O BRASIL PRECISA DE UM NOVO GRITO DE LIBERDADE DA ARTE DE 1922
Nesses tempos tão bicudos de destruição da nossa cultura através da censura e do corte de verbas; de imitação e repetição dos costumes e hábitos estrangeiros, principalmente originários dos Estados Unidos; de tanto lixo musical; de desprezo pela literatura e outras linguagens artísticas, o Brasil precisa de um novo movimento, de um novo grito de liberdade e de uma nova Semana de Arte Moderno de 1922, que aconteceu há 100 anos no Teatro Municipal de São Paulo, entre 13 e 18 de fevereiro.
Comemorar é memorar, mas como vamos comemorar um episódio tão significante para a nossa cultura, se a nossa arte está se deteriorando nos museus que, inclusive, estão sendo incendiados por falta de uma política pública de preservação, se o nosso patrimônio material e imaterial não está recebendo o devido apoio do poder dos governantes, se o incentivo limitado à produção artística está sendo condicionado à uma adesão às diretrizes ideológicas fascistas de extrema-direita?
Precisamos do grito de liberdade de um Oswald de Andrade, de um Mário de Andrade, de um Menotti Del Picchia, de um Heitor Villa-Lobos, de um Brecheret, de uma Anita Malfatti, de uma Tarsila do Amaral, de um Di Cavalcanti, de uma “Pagu”, de um Manuel Bandeira, Guilherme de Almeida, Ronald de Carvalho e até de um Graça Aranha contra todo esse retrocesso que está deixando o Brasil na contramão da cultura e das artes.
Precisamos de novos manifestos, como do “Pau-Brasil” (1924) e do “Antropofágico” (1927) de Oswald com sua inquietude e agitação; de um “Brasil Desvairado”, como a “Paulicéia Desvairada”, de Mário que, apesar de terem saídos do ventre da burguesia, tiveram a coragem de colocar o dedo na cara, ou na ferida da própria burguesia.
A Semana de Arte Moderna de 22 fez uma ruptura com o passado e com a cultura europeia, para abraçar e comer o nosso nacional, não com esse ufanismo delirante fascista atrasado. Naquela época, Oswald, Anita e Tarsila beberam das fontes do vanguardismo futurista europeu, mas fizeram suas artes voltadas para valorizar o que era nosso, conectados com a nossa realidade brasileira.
Hoje precisamos romper com essa imitação da cultura norte-americana que absorve nossos jovens para adorarem, idolatrarem e apreciarem seus grandes heróis (super-homem, homem aranha, hulk, batman, mulher maravilha), esquecendo-se do nosso potencial cultural e do nosso rico folclore. Ninguém fala mais em Saci, de Curupira e das lendas amazônicas, gaúchas e nordestinas (Câmera Cascudo).
Nosso português está sendo vilipendiado, depenado e substituído por termos e letreiros inglesados. Nas redes sociais aparecem um horror de códigos. Nas portas das lojas, só nomes em inglês. Não se fala mais em seminários, mesas-redondas, encontros, conferências e congressos. Os cabeçários dos folhetos, nomes em camisetas e até cartazes (banner) são escritos em inglês.
Tivemos grandes movimentos entre as décadas 50, 60 e 70, inclusive com a Tropicália, a Bossa Nova, Clube da Esquina (Chico, Caetano, Gil, Milton Nascimento, Ferreira Gullar, Edu Lobo, Geraldo Vandré, a turma do Pasquim) e tantos outros, que se miraram na Semana de Arte Moderna, que deu cara ao nosso modernismo, mas se foram com a ditadura. Não mais aquela mesma efervescência cultural, com conteúdo.
Por tudo isso e mais, é que precisamos de um novo movimento que lembre o centenário da Semana de Arte Moderna de 22, ainda mais consistente e revolucionário. De lá para cá, nesses 100 anos, nossa sociedade passou a se lambuzar no óleo sujo do consumismo e entrou em decadência em termos de pensamento, conhecimento e saber. Nos tornamos uma sociedade alienada.
A burguesia de hoje não difere muito da de 1922. Os coronéis dos tempos atuais continuam sendo os mesmo dos anos de 20 e 30. A diferença é que os de hoje usam métodos mais sofisticados, especialmente digitais virtuais mentirosas e enganosas, para fazerem suas malandragens políticas de perpetuação da elite burguesa oligárquica. Está aí a compra de votos por outros meios. Mais do que homenagear, o Brasil precisa de uma nova Semana de Arte Moderna.











