OS MOVIMENTOS ABOLICIONISTAS
Somente a partir de 1870, final da Guerra do Paraguai, os movimentos abolicionistas no Brasil passaram a ser mais intensos atraindo a população para a causa da libertação dos escravos. As manifestações pressionaram a aprovação da Lei do Ventre Livre, em 1871, e a do Sexagenários, em 1885, mas poucos efeitos surtiram porque os senhores patrões cuidaram de boicotar as normas estabelecidas.
Na verdade, os primeiros polos abolicionistas nasceram na virada da primeira metade do século XIX, no Rio de Janeiro, em Pernambuco e na Bahia por volta de 1852. O escritor Laurentino Gomes considerava esses grupos mais modernizadores do Império do que propriamente abolicionistas. Pertenciam mais à elite imperial.
Mesmo depois de 1870, existiam ainda aqueles abolicionistas de elite que defendiam que a abolição se acabaria naturalmente. Alguns cálculos indicavam que a escravidão iria até a metade do século XX e outros que se estenderia até o ano 2220. Essa ela defendia que os fazendeiros fossem indenizados sob o argumento de que o cativo era uma propriedade privada, caso de José Bonifácio de Andrada e Silva.
Dentre os mais ativos se destacaram Joaquim Nabuco, José do Patrocínio, André Rebouças, Antônio Bento de Sousa e Castro, o próprio baiano poeta Castro Alves e Luiz Gama, também da Bahia, considerado pelo escritor Laurentino Gomes como o precursor, que atuava como advogado rábula e conseguiu libertar mais de quinhentos escravos.
Nos anos que antecederam a Lei Áurea de 1888, houve uma célula revolucionária denominada, segundo Laurentino, autor da trilogia “Escravidão”, de “Os Caifases”, sob o comando de Antônio Bento Sousa de Castro. A denominação era uma referência ao sumo-sacerdote que participou do julgamento de Cristo perante o Sinédrio de Jerusalém.
Mais impetuoso, Antônio Bento representava a corrente mais radical do movimento, tendo como estratégia a luta direta de enfrentamento com os fazendeiros e defensores do regime escravista. Ele infiltrava mascates e vendedores nas propriedades que penetravam nas senzalas e realizavam reuniões clandestinas, incentivando rebeliões.
Além do mais, esse grupo perseguia capitães-do-mato e denunciava fazendeiros que maltratavam seus cativos. Os fugitivos eram abrigados em locais escondidos na Serra de Cubatão. Um dos refúgios se tornou Quilombo do Jabaquara, no caminho de Santos, chegando a reunir 20 mil pessoas.
Antônio Bento assumiu a liderança do movimento em São Paulo após a morte de Luiz Gama, em 1882. O núcleo de seus seguidores pertencia à confraria negra de Nossa Senhora dos Remédios. Os encontros aconteciam na redação do jornal A Redenção (1887-1888).
De acordo com Laurentino, os movimentos tomaram as ruas e praças se convertendo na primeira grande campanha popular da história do Brasil. Aos milhares, eram produzidos panfletos, jornais, revistas e manifestos contra a escravidão.
A onda coincidiu com o surto de desenvolvimento e modernização do Império, promovido pelo visconde do Rio Branco, responsável pela Lei do Ventre Livre, de 1871. Houve várias mudanças e reformas, como no judiciário, eleitoral, nas comunicações com o telégrafo, no comércio e na indústria. Nessa época ocorreu o primeiro censo de abrangência nacional, em 1872.
Outra linha de ação do movimento abolicionista eram as conferências, concertos, discursos, shows musicais, festivais, festas e reuniões. O próprio André Rebouças, um dos que achavam que os escravos deveriam ser indenizados e não os senhores, levava o maestro Carlos Gomes para as manifestações.
O autor da obra cita que em junho de 1883, quando Patrocínio entregou a ex-escravos 115 cartas de alforrias, a multidão jogava flores de camélia, cultivada num quilombo no Leblon, sobre os libertos. Alguns abolicionistas, como Joaquim Nabuco não concordava que os escravos participassem do movimento. Ele entendia que a tarefa era do parlamento e das instituições, ao contrário de Antônio Bento.
Dentro do movimento começaram a brotar os clubes antiescravistas. Só entre 1878 a 1885 foram criados 227 em todo Império. Alguns tinham grande repercussão nacional, como a Sociedade Cearense Libertadora (o Ceará foi o primeiro estado a decretar a abolição) e a Caixa Emancipadora Luiz Gama. As mulheres também tiveram participação com cerca de 36 associações.
Em maio de 1883 todas essas organizações constituíram a Confederação Abolicionista que passou a comandar a campanha nacional. Os jornais e as revistas também tiveram papel fundamental nos acontecimentos, como Gazeta de Notícias (1874), Gazeta da Tarde, de Patrocínio (1880) e A Província de São Paulo (Estado de São Paulo), em 1875. Joaquim Nabuco lançou, em 1883, o livro O Abolicionista.
A questão dominou ainda as artes e a literatura, caso de A Escrava Isaura, de Bernardes Guimarães (1875), O Mulato, de Aluísio de Azevedo (1881) e Navio Negreiro, de Castro Alves.











