Causou-me espanto a cena de uma onça acorrentada por soldados do exército ao lado da tocha olímpica que continua a desfilar pelo Brasil a fora torrando nosso dinheiro. O quadro remete a duas cenas, uma moderna e outra primitiva em que o homem bruto faz questão de mostrar sua superioridade sobre os animais.

Lembra também a Roma antiga dos circos onde os césares imperadores mandavam soltar tigres na arena do Coliseu para lutarem contra os gladiadores como meio de distração do povo. As lentes fotográficas e as câmaras das emissoras agradecem as belas imagens produzidas através do encantado cenário bucólico da floresta amazônica.

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JIBOEIRICES E A ONÇA 024

Tem o adágio popular do “amigo da onça” quando uma pessoa se refere a outrem dito “amigo” que lhe colocou em embaraços e o deixou em maus lençóis frente a uma situação difícil. É como um passe ruim que um jogador de futebol dá para seu companheiro de time.

Literalmente neste caso o exército foi o “amigo” que ferrou de morte a própria onça ao expor a fera a constrangimentos numa clara traição da sua confiança. Para o reino animal, a corporação militar se portou como “amigo do homem” que terminou por tirar a vida da onça depois do seu uso indevido.

Gostaria de saber o quê a onça estava fazendo ali ao lado daquela tocha cercada de gente falando baboseiras com os clichês de sempre sobre cidadania e pátria? Tenho certeza que o animal estava com a mesma indagação interior. “O quê estou mesmo fazendo aqui, gente? Não tenho nada a ver com a festa de vocês. Estou cansada e ainda acorrentada, sendo obrigada a aturar toda esta babaquice”!

Embora o exército negue, os biólogos, veterinários, zoólogos, ambientalistas e estudiosos do reino animal sabem que naquele estado a onça já estava estressada, tanto que se irritou com o tratamento humilhante e depois da cerimônia tentou fugir. Não só isso, investiu contra o soldado ou soldados que a levaram para um evento que não tinha nada a ver com ela.

No caso específico, tenho outras perguntas a fazer, como, para quê o exército tem onça enjaulada em seu poder? Será que é para realizar treinamentos de guerra?  Imagino o comandante soltando a fera atrás dos soldados e eles que se virem nos 30! Será que é preparo de guerra (não temos guerras) para lutar contra o inimigo? Vão colocar a onça contra os civis nas manifestações de ruas? São mesmos amigos da onça, ou ao contrário?

Ao cidadão civil é proibido criar animais em recintos fechados, como jaulas, gaiolas e outros tipos de prisão, mas o exército pode manter onças, tigres, leões e outros bichos silvestres sob seu poder. Aquela cena da onça ao lado da tocha é para demonstrar a superioridade do homem sobre os animais? A força do soldado sobre a natureza? Ou coisa mesmo de fé no patriotismo e no nacionalismo em eventos oficiais? O oficial comandante que libera um animal daquele para um simples desfile de uma tocha que está atochando o povo deveria ser exonerado.

Fato como este e outros de cunho negativo na política brasileira, como os atos de corrupções e de violências bárbaras, têm caído na mídia externa como prato cheio para chacotas e piadas. Nossa imagem lá fora é de que aqui é o país das trapalhadas, paradoxos e contradições. O exibicionismo circense da onça resultando na sua morte vai ficar por isso mesmo, sem punição. Outros mais virão por aí para alegria das multidões.

Quanto às contradições (outro assunto) a que nos acostumamos, a verdade tem sido a maior vítima dos partidos políticos que só miram o poder a qualquer custo para se beneficiarem dele. O PMDB de Temer, que fazia parte do mesmo ajuntamento do governo do PT e de seus cooptados, agora é visto como retrógrado e de elite. Não é irônico! Sabia há muito tempo que o PMDB tinha sangue fisiologista e oportunista. Às favas com o senso crítico! Nesta hora prevalecem as manipulações e a rede de mentiras e sofismas.

A palavra da moda no momento é o empoderamento das mulheres que clamam por valorização e respeito, no que acho justo e de direito, mas sem essa de reserva de mercado na política, pois assim seria desacreditar em suas capacidades de atuação. Se tiver mérito e preparo, não importa se é homem, mulher, gay, negro ou branco que esteja exercendo um cargo público importante. Vejo nisso tudo, falsos argumentos com o objetivo de produzir uma ilusão sobre a verdade.

O que me incomoda é que as mulheres que reclamam que não podem ser tratadas como meros objetos, e têm toda razão neste ponto, se calam diante daquelas que tudo fazem por dinheiro e se exibem e rebolam quase nuas em redes sociais e nos palcos dos bumbuns por 15 minutos de fama.

E as casadas e amantes submissas do poder que esbanjam luxo proveniente das propinas e ainda dizem que nunca quiseram saber sobre a origem de tanta grana? “Ele disse que eu podia comprar artigos de luxo”. Muitas, inclusive jornalistas do nosso meio, são bancadas pelo nosso dinheiro. Existem muitas coisas erradas que as pessoas em geral evitam falar porque temem o braço forte da ditadura ideológica e do chamado politicamente correto.

Defendo incondicionalmente a maior participação das mulheres, dos movimentos negros, das minorias das quais de alguma forma faço parte ou de qualquer movimento social que lutam pela democratização de seus direitos, mas que todos tenham coerência e senso crítico com a verdade, a qual deve ser dita, por mais que a incomode. O pensamento é livre, desde quando não seja de agressão ao outro, e nisso procuro sempre preservar.