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:: 30/abr/2026 . 22:34

O VOO DA FEIJOADA

(Chico Ribeiro Neto)

Sempre gostei das seções de achados e perdidos, onde você vê de tudo. Além da vergonha, as pessoas perdem as coisas mais incríveis. Guarda-chuva e sombrinha, nem fale. Uma vez li que no setor de achados e perdidos de uma grande loja uma dentadura se encontrava à espera do dono.

Tem gente que perde documento, cachorro, gato, perde até o menino.

Na década de 70, Osmar Macedo, o criador do trio elétrico ao lado de Dodô, aparecia com uma sacola na Redação do jornal A Tarde, depois do Carnaval. Levava documentos (identidade, carteira funcional, carteira de habilitação, etc.) que os ladrões arremessavam para dentro do trio elétrico, que era bem mais baixo do que atualmente. Alguns ainda gritavam ao atirar o documento: “Segura aí, Osmar!” Ladrão não gosta de ficar com documento de quem roubou, pois o compromete. Procura logo se desvencilhar dele.

O jornal A Tarde publicava a relação dos documentos trazidos por Osmar e os interessados iam pegá-los na Redação.

Algo me fez lembrar a crônica “Calcinhas Secretas”, de Ignácio de Loyola Brandão. Um cara compra calcinhas baratas no camelô e, secretamente. as espalha pelos cinemas durante a sessão. Ao final do filme, assiste às reações dos espectadores e funcionários.

“Esgotados os cinemas do centro, ele foi para o shopping. Os resultados foram melhores. No primeiro dia, deu a maior repercussão. Um pai ia sentar-se com as filhas, percebeu a calcinha no chão. Chamou o gerente, chamou todo mundo, fez escândalo, chamou o administrador do shopping, gritou que ia processar, retirou-se empurrando as jovens que riam, excitadas”, diz a crônica.

Em avião não se serve feijoada. A comida foi junto com a bagagem. Uma feijoada despachada de Salvador para Curitiba.

Há alguns anos, a jornalista Sônia Araújo recebeu em Salvador um casal amigo de Curitiba.  “Caprichei numa feijoada, gostaram muito, aí prometi mandar uma depois”. Eles não acreditaram muito.

Sônia embalou a feijoada para 5 pessoas muito bem embalada e despachou o pacote de avião para Curitiba. Dois dias depois, nada de chegar. Somente no quinto dia foram encontrar o delicioso pacote: estava num depósito do aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, onde o avião fez escala.

Feijoada perdida, Sônia pediu indenização à empresa de aviação. Recebeu a grana e comentou: “O dinheiro dava pra fazer umas dez feijoadas da que mandei”.

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

FIAÇÕES NAS REDES

Como se não bastassem os matagais nos terrenos abandonados pelos proprietários, a buraqueira nas ruas, poluição sonora dos carros de som, com músicas do tipo bate estaca, locais de lixo que servem como fonte para a procriação dos mosquitos da dengue, além de outros transtornos que temos que conviver na cidade grande, temos o emaranhado de fios na rede elétrica da Coelba, um risco de vida. É o preço que se paga pelas negligências dos órgãos e poderes públicos. Aqui mesmo no final da Avenida Sérgio Vieira de Melo, há dias deixaram um amontados de fios na rede, num poste esquisito onde tem uma parafernália e uma luminária no meio. Por achar tudo estranho, ligamos para a Coelba e, por incrível que pareça, a atendente recomendou que a gente procurasse a polícia. O que tem a ver a polícia com isso? Só pode ser gozação! Nessa rede, cada um instala aparelhos clandestinos, fiações e outros trambolhos, e a Coelba não toma providências. Outro problema é a queda constante de energia nesta área próxima do tormento de uma sucata que é um verdadeiro atentado à saúde pública, com barulho de máquinas, poluição, local de ferros velhos que servem de coito de ratos, mosquitos e animais peçonhentos. O cidadão paga imposto alto e não tem o direito de reclamar, além de ser tratado com deboche, como fez a atendente da Coelba quanto ao monte de fiação no poste. Quando ocorre o pior, ninguém é responsável. Cada um empurra o problema para o outro.

CORPO FECHADO

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Meu fuzil faísca,

Como relâmpago

Em noite de luar,

Nos engaços do açoite,  

Não fiz pacto com o demo,

Na encruzilhada da meia-noite,

Nem com o boi preto marruá,

Carrego em meu emborná,

Meu “Lunário Perpétuo”,

Minhas missangas e rezas,

E meu amuleto patuá.

Meu corpo é fechado

Pela “Pedra Cristalina”,

Pelo “Salvador do Mundo”,

No olhar da doce menina,

Pela força prodigiosa,

Das “Virgens das Virgens”,

Mãe sublime amorosa.

Como bandoleiro dos sertões,

Respeito minhas crendices,

Nas coisas das minhas raízes;

Ouço o estalar do graveto,

O piar das perdizes,

E o pulsar dos corações,

Nas “Treze Palavras Ditas e Retornadas”,

Nas preciosas pedras das lavras,

Do Nosso Senhor Jesus Cristo,

Nos combates e persigas,

Assim nem sou visto;

Pelas forças inimigas,

Rezo a Santa Catarina,

Para Heli, Heli!

Que proteja minha sina.

A prece de Deus Padre,

Leio na manhã de sexta-feira,

No clarear de uma vela,

Ao lado da minha cartucheira,

Se molhar meu papel,

Será minha sentinela.

Não me picam os cascavéis,

Espremo doze limões,

Numa gema de ovo;

Não me separo de meus anéis;

Não posso esperar a hora,

Tomo tudo de uma vez,

Antes do deus sol,

Botar a cabeça de fora;

Não monto em cavalo russo;

Não tolero pilhérias,

Antes de ficar confuso,

A bebida é para doenças venéreas.

Para não perder a tezão,

Farinha na água do sereno,

Mata qualquer veneno.

Para mula e sezão (paludismo),

Cavo um buraco no chão,

Fecho com areia ou barro,

Em cima um feixe de lenha,

E digo a minha senha:

“Sezão ti interro aqui,

Ti afasto de mim,

Tu só torna vortá,

Se di novo eu aqui vim”.

Para catarro, água dormida,

De casca de angico,

Dor de barriga, alixi paregóro,

No chá de Pai Pêdo – cidreira,

O cabra fica bom de carreira.

Tripa furada de bala,

Fedeu a cocô, fedeu a cimitêro,

Vai direto para a vala.

Lesões pulmonares,

Com falta de ares,

Nada de rede,

Só esteira de chão duro;

Não pode cantar e falar,

Pra tudo ficar bem seguro.  

Para ter corpo fechado,

Não quebre o resguardo,

Não pise em rastro de corno,

E é por isso, seu doutor,

Sem o nosso Redentor,

Tem moléstia de supetão,

Espalhada nesse mundão.

Se está doente,

Livre-se de carne fresca,

De mulher descascando mandioca,

Se afaste da alcoviteira,

Da proxeneta alcagueta,

E longe da fofoqueira.   

Para ter corpo fechado,

Neste mundo moderno,

Não existe reza e remédio,

Esconjure o bandido tarado,

Que rouba o nosso trocado.

Livrai-nos desses demônios satanais,

Cangacistas e corruptos salafrários,

Jagunços, capangas e sicários,

Cães loucos dos verões e invernos,

Vão todos queimar suas almas,

Nas labaredas dos quintos dos infernos.   

   





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