fevereiro 2022
D S T Q Q S S
 12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
2728  

:: 25/fev/2022 . 22:50

CURIOSIDADES NO TRÁFICO DE ESCRAVOS

O livro de Laurentino Gomes, “ESCRAVIDÃO” mostra muitas curiosidades do tráfico negreiro, muitas das quais de horror, mas que precisam ser conhecidas por historiadores, estudantes e todos brasileiros sobre o que aconteceu nos quase 350 anos de escravidão no Brasil.

Vamos aqui destacar algumas delas:

No auge do tráfico, por volta de 1780, os cativos eram capturados e comprados ao longo do litoral africano, numa extensão de quase seis mil quilômetros de cumprimento por mil de largura, da atual fronteira da Mauritânia com o Senegal até o sul de Angola. Nas décadas seguintes, essa faixa costeira se estenderia por outros quatro mil quilômetros, com a inclusão de Moçambique no roteiro do Brasil.

O banco de dados Slave Voyages registra que havia um total de 188 portos de partida de cativos no continente africano. Vinte deles respondiam sozinhos por 93% de todo tráfico no Oceano Atlântico. Até início do século XIX, o tráfico era o maior e o mais internacional de todos os negócios do mundo.

A rede de interesses envolvia agentes comerciais e controles contábeis das transações, uma estrutura de fornecimento de água e comida, e até instituições religiosas para batizar e catequizar os escravos. Abrangia ainda seguradoras, estaleiros e armadores, bancos de crédito, empresas de transportes que forneciam navios, apoio logístico, além de um complicado esquema burocrático.

Na economia escravagista, havia até um negócio paralelo tão transgressor que nunca recebeu destaque na história, que era a reprodução sistemática de cativos, com objetivo de vender as crianças, como se comercializa animais. Ocorreram experiências conduzidas em Portugal, Espanha e nos Estados Unidos. Uma delas aconteceu no Palácio Ducal de Vila Viçosa, sede dos duques de Bragança a partir do fim da União Ibérica, em 1640, com a ascensão de D. João IV ao poder. Havia um centro de reprodução de escravos.

Sobre as comparações de preços, Laurentino cita que o tráfico era uma atividade altamente organizada, sistemática, complexa e tão arriscada quanto lucrativa para seus investidores. Alimentava uma vasta rede de compradores, vendedores e fornecedores de serviços, produtos e suprimentos ao redor do mundo.

Entre as mercadorias brasileiras mais valorizadas no tráfico estavam a cachaça, tabaco, couro, cavalos, farinha de mandioca, milho, açúcar, carnes e peixes secos e salgados, além de ouro e diamante contrabandeados. Um historiador calculou que a cachaça foi responsável pela aquisição de 25% de todos escravos traficados da África para o Brasil entre 1710 a 1830. Somados, a cachaça e o tabaco, serviram para adquirir 48%, quase a metade de dois milhões e 27 mil cativos que chegaram vivos ao Brasil entre 1701 e 1810, segundo Luiz Filipe de Alencastro.

Durante décadas, a coroa portuguesa proibiu o uso da cachaça na compra de escravos, para não prejudicar a concorrência dos vinhos produzidos em Portugal. Nada adiantou porque passaram a fazer negócios clandestinos, principalmente em Angola.

Uma devassa feita pelo governo português descobriu que o governador de Angola, João da Silva e Sousa, era dono de quatro navios que levavam escravos de Angola para o Brasil e, na volta, iam carregados com pipas de cachaça.

A organização do negócio negreiro chegou a tal ponto que os traficantes da Bahia tinham sua própria irmandade e seu santo de devoção, que era São José, cuja imagem podia ser vista na pequena igreja de Santo Antônio da Barra, em Salvador. Vamos ter mais curiosidades nas próximas postagens da Coluna de Livros.

,

 





WebtivaHOSTING // webtiva.com . Webdesign da Bahia