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:: 22/jul/2022 . 22:39

OS QUILOMBOS: CUSTOS PARA OS DONOS E LUCRO PARA OS CAPITÃES DO MATO

No relato de Laurentino, em sua obra “Escravidão” (segundo volume), a recuperação de um escravo fugitivo requeria altos custos para o dono, incluindo pagamento para o capitão do mato, despesas de carceragem, taxas referentes à documentação, além dos dias trabalhados que deixaria de executar.

Os senhores gastavam em torno de 15% do valor estimado do cativo. Quando preso poderia ser entregue ao dono, mas era mais encaminhado à cadeia pública até completar o processo de reconhecimento. Em caso de o dono não procurar, o escravo seria vendido em leilão.

As recorrentes fugas eram desafios para a própria ordem escravista brasileira. Aumentava o medo das autoridades e da população a respeito de ameaças de haver uma associação de negros com objetivo de assaltar fazendas e viajantes.

Esse medo era ainda maior em Minas Gerais onde havia maior concentração de escravos no século XVIII. Ordens proibiam cativos de usar armas. Um regulamento de 1726 permitia o uso de facas e porretes, com o consentimento de seus donos.

As fugas e a proliferação de quilombos fizeram surgir uma tropa especializada na recaptura de fugitivos. Seus membros recebiam denominações variadas, como soldado do mato, cabo do mato, capitão do mato e sargento-mor do mato. No entanto, a que mais pegou foi a de capitão do mato, criado em Minas.

O historiador baiano Luiz Mott, no entanto, diz que já existia em Pernambuco, em 1612, ano em que o donatário Alexandre Moura solicitou à Coroa, a nomeação de um caçador de fugitivos com esse nome.

Em 1625, a Câmara de Salvador dispunha de uma escala de recompensa. Também, em 1672, a Câmara de Cachoeira possuía uma postura municipal com funções iguais às do Rio de Janeiro.

O regimento dos capitães do mato, criado no governo de Minas, estabelecia critérios de atuação e remuneração a ser paga pelos senhores de escravos fugitivos, na base da distância em que o cativo era capturado.

Se o escravo fosse encontrado em um quilombo, em companhia de pelos menos quatro fugitivos, havia uma recompensa padrão de vinte oitavas de ouro (72 gramas), mais de 22 mil reais de hoje.

Caso o escravo resistisse e fosse morto, sua cabeça seria exibida no alto de um poste em praça pública, para servir de exemplo. Muitos capitães andavam a cavala pelo interior carregando uma cabeça de um escravo, salgada e acondicionada dentro de um saco.

O capitão Francisco de Mattos chegou a receber a quantia de 7,5 quilos de ouro, cerca de 2,4 milhões de reais com a missão de extinguir os negros calhambolas nos distritos da região de Vila Velha (Ouro Preto).

Bartolomeu Bueno do Prado teve melhor resultado quando acabou com o Quilombo do Ambrósio, em 1759. Os capitães também faziam respeitar a ordem de recolher, e verificavam se os cativos tinham autorização de seus senhores para frequentar determinados lugares ou circular pelas ruas tarde da noite.

Severino Pereira se apresentava com a designação de capitão-mor de estradas e assaltos, chefe de milícia da redução dos escravos foragidos e dos fortificados nos quilombos ou coitos. Seu campo de atuação era o distrito de São José das Itapororocas (Feira de Santana), terra de Maria Quitéria.

Muitas vezes os capitães vendiam escravos, sem devolvê-los aos seus donos, uma vez que os preços em Minas Gerais eram muito superiores às recompensas pelas recapturas. Haviam escravos que prestavam serviços aos seus senhores para capturar outros cativos fugitivos.

Também existiam casos de proprietários de escravos (mestre de campo Inácio Correia Pamplona), em Minas, que armavam seus próprios cativos (58) para expedições de captura.

O historiador Donald Ramos destaca que em Minas, a maioria dos quilombos era de pequeno porte e se localizavam próximos às áreas de mineração, e que nunca ameaçaram a ordem escravista. Mantinham intercâmbio com as vilas e as comunidades.

Segundo ele, o quilombo nunca ameaçou a sociedade luso-brasileira. Nas zonas de mineração nunca houve rebelião escrava significativa ao longo do século XVIII. Nada parecido com o que aconteceu na Bahia, em 1835.

Da mesma forma havia pouca solidariedade entre negros fugitivos e índios nos sertões do Brasil. Indígenas ajudavam os portugueses nas operações de recaptura, como fizeram os tapuias na destruição de Palmares. Em alguns lugares, porém, a mistura era mais comum. No Quilombo do Piolho, em Mato Grosso, moravam 79 negros e 30 índios.

Conforme relatos de Laurentino, em algumas regiões, os quilombos eram parte de uma vasta rede clandestina de roubo, desvio e comércio dos mais variados produtos. Em Itu (SP), os quilombos não só vendiam café furtado para comerciantes locais, como também roubavam vacas e porcos por encomenda dos próprios comerciantes.

Quando perseguidos, muitos se refugiavam nas senzalas das três fazendas da Ordem Beneditina Gondê, Outeiro e Iguaçu. Os quilombolas forneciam produtos agrícolas, animais, peixes e caças aos taberneiros da região que, em troca, lhes dava proteção.





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