Um aponta o dedo para o outro e os dois negam seus malfeitos, sujeiras e corrupções. No Brasil de hoje existe uma cegueira ideológica onde pessoas, sejam de esquerda ou de direita, compactuam com o político da sua corrente, do seu partido, mesmo sabendo que ele está envolvido em irregularidades, falcatruas e atos ilícitos.

  Esta cegueira, por questão ideológica, faz o cidadão de bem, de caráter e honestidade perder a razão, trair sua própria formação e apoiar o indivíduo que comete desvio de conduta. Ele coloca sua ideologia acima daquele que age com desonestidade. O radicalismo político é como o fundamentalismo religioso. Os dois são irmãos siameses.

Numa discussão, a pessoa radical procura fazer vistas grossas e argumentar que o corrupto é inocente, que as acusações contra ele são infundadas, que não passam de perseguições políticas e são apenas ilações.

   Ele não consegue aceitar que a nota que recebeu é falsa, mesmo tendo a confirmação de um perito no assunto. O radical não muda de opinião e não tem diálogo porque acha que não deve dar o braço a torcer para seu opositor. Em seu imaginário, tal atitude de reconhecer o erro seria uma fraqueza e humilhação.

  A ideologia cega é um grande mal para os bons, para os sérios e para aqueles que sempre combatem a corrupção. É como consentir que tal governante rouba, mas faz, principalmente se for em prol do desenvolvimento social em nome do povo.

  – Ah, ele está sendo investigado, mas está fazendo um bom trabalho em defesa dos mais pobres, dos excluídos, da democracia e luta pela liberdade de expressão e pelo avanço da igualdade, como se tudo isso justificasse suas ações imorais.

   Confesso que não consigo entender determinados posicionamentos de ideólogos de esquerda que tentam acobertar, negam ou evitam citar crimes praticados por gente da sua mesma ideologia. Isso também acontece no caso inverso quando se trata da direita ou de centro.

  Por muitos anos, membros do Partido Comunista, principalmente o francês, por pressão dos radicais, com medo do expurgo e até de serem mortos, procuraram esconder e desmentir os crimes sanguinários praticados por Stalin na União Soviética contra seus opositores.

  Por ser de esquerda, que por princípio prega a honradez, a seriedade e a justiça social para todos, o ato de corrupção é bem mais grave e merece mais repúdio do que a ladroagem advinda de um elemento de direita não confiável porque deste não se espera muita coisa em termos de lisura.

   Prezo mais pela boa formação, aquela de berço, passada de pai para filho, vinda dos mais antigos que honravam com a palavra dada do que ter ideologia de esquerda e ser salafrário, mentiroso, enganador de promessas, do tipo que fala uma coisa e faz outra por debaixo do pano.