Continuação do poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário no formato de cordel que fala da cultura nordestina e   seus personagens escritores. É uma viagem do Maranhão até a Bahia num trânsito com hábitos, costumes e quem fez história nessa nossa nação da qual orgulho de pertencer.

Casquei pra Exú pra ver o monumento-rei Gonzaga;

Apertei as precatas para conhecer a feira de Caruaru,

Com a fome do saber popular, sem perder a ternura,

De um estado que parecia ter visitado quando menino,

Numa vaga do destino da reencarnação Pernambuco,

Dos holandeses-judeus que implantaram uma cultura,

E deixaram seus vestígios de uma comunidade futura.

 

Com meu trabuco fui logo ver o Manuel Bandeira,

Para beber na fonte original das sagradas escrituras,

Mas estava arrumando as malas para Passárgada,

No desejo de ser livre e ter a mulher que sempre quis;

Viver numa rede como rei com astutas prostitutas,

Longe desse chão de intrigas e disputas pra ser feliz,

E logo me convidou a embarcar em suas aventuras,

Quando de pronto avisei que não ia viajar nessa saga;

Que seu voo à Pérsia de Ciro seria nas asas da utopia,

E com afeto sai para ver o João Cabral de Melo Neto,

Para me juntar a ele na triste labuta de “Vida Severina”,

Do homem que só tem direito a sete palmos de altura,

Esse herói anônimo valente resistente a esta secura,

Dessa sina que nunca finda nessa paisagem nordestina.

 

Enfiei as mágicas palavras em meu alforje surrado,

E fui vagar pela Veneza-Recife até o monte Olinda,

Com a cena do gado berrando na seca cacimba catinga,

E pra esquecer passei nos botecos e enchi a cara de pinga;

Sonhei que estava na Grécia com os deuses do Olimpo,

E acordei entre os negros descritos por Gilberto Freyre,

Com quem visitei “Casa Grande e Senzala” dos bantos Níger,

Dormi em “Sobrados e Mocambos” de Angola e da Guiné,

Onde também o doutor deitou, como me disse e provou,

Mas vinha a cena do Bandeira em orgia como um rei.

 

Tomei tino e fui direto pra terra de “Menino de Engenho”,

Do tempo dos coronéis estuprando negras de taca e reio,

No mourão escravo, ou no lamento África dos canaviais,

Onde fui moleque com José Lins do Rego paraibano creio,

E com ele me lambuzei na safadeza erótica dos bacanais,

Sem receio de fazer estripulias de verso menino travesso,

Com aquela gente que lembra o filme “Vinhas da Ira”,

Expulsa do seu torrão e varrida como um lixo caipira.