O escritor Antônio Amaury Corrêa de Araújo, em sua obra “Assim Morreu Lampião” descreve em detalhes, através de depoimentos de coiteiros, barqueiros, soldados e cangaceiros que conseguiram fugir, como aconteceu o combate na fazenda Angico, em Sergipe, e a trama montada pela tropa do tenente Bezerra que resultou na morte do “rei do cangaço”, Maria Bonita e mais nove bandidos do seu bando.
O Joca Bernardo foi o principal delator, sem caráter e escrúpulos e fazia o papel de X9 para a tropa e coiteiro para Lampião. Nos depoimentos fica bem explicito o seu papel de um sujeito safado, o tipo de espião duplo que até traiu o amigo Pedro de Cândido, forçado através de torturas, a dizer onde estava o coito de Lampião.
Nos depoimentos, Amaury entrevistou José Panta de Godoy, o soldado que chegou a atirar na cabeça de Lampião enquanto ele se contorcia no final da sua morte. Na linguagem matuta caipira, narra os depoimentos de Adilia, mulher do cangaceiro Canário, Cila Ribeiro de Souza, companheira de Zé Sereno e Pedro Benga, dono das canoas com as quais o tenente transportou a tropa na noite de uma quinta-feira de 28 de julho de 1938.
Ouviu também João de Almeida Santos, o Joca Bernardo, morador da fazenda Novo Gosto, município de Pão de Açúcar, Cícero de Martins, um dos barqueiros que levou a tropa de Piranhas até Entre-Montes para procurar Pedro de Cândido, Durval Rodrigues Rosa, o coiteiro irmão de Pedro, Abdom Cosme de Andrade, autor do primeiro tiro contra os cangaceiros, Balão, o bandido que conseguiu sobreviver ao combate, Antônio Jacó (Mané Veio), braço direito de João Bezerra, Francisco Rodrigues Pereira, político e comerciante de Piranhas (Alagoas), Mané Feliz, um dos coiteiros de Lampião e Waldemar Damaceno dos Santos, o telegrafista da cidade de Piranhas que transmitiu a mensagem sobre a presença do bando na área a mando do sargento Aniceto, dizendo “tem boi no pasto”.
Sobre o cangaço e a imprensa, o “Estado de São Paulo” publicou em 3 de agosto de 1938 um artigo intitulado “Lampião. O mesmo periódico divulgou em 16 de agosto o comentário sobre “A Cabeça de Lampião” criticando o sensacionalismo sem limites com relação aos fatos relatados por determinados jornais, inclusive com notícias falsas.
O editorialista sobre “Lampião”, do Estado de São Paulo, destaca que “a imprensa carioca, possivelmente todo jornalismo indígena, tem comentado largamente a façanha das forças volantes de um dos estados do Nordeste, que acabam de eliminar o sinistro “Lampião”.
Fotografias dos “heróis” das milícias estaduais, tudo isso, juntamente com “clichês” que focalizam aspectos do reduto geográfico em que estalou o choque, tem sido publicado com abundância e destaque pelas folhas brasileiras. Aqui tenho dito, mais de uma vez, quanto me repugna e quanto julgo prejudicial esse procedimento da imprensa. Não me surpreende que envenenando a mentalidade popular e alvoraçando o sistema nervoso de uma população sabida e proclamadamente nevropata.
Entretanto, neste caso triste, é necessário que nos bastamos, mais uma vez, contra esses processos de jornalismo. Amanhã – pois não faltam remetentes graciosos – alguns exemplares desses jornais transporão o Atlântico e irão parar sobre a mesa do secretário de grandes jornais europeus ou estadunidenses. É a hora! Os sensacionalistas, que os há também lá estão, aos olhos das multidões de países mais civilizados, alguns aspectos do interior do Brasil!
Nisso tudo, o que acho mais lamentável é a atitude dessas pessoas de responsabilidade. Não se pode negar que o “cangaço” é um flagelo tão grande quanto a das secas periódicas, o da falta de transportes, o da crendice das populações sertanejas que acreditavam na invulnerabilidade do facínora de “corpo fechado”. Todos esses males, entretanto, provêm única e exclusivamente, como todos têm dito, da falta de cartilha.
Alfabetizem-se os sertões e adeus bandidos, adeus santos e “coiteiros”. Por que o governo não ouve aquela voz admirável, aquele homem que encarnou todo o país consciente, deplorando a luta, diagnosticando-lhe as causas, ao escrever aquele momento que se chama “Os Sertões”? Por que continuamos surdos àquela voz de compaixão e de protesto à terrível acusação que fez Euclides contra a represália do banditismo?” – F”.