Depois de longas conversas teóricas em mesas de bares e encontros de bate-papos, muitos dos quais chegam a varar a madrugada, onde cada um exibe sua intelectualidade, conhecimento e sabedoria, a sensação que se tem é que em pouco tempo o grupo de sábios resolve todos problemas humanitários e, principalmente, do Brasil.

O cara chega em casa “chumbado” e morto de cansado e a mulher pergunta onde estava.

– Ah, mulher, estava aí com uma turma discutindo filosofia, política, sociologia, comportamento humano e outros temas complicados.

– Entendi, resolveram o problema do Brasil numa tacada só. Nem precisavam queimar os neurônios com tanto esforço. Como já disse o cancioneiro e poeta baiano Raul Seixas, “a solução é alugar o Brasil” – respondeu a esposa em tom sarcástico.

Sei não, do jeito que está a situação, com tantas falências, inclusive de estatais, como os Correios, com déficit fiscal, nas contas externas lá nas alturas e dívidas a perder de vista, acho que ninguém mais se atreve alugar este imóvel.

Se vivo fosse, arrisco dizer que Raul cantaria, ninguém quer mais alugar o Brasil. A Amazônia, a Mata Atlântica, o Pantanal e o Cerrado foram devastados, sem falar que, de lá para cá, só aumenta a corrupção e o número de golpistas. Nos três poderes é só baixaria de bate-boca!

Quem for alugar esta casa comercial vai ter que fazer uma reforma geral porque até a comieira está comprometida de cupins. O inquilino tem que ser um exímio administrador e esperar um bom tempo para auferir os lucros.

– É, mas existem empresários que fizeram fortunas comprando e alugando massas falidas. Colocam as coisas em ordem e depois vendem ou arrendam pelo dobro ou o triplo do preço – comentou um amigo meu certa vez quando a gente trocava umas ideias teóricas do tipo resolver os problemas do Brasil que há séculos continua sendo uma nação subdesenvolvida ou de Terceiro Mundo.

Já que Raul deu a opinião dele, apontando as vantagens de ter vista para o mar e que a Amazônia seria o quintal dos Estados, Unidos, falando sério, com esse Congresso Nacional, considerado o pior da história, minha opção é por um interventor estrangeiro gabaritado, que não seja um yanque norte-americano.

Antes do camarada me repreender que intervenção cheira a ditadura, adiantei que seria no estilo democrático, mantendo o presidente com sua representação política em defesa da liberdade de expressão.

A primeira coisa seria fazer uma auditoria apurada nas contas, com total transparência. Depois cortaria todas as mordomias dos três poderes. Nada de supersalários. Sem estabilidade trabalhista para funcionário público.

Nenhum deputado, senador, ministro de Estado, inclusive dos tribunais, presidentes de empresas ou órgãos teriam direito a carros, apartamentos, casas e outros privilégios. Venderia todos esses bens móveis e imóveis. Cada um que se virasse com seus salários.

O legislativo só iria legislar e nada de emendas parlamentares. Como não existem guerras no Brasil, tiraria as forças armadas dos quartéis e colocaria todo mundo para trabalhar, erguer escolas, postos de saúde, estradas, pontes e outras obras necessárias à população.

Basta, estou viajando demais na maionese ou na utopia com esta ideia estapafúrdia! Vamos ficar mesmo na sugestão do Raul que seria alugar o Brasil. Quem alugasse teria o direito de cobrar a vista para o mar e usufruir as belezas das praias litorâneas de oito mil quilômetros, bem como estabelecer cobranças de taxas aos donos das festas que não são poucas.