PALHAÇOS E COISAS DA VIDA
Levantei hoje, ou ontem, sem saber o que escrever – meu exercício diário, além da leitura, é claro – por que são tantos assuntos que nos deixa confuso. A nossa mente é fértil e imaginativa, mas nem tudo na vida pode ser dito e escrito. Até a democracia e a liberdade têm suas regras próprias, inclusive o anarquismo de Prudhon. Fazer o quê, meu camarada, se não somos uma ilha?
Essa politicagem já nos deixa com o estômago embrulhado. Foram quase três meses de papo furado nas emissoras de televisão e rádio, sem falar nas redes sociais entupidas de falsas notícias. Depois entrou essa Copa Maluca do Qatar escravista e machista, misturada com as propagandas de Natal. Confesso que não consigo respirar! Se você tem algo a contestar, bote a boca no trombone!
Ouvi uma música Palhaço, de Nelson Gonçalves, onde a letra diz que a amizade é uma fumaça, que palhaço é todo homem que não sabe envelhecer e se entrega ao desespero, nem compreende que o passado já morreu. Entro com meu contraditório de que ele (passado) nunca morre. Palhaço é todo homem e todos nós que acreditam na mentira e perdoa a traição.
Lembrei também do nosso saudoso filósofo e cronista do cotidiano, Nelson Rodrigues, que nos fala do complexo de vira lata que ainda permanece dentro de todos brasileiros. Ele escreveu sobre a vida como ela é, nua e crua, com seus absurdos. Rodrigues retratou a hipocrisia e o moralismo dessa sociedade onde muitos aparentam ser uma coisa que não é. Foi excomungado por muitos críticos como demônio escandaloso e imoral.
Cada um acorda e levanta de um jeito, na maioria das vezes com a cara amassada para cumprir a mesma rotina da sobrevivência. Uns dormem bem e outros têm pesadelos terríveis de suar o pijama ou a cueca, a camisola ou a calcinha. Tem gente que dorme nu. Uns em silêncio e outros roncam se virando de um lado para o outro. E aqueles que sonham falando? Um perigo dizer coisas comprometedoras!
E quanto ao dia? O pobre já sai de casa mal alimentado pelo salário que recebe, com medo do patrão lhe demitir. Come o pão que o diabo amassou. Nessa roda da vida, o mundo continua a girar. Tenho dúvidas se os terraplanistas pensam assim. Temos mais insatisfeito que satisfeitos com o que faz, mas não existem muitas saídas e escolhas, companheiro. Não se irrite com os falsos boatos que têm suas origens na humanidade. Aliás, é até uma redundância porque o boato já é falso.
O patrão empresário ganancioso acorda com a cabeça cheia de contas e dívidas, matutando como ganhar mais e mais dinheiro. Pior ainda se for o tipo trapaceiro. Uns levam a vida com humor e bom astral, sempre com pensamento positivo. Outros acordam de mau humor que nem falam com os filhos e a mulher, que também tem seus momentos de aperreios porque ela hoje é peça chave dessa engrenagem mercadológica capitalista e selvagem da competição.
Se analisarmos lá no fundo, todos têm um pouco de palhaços e escravos de seus problemas. É a vida como ela é, meu amigo! Encare isso e toque para frente que atrás vem gente. Nos encontros do dia a dia, muitos fazem aquela clássica pergunta: Como está? Sempre se responde “tudo bem”, quando, na verdade, nem está. Ás vezes falo que vou levando a vida e a vida me levando, como diz Zé Pagodinho em seu samba canção.
Não estou me referindo ao palhaço no sentido do profissional, alegre e triste, mas daquele lado profundo existencialista do Jean Paul Sartre que escreveu “Náuseas” e nos faz entrar na fossa (depressão) quando procuramos o sentido da vida, logo ela, a passageira que se vai com a morte. Nos ensinaram sempre a dizer que a vida é bela e vale a pena ser vivida. Será que isso se encaixa em todos viventes?
Lembra daquela frase de que o ignorante é mais feliz que o instruído, o estudioso, o iluminado e o sábio? Será uma verdade? Ela existe como padrão ou cada um tem a sua? Todos os filósofos gregos da antiguidade tinham seus tormentos, fantasmas, demônios e momentos de felicidade. Os brutos também amam e têm seus sentimentos e angústias internas. Somos todos palhaços ou coisas da vida?
Meu amigo camarada, só sei que a vida é assim como ela é, com suas diferenças de altas e baixas, de alegria e agonia, de surpresas boas e decepções de gente que menos se esperava. Quem já não foi palhaço, enganado e iludido que levante a primeira pedra, principalmente em se tratando de brasileiros que têm fama mundial de malandragem e a magia de para tudo dar aquele jeitinho para desatar o nó das coisas da vida.











