FORA DESSE EIXO DESCARTÁVEL
Confesso que me sinto fora desse eixo enigmático da chamada terra brasis da Vera Cruz ou qualquer outro nome que queiram dar. Às vezes penso comigo mesmo que deveria ter nascido em outra parte desse planeta. Teria sido coisa do destino ou de encarnação espiritual? Sinto-me deslocado e não passo de uma sobra qualquer descartável. Não consigo absorver tantas loucuras!
Agora mesmo o Tribunal Superior Federal julgou o tal do orçamento secreto e foi condenado com aperto de votos a favor e contra. Como conciliar secreto, democracia e transparência? É como colocar um ditador para vigiar a liberdade. São coisas desse Brasil colonial malandro, e assim vamos nos arrastando nesse lamaçal pegando caranguejos nas locas!
Esse meu Brasil anda de ponta a cabeça, fora do eixo quando pais negam vacinas para suas próprias crianças! Como se adaptar a tantas contradições e paradoxos? Alguém aí tem uma resposta para esta pergunta?
O errado se fez certo e o anormal em normal. O verbo não é mais o mesmo verbo. Está desbotado e murcho! Dizem por aí que o brasileiro é um povo alegre, festeiro e otimista, mesmo vivendo na miséria com cerca de 60 milhões na extrema pobreza! Cada um tem sua chave para ser feliz.
Não se conta mais histórias e estórias para filho dormir, mas se decidir narrar uma comece como de costume “era uma vez uma Operação Lava-Jato”… A criança logo vai adormecer. O desfecho já é conhecido. Experimente passar dez anos fora do Brasil sem receber nenhuma notícia e depois retorne como tivesse se perdido numa floresta! Talvez você pegue logo viagem de volta!
No início dela (Lava-Jato) não se imaginaria que o ex-governador salafrário Sérgio Cabral seria solto, e olha que o cabra confessou suas falcatruas perante um juiz! Tornozeleira, prisão domiciliar, coisa de blábláblá! Não adianta mesmo ficar encafifado e estropiar a mente, nem estragar sua cútis mestiça índia, portuguesa e negra.
Todos ficam contando os próximos feriadões antes de terminar o ano – a mídia é a primeira a anunciar – para curtir, gastar e se endividar. Limpa o nome no Serasa e depois começa tudo de novo. Final de semana é aquela farra total, e o aumento da violência já é sua marca registrada, com acidentes nas estradas, facadas e tiros.
Ninguém quer levar nada a sério, e quem faz isso é um estressado ranzinza. No Brasil foi abolida a pontualidade nos encontros, eventos, reuniões, shows e outras atividades de trabalho. O indivíduo chega atrasado porque sabe que todos estão atrasados e é assim que deve tocar a banda. O pontual é visto como um babaca fora da curva, chato e desatualizado. A pontualidade começa com mais de uma hora de atraso.
E as aberrações, meus amigos? Alguém deve indagar quais? Os absurdos são toleráveis. Uma ou um deles é o cidadão encontrar uma bolsa cheia de dinheiro e procurar o dono para devolver. Viraliza e se torna noticiário nacional na imprensa.
Uns indagam: Para que ser honesto se lá em cima a maioria rouba e mente descaradamente? Seriedade, honestidade, compromisso com a palavra e meritocracia são espécies em extinção. São como as raras ararinhas azuis nos céus do sertão.
Com as redes sociais bombando, cheias de lixo, besteiras, palhaçadas e imbecilidade, o que conta e pesa são os milhões de seguidores. Quem tem mais leva o troféu. Coitado de quem só tem dois ou três. O negócio já é de 50 milhões para cima.
Coisa de doido, meu amigo! A pessoa esquece de valorizar a si mesma, de procurar saber quem sou e para aonde vou, para seguir mascarados que estão do outro lado da tela ou da linha. O semeador de seguidores, que não é de pensamentos, finge ser o que não é e passa a ser idolatrado. Quanto mais banal, mas gente para clicar.
Às vezes bate um vazio dentro de mim! Não consigo me identificar com esse moderno falso, superficial, bestial e descartável, sem conteúdo e solidez. Me sinto fora desse eixo dos editais burocráticos, dessas reuniões onde todos falam a mesma coisa, repetem, repetem para tudo permanecer no mesmo lugar.
Só o Feliz Natal e Boa Festas para fazer esquecer tudo isso. Nos odiamos em xingamentos e intolerâncias para depois desejarmos um Feliz Natal, que seja sem fome, meu camarada, porque o restante do ano e mais os 350 dias do outro você está ferrado. Estar fora do eixo deve ter suas vantagens.











