Na louca correria do dia a dia dos problemas, até acho que ninguém nunca parou num jardim, em um banco de uma praça, para ouvir o ronco ensurdecedor nos centros das grandes cidades ou metrópoles. Com o tempo, as pessoas vão ficando surdas e, de tão entorpecidas, não conseguem ouvir nada ao seu redor.
Ao comentar sobre este assunto, um músico amigo meu me disse certa vez que harmonizando bem as batidas com os gritos e sussurros de gente conversando nos passeios, o ronco dos motores e as buzinas dos veículos, as britadeiras e furadeiras nos asfaltos, as sirenes das ambulâncias e dos carros apressados da polícia, os sons das propagandas, os anúncios dos ambulantes e os megafones nas portas das lojas dariam para compor uma sinfonia.
Não quis muito questionar porque não sou do ramo, não é minha especialidade, mas respondi que ficaria uma sinfonia desafinada, no que ele retrucou afirmando que, com uma letra adaptada ao tema numa boa gravadora, daria uma bela melodia da vida. Acrescentou ainda que a IA faz tudo isso hoje.
Fico aqui imaginando que um músico, ou maestro, poderia juntar todos as batidas desses sons das grandes metrópoles e fazer a partitura de um concerto. Poderia render um rock, um folk, um axé music tipo “bate estaca”, um country ou até mesmo um samba brasileiro autêntico. Não sei se daria um forró, mas tudo dependeria da composição.
Pelo menos me livraria daquele trauma quando sou obrigado a sair da minha casa para ir ao centro de Vitória da Conquista resolver “pepinos”, principalmente em repartição pública. É tanta preocupação que nem consigo dormir direito na véspera.
Minha vida foi uma loucura infernal em Salvador, pra lá e pra cá, como um doido para ganhar dinheiro, mas, com o passar do tempo, a idade bateu forte que não suporto mais as grandes cidades. Meu desejo é me recolher em meu insignificante canto, isolado de tudo, num buraco qualquer.
Prefiro o mugido da vaca, o relinchar dos equinos, os uivos dos coiotes, os latidos dos cachorros e raposas, o cantar do galo na madrugada e dos pássaros no campo do que o barulho das grandes cidades. O som dos animais e as cantorias dos adjutórios lembram minhas raízes telúricas.
Como agora quase tudo é na base da senha, fico irritado com a zoeira das fofocas e besteiróis dos compadres e comadres esperando pacientemente seus momentos de serem chamados. Pior ainda é ter que ficar de olho no painel, com a voz de uma mulher, ou sei lá quem, avisando senha PNH 124, mesa 13.
Para ter menor impacto nos meus nervos, que não são mais de aços como antes, levo um livro para ler, só que não consigo mais me concentrar. Ou leio ou fico de olho na tela! Deveria ter uma lei aprovada pelo Congresso Nacional, o mais caro do mundo, proibindo a frequência de idosos nesses lugares.
No entanto, como o Estado é masoquista, tirano e maquiavélico, quanto mais matar o velho lentamente, melhor, porque é menos um custo previdenciário. É um alívio quando cai mais um atestado de óbito no INSS, mas sempre tem um herdeiro.
O plano dessa gente do poder vai nessa direção, tendo em vista que as pesquisas dão conta que em pouco tempo vamos ter uma população maior de idosos no Brasil. Os caras já estão fazendo as contas e apertando o cerco.
Parece que fugi um pouco da questão do ronco das grandes cidades. É meu marrento hábito de ir alinhavando um assunto com um outro, mas acho até que uma coisa tem a ver com a outra.
Bem que os músicos do Sarau A Estrada poderiam se reunir para fazer o som, o ronco ou a louca sinfonia dos centros das grandes cidades. Será que daria uma boa melodia? Poderia até juntar com os sons dos bichos da zona rural.
Para fazer um teste, é só ficar ali por uns tempos na Praça Barão do Rio Branco, na Nove de Novembro e imediações. Eu até me prontificaria contribuir com alguns versinhos, e aqui em nosso meio o que não faltam são poetas e poetisas inspirados.
O que acham disso Itamar, Viviane, Luis Altério, Dal Farias, Carlos Maia, Manno Di Souza, Baducha, Dorinho, Jânio Arapiranga, Fabrício, Nery e, enfim, todos estradeiros da vida? Vão dizer que estou é ficando caduco, lelé da cuca!