:: 10/fev/2022 . 23:29
DOIS ANOS SEM SARAU
Em “quando tudo isso vai se acabar” foi título de um recente comentário feito por mim sobre os estragos que esse estranho vírus chamado Covid-19 provocaram em nossas vidas, não somente em termos de milhões de mortes que abalaram nosso planeta, mas também das interrupções dos nossos encontros e atividades. Estava aqui lembrando que, justamente no dia 7 de fevereiro de 2020, realizamos nosso último Sarau Colaborativo, em nosso Espaço Cultural A Estrada, cujo tema principal foi “Carnaval”. Portanto, são dois anos sem o nosso saudoso Sarau que, além da diversão e da confraternização, nos oferecia a troca de conhecimento e saber através das discussões, da música, da poesia, da contação de causos e do intercâmbio de ideias. De lá para cá, tentamos duas vezes nos intervalos dos ciclos de baixas da pandemia, mas, infelizmente, não deram certo. Confesso que o nosso acervo, ou o nosso espaço cultural, sente um grande vazio espiritual, e os próprios escritores e toda arte que nele habitam dizem o mesmo. Tudo é uma solidão sem aquelas energias que transmitiam mais vida naquelas noites etílicas do respirar cultural. No lugar de quando esse vírus vai se acabar, indagaria se o nosso Sarau se acabou? Ainda existe espaço para Ele? Irá retornar com a mesma força de antes? Quando? São várias as interrogações, e uma delas é se as pessoas, com as quais convivemos por dez anos, ainda estão interessadas em reativar nossos encontros, ou simplesmente foi “amor eterno enquanto durou”, como sentenciou o poeta cancioneiro Vinícius de Morais? A reflexão e as respostas deverão ser respondidas pelos próprios participantes que construíram esse lindo elo. Será que ele foi partido?
DE VEZ PRIMEIRA
Mário Quintana
Da vez primeira em que me assassinaram
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha…
Depois, de cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha…
E hoje, dos meus cadáveres, eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada…
Arde um toco de vela, amarelada…
Como o único bem que me ficou!
Vinde, corvos, chacais, ladrões da estrada!
Ah! Desta mão, avaramente adunca,
Ninguém há de arrancar-me a luz sagrada!
Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz, trêmula e triste como um ai,
A luz do morto não se apaga nunca!
Este poema está no livro Mário Quintana “Prosa e Verso”. São textos variados
QUANDO VAI SE ACABAR?
Há dois anos escrevi um texto poético perguntando a esse bicho de olhos rasgados e coroa de espinhos “Quem é Este Coronavid?, que se transformou num vídeo, e dele, muitos outros geraram um curta-metragem. inscrito e classificado entre os ganhadores num edital da Prefeitura de Vitória da Conquista através da Lei Aldir Blanc.
Esse vírus se transformou em muitas outras variantes do alfabeto grego, e hoje estamos convivendo com a terceira onda da ômicrom. Virou o planeta de cabeça para baixo e já ceifou a vida de mais de cinco milhões de habitantes, dos quais mais de 635 mil só no Brasil. Dele não podemos dimensionar a quantidade de lágrimas que já provocou em milhões que ficaram viúvas, viúvos e órfãos de pais e mães.
A ciência deu o nome de Covid-19, que não só matou e deixou sequelas com sua agressividade terrível, mas também criou um emaranhado de ideias, umas mais lúcidas e outras cheias de intrigas negacionistas, fake news, sofismos e até fez separar famílias e amigos quando se inventou vacinas para neutralizar o maldito. Tirou crianças e jovens das escolas, atrasando seus tempos de conhecimento e saber. Oh quanto estrago!
Varreu mentes e invadiu todos países da terra e, com sua impiedade cruel, eliminou mais pobres que ricos. Deixou um rastro de desigualdades sociais, com muita pobreza e miséria, principalmente nos países mais vulneráveis. Inoculou o estresse, o desespero, o fanatismo religioso e conflitos existenciais. As pessoas passaram a usar máscaras nas ruas, ônibus, trens e metrôs como se fossem robôs em filmes de ficção.
Há dois anos de terror, quando você foi chamado até de “gripezinha” por uma tal capitão-presidente, hoje pergunto quando tudo isso vai se acabar? Até quando vamos continuar nessa procissão de sofrimentos, lamentos, desagregação e confusão? Até quando vai nos jogar uns contra os outros? Será castigo contra nossos pecados por maltratar tanto o meio ambiente?
Por falar em natureza, sua voraz sede de morte, em forma de pandemia, produziu mais um agravante de lixo proveniente dos resíduos de objetos usados para combater seu avanço, como agulhas, seringas, caixas coletoras, aparelhos, plásticos, embalagens de medicamentos e outros itens. Qual destino de tudo isso?
A Organização Mundial da Saúde ressalta a ameaça ao meio ambiente, devido ao perigo da proximidade das pessoas aos depósitos de lixões. Calcula-se que já foram gerados mais de 2,6 milhões de toneladas de material plástico e 731 mil litros de compostos químicos nesses dois anos, com tendência de aumento.
De acordo com dados das Nações Unidas, já se foram 140 milhões de kits de testes de detecção, além de mais de oito bilhões de doses de vacinas. Lá se foram 1,5 milhão de equipamentos de proteção, usados pelos profissionais da saúde, algo superior a 87 mil toneladas. Tudo isso está sendo despejado nas periferias das cidades e proximidades de mananciais hídricos, podendo causar mais doenças.
Mais uma vez, dentro da minha mais profunda angústia, indago aos deuses quando tudo isso vai se acabar, se nem a ciência e os mais sábios especialistas infectologistas sabem responder? A literatura continua a narrar sua saga; tenta interpretar seu caminho e origens; sua evolução repentina; e os poetas cancioneiros a entoar na viola sobre seu enigmático poder de desafiar nossa vã filosofia.
Quando tudo isso vai se acabar? Até quando vai nos atacar e nos deixar enjoados, cabeça e intestino congestionados, cérebro confuso, indisposto, moleza no corpo dolorido, pulmões ofegantes, sem o ar que respiramos, sem paladar e olfato, sem falar na intubação de milhões até a morte? Ele nunca se vai totalmente porque sempre nos deixa sequela para ser tratada.
Quando tudo isso vai se acabar? A pergunta pode até ser título de uma canção de lamento em forma de blues, um rock, um galope em busca do final da jornada, um samba, um fulk de Boby Dylan, um rep, um sertanejo triste ou até mesmo um arrocha sofrência. Não importa o ritmo ou a melodia. O que mais importa é que ainda temos a arte que é vida e nos faz mais vivos, com mais força para vencer essa peste, não com a negação dela.
AINDA NOS CONSIDERAMOS CIVILIZADOS
Uma está sempre superando a outra, numa cadeia de banalização que nos deixa envergonhados de sermos brasileiros. Estou falando das barbaridades praticadas pelos seres humanos que se acham civilizados porque têm um celular na mão para manipular cegamente as mentiras nas redes sociais, de uma internet que tornou o planeta mais imbecil.
Não existem palavras mais duras e ásperas para descrever o quadro de uns brutamontes com um porrete na mão socando um congolês até à morte numa praia do Rio de Janeiro. As imagens correram mundo para nos cravar a pecha de selvagens que se acentuou nos últimos três anos com um capitão-presidente que destila ódio, xenofobia, homofobia, racismo e diz que quanto mais armas nas mãos, mais segurança.
Não tenho nenhuma vergonha de afirmar que, diante de tanta barbárie, tenho hoje vergonha de ser brasileiro. Esse, na verdade, não é o meu pais do homem cordial descrito pelo pensador Buarque de Holanda, em “Raízes”. Cordial vem do latim cord, coração, que está sujeito a emoções sentimentais boas e ruins, mas atingimos o ponto crítico da barbárie.
Essa barbárie brasileira não está somente no bastão daqueles indivíduos que despejaram toda sua raiva numa pessoa indefesa caída no chão. É como se eles estivessem descarregando todos problemas sociais e injustiças de um país num único ser que também é vítima dessas mazelas. Aquela cena macabra representa uma carga de rancor e frustração armazenados no íntimo de cada um.
Os algozes são também dignos de pena e vítimas de um sistema bruto que há séculos impera neste país. Não estou aqui fazendo o papel de advogado de defesa de uma barbaridade, mas apenas retratando a nossa realidade. A própria indiferença já é uma barbaridade.
A indiferença dessa sociedade selvagem que diz que “bandido bom é bandido morto”, que ignora a morte de Marielle Franco, do homem negro que foi alvejado pelo sargento por aparentar ser um bandido, de tantos travestis e homossexuais espancados e mortos, é também uma barbaridade.
A indiferença quanto as falas preconceituosas e genocidas negacionistas que negligenciam a pandemia da Covid e ainda atrasa o processo de vacinação, é também uma barbaridade e prova de que não somos nada civilizados.
São bárbaros os que acham que deixar de vacinar é um ato de liberdade individual, uma simples questão de opção. São bárbaros também aqueles que negam a ciência e disseminam fake news. A falta de indignação contra a barbárie é em si uma barbaridade. Estamos ainda muito longe de alcançarmos a tão propalada civilidade. Não é a tecnologia que nos dá isso.
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