaceiros e preguiçosos. Eram vítimas de uma sociedade segregacionista. Nascer cigano era ter seu destino marcado do lado oposto da “boa sociedade”. Sempre foram prejulgados, inclusive por crimes não cometidos, como de ladrões, assassinos, salteadores e até sequestradores de crianças.

Perseguidos por D. João V, de Portugal, muitas das vezes condenados injustamente, eram embarcados para o Brasil Colônia, mas até certo ponto bem aceitos na corte de D. João VI e no primeiro Império, como artistas dançarinos, músicos e circenses. Muitos ficaram ricos como negociantes de escravos, mas suas atividades mais fortes eram no ramo do comércio de cavalos, bestas e a prática da “buena dicha” (leitura das mãos), no caso das mulheres.

CAMINHOS INÓSPITOS

Afirma o escritor, na conclusão do seu livro, que, “como nômades ou sedentarizados, perambulavam por caminhos inóspitos, acampavam em áreas pouco propícias e se estabeleciam em espaços insalubres nas cidades”, como é o caso do Campo de Santana, ou Rua dos Ciganos (Constituição – Praça da República, no Rio de Janeiro).

Destaca que “a sobrevivência foi a realização mais duradoura, o grande evento da história cigana”. Ele cita Angus Fraser, como maior historiador sobre o assunto, quando diz que, quando se consideram as vicissitudes que eles encontraram, deve-se concluir que a sua principal façanha foi a de ter sobrevivido”. Teixeira acrescenta que “o universo cigano, mais que de duplicidade, é repleto de multiplicidades, entre as quais estão as relações com os não-ciganos, as identidades dos grupos e as imagens que se formaram dos ciganos”.

UM CIGANO NA PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA

O Brasil já teve presidentes nordestino (pau-de-arara), gaúcho fazendeiro, mineiros, paulistas, marechal das Alagoas, generais da ditadura civil-militar, um sádico capitão, mas poucos sabem de um presidente-cigano, Juscelino Kubitschek, que construiu Brasília, a qual virou um covil de ladrões, mas não por culpa da nação cigana.

Quem revelou esta curiosidade, que eu nem sabia, foi o autor do livro “Ciganos no Brasil – Uma Breve História”, de Rodrigo Corrêa Teixeira. Os  Calon, ou Kalé, vieram da Península Ibérica e aqui se aportaram desde o início do século XVI.

No entanto, na primeira metade do século XIX, o Brasil recebeu o grupo Rom, ou Roma, da Europa do Leste, com suas famílias. De acordo com informações, o Rom que mais cedo chegou ao território mineiro foi Jan Nepomuscky Kubitschek, que trabalhou como marceneiro no Serro e em Diamantina. Ele era o avó direto de Juscelino.