Num mundo tão desumano, agora nesse conflito de uma guerra insana (aliás, todas são), de tantas intolerâncias e ódio, de discriminação racial, preconceitos por todos os lados, arrotando fanatismo num Brasil que vive uma época de retrocessos, custos altos com uma inflação galopante e de profundas desigualdades sociais, você vai vivendo a vida “comendo pelas beiradas”, como diz o ditado popular.

Assim está sendo nossas vidas nos tempos atuais, a não ser aquela casta privilegiada que não precisa comer pelas beiradas, como o pobre trabalhador quando para seu carrinho numa bomba de gasolina. Ele olha triste para o frentista, conta os trocados na carteira, e manda colocar uns “grãos” de gasolina. O mesmo faz na feira ou no supermercado. Os alimentos são regrados, e o carrinho já não enche pelas beiradas, como em tempos atrás.

É meu camarada-amigo, hoje não se está mais vivendo, mas vegetando, no sentido literal da palavra! Não quero ser pessimista, visto que se trata da realidade. As dívidas crescem e junto acumulam-se as preocupações! Quando anoitece e se cai na cama, você termina dormindo também pelas beiradas, muitas vezes com medo de perder seu emprego ao amanhecer.

Com essa pandemia de dois anos, de tanta contaminação e vidas perdidas, que provocaram ansiedade e depressão, seguimos, cada um em seu caminho, comendo pelas beiradas, parecendo político em época de eleições com relação ao eleitor. O candidato come o voto pelas beiradas e, depois da barriga cheia e farta, ele some para comer o bem-bom.

O que quero dizer com isso é que nossas vidas são sempre assim, comendo o prato de cada dia, de maneira devagar pelas beiradas, para alcançarmos o amanhã. Não se deve se afogar de uma vez porque você pode se empanzinar e sofrer uma congestão. Temos que ter o equilíbrio mental para suportar bem as adversidades. Não se deve ir de vez ao pote quando se está com muita sede.

As conquistas na vida têm que ser feitas de maneira dosada, por etapas, e não adianta correr muito porque você pode ser vítima de uma topada ou tropeço. Se cair, levante outra vez, como nos ensinou o poeta cancioneiro Raul. Aprenda, respire e reduza a pressa. As pessoas hoje vivem em correrias que nem olham para o próximo, nem no que ele está dizendo. Você não escuta mais e acha que a verdade é só sua.

Com essa competição desvairada, como máquina sem parar, você pode terminar comendo um prato amargo lá na frente, porque não aprendeu a comer pelas beiradas da vida. Muitos avançam o sinal e passam a rasteira nos outros, achando que nunca vai lhe acontecer um mal lá na frente.

Nas ruas, gente apressada para resolver seus problemas do dia-a-dia, naquela agonia, somente para sobreviver. A era do celular não lhe deixa tempo para pensar o que se passa em sua volta. O outro, praticamente não existe. Não dá conta que é um ser humano com início, meio e fim (olha novamente o Raul). Melhor ir comendo pelas beiras, saboreando.