Muito se fala sobre a discriminação contra o negro, a violência contra a mulher, a intolerância religiosa e de gênero, mas pouco se comenta sobre o idoso que a nossa sociedade virtual descartável trata como se fosse um inútil, imprestável e lesado da cuca.

Para muitos, todo idoso deveria ser jogado num abrigo como tralha velha num depósito de lixo. É gente que não é mais gente. Os jovens não mais o respeitam porque os pais perderam a cultura dos seus antepassados e os criam sem ensinar que o tempo passa e todo ser humano se envelhece.

Dizem que existe um estatuto para protegê-lo, mas foi esquecido num baú de coisas antigas. Você já viu num noticiário algum idoso indo a uma delegacia para prestar uma queixa de discriminação ou maus tratos dos filhos, parentes ou até mesmo de um desconhecido nas ruas?

Certo dia estava no centro da cidade e dei sinal antecipado para entrar na vaga de idoso. O cretino dito jovem com titica de galinha na cabeça me atravessou e entrou na vaga como se fosse a coisa mais normal. Fechou o carro com a maior rapidez e entrou numa clínica.

Confesso que dá vontade de ir lá, engargelar o elemento pelo pescoço e fazer ele tirar o veículo na marra. Não existe fiscal para ver essas agressões. Infelizmente, vivemos numa terra de ninguém, como no antigo faroeste norte-americano. É tudo uma questão de formação familiar, nem tanto de educação escolar.

Na concepção dos jovens, atendentes de lojas, escritórios e repartições, todo idoso é um senil e caduco, quando nos tempos atuais a maioria tem mais memória e história que eles. Não têm o mínimo de consciência social, quanto mais de direitos humanos.

Você já experimentou ir resolver uma questão burocrática, tirar um documento ou fazer uma reclamação com um acompanhante, filho ou mulher mais novos na idade? Você senta e não tem direito a falar por si, porque a atendente ou o atendente só olha e faz perguntas para a pessoa ao seu lado. Tudo não passa de um ato de desprezo.

Simplesmente, o idoso é ignorado, um invisível. Isso é total discriminação. O gerente ou chefe da loja, do estabelecimento público ou privado não treina o funcionário como tratar o idoso, com respeito e sem discriminação.

Esse tipo de coisa já ocorreu comigo quando, por acaso minha mulher mais jovem estava comigo. Fiquei pasmo porque a jovem atendente só dirigia a palavra para ela, como se eu fosse mudo e surdo. Ela nem experimentou a minha lucidez e pouco me deu atenção.

O homem considerado idoso casado com uma mulher mais moderna na idade, ou vice-versa, paga um alto preço na sociedade porque é discriminado onde chega. Muitos olham com a cara de reprovação, e tem gente que se atreve a flertar com sua mulher, inclusive pessoas que dizem ser seu amigo-irmão.

Essa gente imbecil, preconceituosa e idiota acha que não pode existir amor entre duas pessoas com diferenças de idades. Tudo é visto como interesse pecuniário onde um tem mais dinheiro que o outro. Não conta o conteúdo, se um tem mais ou igual conhecimento. Não contam os sentimentos!

Um intelectual pobre idoso com uma mulher mais jovem que ele, mesmo sendo mais abonada ou não, é até mais aceitável que um burro rico casado com uma pobretona. Aos olhos da sociedade ela está ali dando um golpe na certa. É vista como uma aproveitadora. A discriminação e o julgamento cretino são bem maiores, porque tudo gira em torno do dinheiro.

Depois que o bebê nasce, ele passa a ser um “idoso” para quem ainda está na barriga. Um de 20 anos já é um idoso para o de oito ou dez, tanto que existe o velho hábito de ser chamado de tio ou tia, outra forma de discriminação disfarçada.

O preconceito contra o idoso é também estrutural e cultural, mas ninguém analisa assim, e o tratamento de menosprezo, de desrespeito e de deboche se tornaram coisas comuns e normais nessa sociedade hipócrita e falsa.