OS “BEBUNS” DO JENIPAPO
Nas andanças da vida, a gente vê e observa coisas hilárias, inusitadas e outras cotidianas que vamos incorporando aos nossos arquivos de lembranças. Os cronistas do tempo, desde a Grécia Antiga, delas se aproveitavam dessas matérias-primas para nos ofertar belos textos, muitos dos quais em forma de comédia, humor e até tragédias.
Pois é, na semana do São João estava eu numa dessas andanças pelas bandas de Juazeiro, Senhor do Bonfim e Jacobina, com intuito de encerrar as festas juninas em minha querida Piritiba, mas meu desejo de curtição evaporou-se por causa dessa pandemia. Em Bonfim tinha parentes com covid e, quando estava no distrito de Jenipapo, recebi notícia semelhante sobre a situação de Piritiba.
Com essa frustração toda, fui obrigado a retornar para Juazeiro, mas antes pernoitei na casa da minha irmã que reside atualmente no distrito de Jenipapo, que uns dizem pertencer a Jacobina e outros a Miguel Calmon, vizinho de Piritiba. Bem, isso é menos relevante que os “bebuns”.
É só para dizer que recebi o castigo dos deuses para atravessar mais um ano (agora são três) sem ver a cara da festa mais popular nordestina que mais adoro, apesar de terem descaracterizado. Até o prefeito do município de Laje, na Bahia, tentou proibir que se fizessem fogueiras no seu asfalto novo. Pense num absurdo…. dizia o ex-governador João Mangabeira.
Não quis o santo que eu tomasse nem um quentão, comesse uma canjica, um milho e nem saboreasse um amendoim cozido. Imagino que fiz alguma coisa contra ele para merecer essa punição de não cair na gandaia dos folguedos e me esbaldar como sempre faço.
Estou enrolando com isso tudo e ainda não falei dos “bebuns” do Jenipapo, mas vamos lá. Logo que cheguei, por volta das 13 horas, me deparei na rua principal da entrada (só existem umas duas ou três, e haja quebra-molas!) com um grupo de três ou quatro “cachacistas”, em pleno dia de semana, numa batucada infernal com uma pequena caixa de som estragado do tipo “bate estaca”. A coisa estava animada e só rolava a pinga braba misturada. Como não tinha mulher, dançava homem com homem no chão batido na porta da rua. Abraço pra lá, amigo pra cá e até beijo de cumpadi.
A fome começou a bater, e ai fui providenciar uma bar-restaurante para forrar a barriga que já roncava. Comida fria cheia de comim, mas a fome fala mais alto. Tomei umas geladas, que ninguém é de ferro e, na volta, os “bebuns” continuavam ainda mais animados. A tarde caiu, e os “pingunços” entraram pela noite a dentro ao som da caixa. Sem luz no casebre, a farra foi mesmo no escuro.
Cá de longe a tudo “filmava” e me divertia para esquecer que não ia mais farrear meu São João em Piritiba. Quanta saudade! Quando já era tarde, lá vem eles falar comigo com aquele bafo de álcool e conversa mole, para me convidar a se juntar a eles.
Tive que dar uma saída de que não bebia, mas o melhor estava reservado quando por volta das 24 horas, saiu de um bar, não de onde, um “bebum” caxingando de uma perna e arrastando chinela pela aquela rua deserta sem mais uma viva alma.
Uma cena hilariante! O “bebo” dava dois passos pra frente e três para trás. Uma luta danada para vencer sua embriaguez, até que se aprumou e encurtou a distância para sua casa, sem antes dar uma parada e mijar na rua. Que alivio deve ter sido!
Fiquei assuntando sua peregrinação etílica até chegar na porta do casebre. Foi a cena que me deixou mais descontraído porque o “bebum” demorou uns cinco minutos para abrir a porta. Ia de vez e voltava de costas, tentando acertar a chave na fechadura.
Naquela agonia, pensei até em ir lá para ajudá-lo, mas teve uma vez que mirou o alvo e lá caiu de vez na sala, deixando tudo aberto. Fui dormir e não soube mais o que aconteceu porque logo cedo peguei estrada, deixando Jenipapo dos “bebuns” para trás.











