“FLUXO E REFLUXO” VII
OS INGLESES E A QUESTÃO RELIGIOSA NA COSTA DA MINA OU COSTA A SOTAVENTO
Como já tratamos em comentários anteriores em nosso blog, o livro “Fluxo e Refluxo, do etnólogo e fotógrafo Pierre Verger, uma pesquisa de 20 anos de trabalho, é um intricado de conflitos e guerras na região do Golfo de Benin entre portugueses do Brasil, ingleses, franceses, holandeses e os reis de Daomé durante o tráfico negreiro.
A disputa era acirrada por cativos, e o tabaco era a moeda mais cobiçada pelos países. Os holandeses detinham praticamente o monopólio com o domínio do Castelo de São Jorge (Elmina) e exigiam dos portugueses da Bahia e do Brasil que negociassem com eles com o pagamento de uma taxa de 10% sobre tudo que era comercializado e trocado.
As outras nações não gostavam nada disso e tentavam atrair os portugueses para outros portos e fortificações (Porto Novo, Badagri e Onim –Lagos), como ocorreu no final do século XVIII onde os ingleses procuraram proteger os capitães e navios vindos da Bahia com o cobiçado tabaco, que não era de tão boa qualidade, mas os negros o apreciavam.
Pierre Verger cita que uma das consequências da lei de 30 de março de 1756, destinada a tornar o comércio da Costa da Mina livres para todos, foi controlá-lo no Porto de Uidá ou Ajudá, onde o diretor da fortaleza devia fazer respeitar as ordens do rei de Portugal, ou seja, um navio de cada vez, mas sempre essa norma era desobedecida.
Enquanto isso, os capitães procuravam outros portos. Os holandeses concediam quatro na Costa a Sotavento, como Popo, Ajudá, Jaquim e Apá. Em seguida, novos centros foram criados em Porto Novo, Badagri e Onim (Lagos).
João Oliveira, um escravo alforriado se tornou traficante astuto que retornou à África para comerciar com negros e enviá-los para a Bahia. Na velhice ficou rico, mas teve a infelicidade de estar a bordo de um navio que transportava mercadorias de contrabando. Foi injustamente implicado no caso.
“A política dos reis do Daomé, desde a conquista de Ajudá, em 1727, procurava impor que o comércio com os estrangeiros na costa se fizesse exclusivamente com aquele porto. Eles destruíram o porto de Jaquim, em 1743. No entanto, o comércio se alargava em Porto Novo, Badagri e Lagos.
RELIGIOSO
Mesmo diante de toda desorganização que era o tráfico negreiro, por volta de 1780/82, um ponto que chamou a atenção foi o religioso sob a direção do forte português por Francisco da Fonseca e Aragão.
As instruções não falavam mais em proibir a entrada de mais de um navio de cada vez no porto. Refletiam essencialmente preocupações com a respeitabilidade e a prática religiosa. Os oficiais e capitães eram obrigados a assistir as missas e a rezarem o Terço de Nossa Senhora do Rosário.
Na época, o diretor não consentia navios sem capelães. A ordem era que o diretor procurasse saber se as embarcações levavam capelães. Repelia o capitão que não notificava a morte do capelão e não substituía logo por outro. Era ordem da sua majestade, na época a rainha Maria I.
Depois de um certo tempo, o diretor da fortaleza de São João de Audá, Francisco Antônio da Fonseca Aragão não atormentava mais os “americanos” (portugueses brasileiros) para obrigá-los a irem à missa, deixando cair em ruínas a fortificação, nem tampouco se preocupava com os marinheiros portugueses capturados pelos doameanos.
O tenente do forte, Francisco Xavier do Amaral, que chegou em Uidá, em 1791, influenciava Agongló, rei do Daomé, para que não mandasse uma embaixada para a Bahia e sim para Portugal, para propor que o comércio de escravos dos negociantes da Bahia fosse exclusivamente feito com Uidá.
Em 1795, porém, o rei de Daomé enviou para a Bahia dois mensageiros. O tenente, então, organizou essa embaixada a fim de redigir, em nome do rei, suas próprias queixas contra o diretor da fortaleza. Os dois embaixadores foram batizados em Lisboa.
Um morreu lá e o outro tornou-se cavaleiro da Ordem de Cristo. Este teve uma permanência agitada na Bahia, quando da sua volta. “A sofreguidão em cortejar o “belo sexo” escandalizou o governador da Bahia”. A rainha dona Maria tentou converter o rei do Daomé ao catolicismo.











