ENTRE ENGAÇOS E BAGAÇOS (V)
Versos em formato de cordel de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário sobre a cultura nordestina e seus personagens escritores, cordelistas, trovadores e gente importante que fizeram história em nossa nação.
Pra variar fui às feiras duelar com trovadores-repentistas,
Que vinham de longe e não ia ficar como besta de fora;
Tentei embolar no varejo e pedi pra não me fazer de bosta:
Não ser humilhado por esses medievais voadores artistas;
Decidi arrastar a minha poeirenta sandália e ir embora,
Quando me deram aquelas respostas virando suas costas,
E temi enfrentar aquela batalha de improvisos nortistas;
Sai de soslaio pra trocar um lero-lero com Celso Furtado,
Um dos maiores pensadores desse nosso Estado Brasileiro,
Que planejou golpear a ignorância com seu plano futuro;
Transformar essa nação num país progressista além do muro,
E não numa gerigonça, espeto de pau e casa de embusteiro.
Ainda tinha muito o que fazer naquela Paraíba mulher-macho,
Acender meu facho na voz de Zé Ramalho e do Geraldo Vandré,
E a eles pedi licença para pisar terra guerreira dos menestréis;
Viajar no dorso dos alados e no galope ligeiro de “Disparada”,
Sem ser boiada ferrada como me ensinou o Celso Furtado;
Ir com fé, sem jamais me curvar e manter alerta minha espada,
Pra escutar atento o Leandro Gomes de Barros, lá de Pombal,
A cadenciar o maior cordel de todo nosso Nordeste afamado,
Cabra de versos apurados, imbatível como estrela universal,
De fartas rimas, métricas e estrofes de encher todo um jornal,
Da história de Getúlio a João Pessoa, em Recife assassinado,
E assim fui a Tambaú mirar mar pôr-do-sol do “Tone” saxofone.
Não podia deixar de trocar dedo de prosa com o senhor armorial,
Matuto simples de jeito pausado-cadenciado de Ariano Suassuna,
E roguei para me botar dentro do seu eterno “Auto da Compadecida”,
Só pra sacanear com a malandragem picaresca desse pícaro “Chicó”,
E quando ele falou não sei, só sei que foi assim, por trás meti o fifó;
Seu moço, o moleque pulou e correu gritando ter visto alma penada,
Numa cena pitoresca, foi parar na jagunçada do coronel “Ferroada”.
Era mês de fogueiras e em Campina Grande das festas juninas,
Caí na dança forrozeira com as coroas fogosas e belas meninas,
Até me empanturrar e embriagar nos arrastos poetas repentistas,
Populares repórteres e feitores de letras de raízes dos cordelistas,
De soladas violas e quadrilhas marcando encontros de amores,
E encantado fiquei com a Paraíba de tanta gente cheia de cores,
Que me injetou energia pra aprender a lição e fazer a canção,
Nessas carrocerias de andanças estradeiras, de barcos e canoas,
Entre coqueirais, dividindo varais até entrar na vizinha Alagoas.











