– Por que esse negócio de perguntar sobre a cor das pessoas? Esbravejou um usuário da unidade do CRAS VIII do Bairro Miro Cairo, que foi lá reclamar sobre o corte do seu auxílio. Um moço aperfeiçoado estava querendo saber o motivo de não está mais recebendo o Vale Gás há meses.
Nas costas, o sujeito carregava uma jaqueta do aplicativo Uber e percebi que não era tão assim necessitado e carente. Pela sua aparência, bem trajado, não passava de mais um oportunista aproveitador de programas sociais. Disse que morava só.
Aquilo me chamou a atenção e parei de ler para ouvir as conversas entre as atendentes e as pessoas que chegavam com suas reclamações. O que mais observei foi a questão concernente à cor do homem ou da mulher. Enquanto estive por lá, só uma pessoa assumiu sua identidade negra, sem pejo e com orgulho.
Não que não tenha consciência dessa situação esdrúxula, mas confesso que fiquei estarrecido com uma senhora negra que trazia um filho nos braços. Seus cabelos não negavam sua cor e ela, simplesmente, sem titubear, respondeu que era branca. A funcionária olhou de soslaio e continuou seu trabalho.
Aquilo me fez lembrar do censo do IBGE onde grande parte da população nega sua verdadeira cor, e a maioria prefere cravar a parda, mesmo sendo negra. Teve um rapaz negro que respondeu ser moreno.
Isso é negar suas origens e está encravado na raiz do racismo, no sentir inferior aos outros quando não se é branco, como se a cor fosse lhe dar melhor posição social. Essas atitudes contam também com a falta de educação escolar e cultura, para entender que devemos valorizar as nossas ancestralidades.
A partir dessa simples observação, numa unidade do CRAS, de periferia predominantemente pobre, os fatos ali testemunhados nos faz constatar que os dados sobre cor da pele do homem ou da mulher no Brasil são falhos e não batem com a realidade.
Essas posições nos fazem refletir sobre a questão da falta de instrução e cultura que leva a pessoa a negar sua verdadeira identidade. As escolas de hoje precisam conscientizar as crianças a valorizar e a assumir o que elas são, especialmente em termos da cor da pele.
Para não haver constrangimentos desse tipo, como do beneficiário dos programas dos governos, que se irritou ao ser perguntado sobre sua cor, melhor que esse item sobre raça fosse retirado dos formulários das unidades voltadas à assistência social.
Diante daquilo tudo – foi até uma manhã proveitosa em forma de aprendizagem sobre o comportamento do ser humano – escutei uma pérola da nossa língua portuguesa que há muito tempo não ouvia. Vez ou outra nos deparamos com coisas inusitadas. É a vida como ela é, como bem descreveu o escritor Nelson Rodrigues em suas crônicas.
Entre uma conversa e outra, uma atendente saiu com seu exibicionismo de, “entretanto, porém, todavia” bem postado. No momento dei vontade de rir porque achei fora do contexto e ali naquele ambiente não tinha pessoas cultas para entender aquele conjunto de conjunções adversativas, indicando ideia de oposição ou quebra de expectativa.
Não resolvi o que queria porque tinha que receber apenas um salário mínimo da minha insignificante aposentadoria, para ser contemplado em meu pedido (muitos são beneficiados com seu jeitinho desonesto brasileiro), mas, mesmo com tanto sacrifício de ter acordado cedo, ganhei a manhã naquele laboratório inusitado de contrastes.