maio 2021
D S T Q Q S S
 1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
3031  

:: maio/2021

OS CILINDROS DA VIDA

Foto do jornalista Jeremias Macário. Flagrante de um descarregamento de cilindros em frente de um hospital da cidade

 

Nunca eles foram tão protagonista nesta pandemia da Covid-19 como meio de salvar vidas intubadas para devolver ar aos pulmões afetados nas UTIs dos hospitais. São os cilindros da vida que em Manaus, com sua escassez, provocaram dor, choro e lágrimas de muitos parentes que estavam com seus entes queridos à beira da morte. Eles são essenciais para o respirar. A mídia sempre está falando neles quando existe uma ameaça de falta nas unidades de saúde. Sem eles, talvez o número de mortes no Brasil, mais de 417 mil, poderia até ser o dobro. Em Manaus, inclusive, e outras cidades, muitos vieram a óbito quando as fábricas não conseguiram atender a grande demanda. Quem não viu as cenas de gentes desesperadas nas filas lutando para adquirir esse valioso tubo de oxigênio? Infelizmente, no lugar dos cilindros, o insensível governo federal mandou cargas de cloroquina. Eles não são usados para tratar um “gripezinha” qualquer. Já imaginou se o Brasil dependesse do fornecimento da China, que está irritada com as declarações desastrosas de um capitão-presidente que nem está aí para as mais de 400 mil mortes? A impressão que temos é que em nosso país temos um governo com a intenção de fazer uma seleção humana, eliminando os mais fracos, ou todos aqueles que não são assintomáticos. Está havendo um genocídio, e um dia a história vai nos punir por termos sido omissos e tolerado tantas barbaridades dos negacionistas da ciência. Ainda bem que temos os cilindros da vida.

AS ESTAÇÕES PERDEM SUAS CORES

Poema inédito de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Por Deus, Alá e por Jheová!

Deixem de atanazar a natureza,

E sugar de cada Estação,

O vigor sublime da sua beleza.

 

Os deuses da tecnologia e da ciência,

Estão poluindo o ar, a terra e o mar,

E do humano a consciência escravizar.

 

Lá se vão os contrastes das Estações,

A noite virou um clarear do dia,

Com a energia da luz artificial,

Que tirou a magia do espaço sideral,

 

No Nordeste, o verão chicoteia no reio,

Com um fino outono e rala primavera,

Na era do escasso inverno que não veio.

 

O céu noturno, nosso templo sagrado,

De lua e estrelas no infinito universal,

Que previam o futuro com o ritual,

De fartura das colheitas do arado.

 

As bruxas voadoras em suas vassouras,

Cortavam as noites como os cometas,

Para anunciar as mudanças nos planetas.

 

As Estações não eram preguiçosas,

Cada qual exibia suas cores,

Os pastores tinham o tempo certo,

Do rebanho curral e das colinas viçosas.

 

Existia o limite entre frio e calor,

Com o toque dos tambores dançantes,

E o sopro nas orgias dos berrantes.

 

No Brasil já devastam os ciclones,

Queimam as florestas do Xavante,

O Pantanal vai perdendo seus clones,

E a Estação faz sua mudança rasgante.

 

A BARBÁRIE NO BRASIL

TENTO AQUI FALAR DE COISAS BOAS DO NOSSO BRASIL, MAS ESTÁ DIFÍCIL ENCONTRAR. SERÁ QUE SOU TÃO TRÁGICO COMO NAS NOVELAS GREGAS?

No momento mais complicado e difícil, com mais de 400 mil mortes pela Covid-19, que não é nenhuma “gripezinha”, faltando vacinas da CoronaVac em todos os estados para que as pessoas tomem a segunda dose, o cara volta a atacar a China, a maior fornecedora de insumos para o produto principal.

Isso é uma barbárie, e mais uma prova de que o capitão-presidente é contra a vacinação do povo e quer empurrar goela abaixo a cloroquina. Na “CPI do Fim do Mundo”, até a tropa de choque do governo federal fica de mãos atadas sem saber como defender o chefe.

A esta altura, o mandatário chinês deve estar dizendo que só vai mandar a matéria-prima quando o desastrado estiver sob controle. Não é o cara que está sendo punido, mas toda a população brasileira. Não dá mais para suportar tanta crueldade! Somos um povo que não nos indignamos contra o caos de um governo. Por menos, os nossos países vizinhos se revoltam.

A outra barbárie de Salvador onde dois rapazes que furtaram uns quilos de carne no Atacarejo e foram entregues aos traficantes para serem mortos, praticamente caiu no esquecimento. Cadè os movimentos negros, o Ministério Público, a OAB, a sociedade e outras instituições defensoras dos direitos humanos?

Não se comenta mais sobre o homem negro que foi espancado até a morte pelos seguranças do Supermercado Carrefour, em Porto Alegre, e aqui quero pedir desculpas pelo equívoco que cometi em outro comentário sobre o assunto ao citar o Pão de Açúcar.

Além do rastro de mortes que o coronavírus está deixando em nosso país, por total negligência e estupidez do governo federal, estamos chocados e estupefatos com outras barbáries, como a do vereador Jairinho, com a cumplicidade da sua companheira (mãe do menino), no Rio de Janeiro, que tirou a vida de uma criança inocente depois de cruéis torturas.

O pior é que, em pouco espaço de tempo, uma brutalidade supera a outra no Brasil, como se estivéssemos numa comunidade amaldiçoada pela ira dos deuses. Em Santa Catarina, um bárbaro entrou com uma adaga numa creche e deferiu golpes fatais em três crianças e duas professoras. Um ato sanguinário que não se lê nos registros macabros das histórias de guerras.

Infelizmente, não temos coisas boas nos noticiários da mídia brasileira do dia a dia, que juntas superem as barbaridades. Ainda hoje estava lendo o livro “a guerra não tem rosto de mulher”, da autora Svetlana Aleksiévitch, onde num trecho de sua narração sobre as atrocidades da guerra, indaga onde está a fronteira entre o humano e o desumano? Mais na frente ela diz: Por que não nos espantamos com o mal; falta em nós o espanto diante do mal?

O BRASIL DO SISTEMA SANFONA

A impressão que temos é que a pandemia no Brasil é interminável, ou vai ser o último dos países a se livrar desse vírus maldito. Em nosso país, infelizmente, funciona o sistema sanfona do abre e fecha, como agora para comemorar o dia das mães. Todo mundo vai às compras com as lojas abertas normalmente e depois acontecem os almoços com as mães, avós, filhos e netos, como se tudo já estivesse acabado.

Interessante que as pessoas falam das comemorações neste ano com o sentimento de que no ano passado não houve, como se a situação agora fosse melhor. Pelo contrário, o número de mortes e casos aceleraram mais ainda. Os hospitais estão mais lotados e existe o agravamento de novas cepas e linhagens. Mesmo havendo o risco, vamos celebrar e se ajuntar em famílias.

Houve um fato que saiu na revista “Piauí” em que sete irmãs, depois de algum tempo ausentes, resolveram se encontrar num almoço. O resultado foi que depois quatro morreram de Covid-19. As prefeituras, a exemplo de Vitória da Conquista e Salvador, relaxaram as medidas. Mais quinze ou vinte dias, no final de maio pode vir outra pancada.

Logo depois entram as festas juninas e, como no ano passado, o nordestino, principalmente, não aguenta ficar sem as fogueiras e sem reunir os amigos e parentes para as bebidas e comidas típicas da época, mesmo que não haja o São João oficial nas prefeituras. Mais uma vez, ocorre o sistema sanfona do abre e fecha.

Do outro lado, a vacinação segue a passos lentos e faltando doses para a segunda imunização que não atingiu 8% da população dos 230 milhões de habitantes. As vacinas continuam chegando aos tiquinhos e no Ministério da Saúde é só confusão. Ora manda que as prefeituras reservem lotes para a segunda aplicação, ora sai uma ordem para que sejam usadas. É por isso que sempre digo que não basta falar que vai passar, como se essa graça fosse cair do céu.

Nos países da Europa onde a vacina está bem avançada, os governos estão abrindo as atividades, inclusive shows, eventos culturais e esportivos, e se preparando para receber turistas estrangeiros (menos brasileiros), isso depois de um longo período de isolamento social.

Aqui temos os negacionistas da ciência que não tiram férias para contrariar as recomendações dos especialistas. Será que o propósito é fazer uma seleção humana para eliminar os mais fracos e pobres? Tentaram até mudar a bula da cloroquina onde a droga seria também incluída no tratamento do coronavírus.

No Brasil, praticamente não houve isolamento social e nem uma política planejada de vacinação, mas como sempre o país adora imitar os outros, como os Estados Unidos, vá lá que resolva fazer o mesmo, liberando de vez o uso de máscaras e a realização de grandes eventos, como shows e festivais, sem primeiro fazer o dever de casa.

Por essas e outras é que estamos no mesmo caos da Índia, os dois países do mundo com os maiores índices de contaminação e mortes por dia. Os dois são parecidos nesse aspecto. Tanto lá como cá, a fome é outra pandemia que mata impiedosamente. O nível de educação e instrução é baixo e existe a cultura das aglomerações nas cerimônias religiosas que não são poucas.

Nesse sistema sanfona, vamos dançar de acordo com o ritmo da Covid-19, e o seu tom é de um forró ou de um samba bem acelerados onde muitos não conseguem ir até o final da festa por falta de ar nos pulmões. A maioria prefere subestimar o inimigo invisível e fazer de conta que está tudo n

UMA SOCIEDADE CRUEL E ESTÚPIDA

Os segmentos da sociedade pouco reagiram, somente as famílias foram às ruas protestar e a mídia apenas deu alguns registros do fato. Estou me referindo à brutalidade cometida contra dois rapazes negros que furtaram uns quilos de carne no Supermercado Atacarejo, em Salvador, na última semana.

Diante de tanta crueldade e estupidez de crimes hediondos, a nossa sociedade, de tão insensível, não reage mais, e ainda tem muitos que acham que eles deveriam mesmo era morrer nas mãos dos traficantes, conforme foram entregues pelos seguranças do estabelecimento.

A pergunta que não quer calar é se essa não é uma prática adotada pelo supermercado, ao invés de chamar a polícia para registrar o ocorrido na delegacia?  Como se trata de pobres negros, essa será mais uma atrocidade que irá cair no esquecimento e entrar na pasta dos arquivos mortos.

Não interessa se eles tinham ou não passagens na polícia e quais foram as intenções ao pegarem os pacotes de carne, se por motivo de fome ou se para fazerem uma farra. Enquanto isso, os corruptos de colarinho branco da falecida Operação Lava-Jato estão todos sendo soltos e inocentados pelos seus roubos aos cofres públicos.

Ao ver aquela cena dos dois sentados num canto ao lado dos pacotes, com semblantes de pavor, terror e medo de serem mortos, lembrei imediatamente quando eu e um colega inventamos de cometer um furto de doces, chocolates e biscoitos para comer no Supermercado Paes Mendonça, do Politeama, na mesma Salvador, no início dos anos 70.

Quando fomos pegos pelos seguranças e fomos ameaçados de serem entregues à polícia, ficamos aterrorizados e pedimos clemência. Nessa época a sociedade não era tão desumana, e os guardas tiveram compaixão de nós e nos liberaram. Nessa época estávamos atravessando aquele aperto de passar fome por falta de dinheiro. Foram tempos duros na vida.

Poderíamos ter sido mortos também por causa de uns pacotinhos de comida, mas tivemos a sorte da piedade dos vigias, que contou a nosso favor. Os dois do Atacarejo foram entregues aos algozes que certamente receberam algum benefício parta eliminar duas vidas humanas, coisa que não se faz isso nem com os bichos.

A selvageria e a violência tomaram conta dessa sociedade podre e hipócrita que não mais se abala com os crimes mais primitivos e aterrorizadores. Tudo é encarado como normal, comum e legal. As instituições não mais reagem como como deveria. A imprensa apenas se presta a noticiar o factual, e logo ninguém mais comenta a crueldade, como no caso do homem negro que foi espancado até a morte no Pão de Açúcar de Porto Alegre.

Os culpados serão mais uma vez premiados pela impunidade, e não tarda muito a acontecer outra estupidez. Aqui em Vitória da Conquista ninguém mais recorda da chacina cometida por um grupo de policiais num bairro da periferia, que agora não me vem o nome na cabeça.

Vários jovens de uma mesma família foram assassinados friamente porque um militar havia sido morto por um bandido. Promotores foram ameaçados de prosseguir com a investigação. Como membro da ABI (Associação Bahiana de Imprensa) dei uma nota de apoio ao trabalho da Justiça. Fui repreendido por um “cidadão” ao afirmar que as vítimas tiveram o merecido e que deviam ser mortos mesmo.

Temos hoje um Brasil tipo faroeste bang-bang dos filmes norte-americanos onde o episódio, como o dos rapazes da carne, se resolve na tortura e na bala. Só faltou arrastarem as vítimas pelas ruas, não puxados por cavalos, mas por carros, com uma placa “esses furtaram uns quilos de carne, que o castigo sirva de exemplo”.





WebtivaHOSTING // webtiva.com . Webdesign da Bahia