No Brasil rural e no Nordeste arcaico, principalmente, até meados do século XX, o documento mais valioso para as famílias era o Certificado de Batismo, o primeiro que os pais se preocupavam em tirar quando os filhos nasciam. Os mais antigos sabem muito bem disso.
A escritora Élise Gruspan-Jasmim, em “Lampião-O Senhor do Sertão” faz alusão a este hábito católico que prevalecia naquela época. Certidão de Nascimento, que hoje a criança já recebe no hospital no momento que a mãe “dá a luz”, era coisa para depois de cinco ou seis anos. Como muitos eram analfabetos e não anotavam, a data precisa saia sempre errada.
Em sua obra, a autora escreveu que “era costume no sertão batizar pouco tempo depois do nascimento, por causa do grande número de crianças que morriam com pouca idade nessa época. Os pais encarregavam-se rapidamente de batizar o recém-nascido, com medo de que este, caso viesse a morrer, torna-se uma alma errante”.
Por causa da cultura religiosa, trazida lá de seus antepassados, o batismo era o primeiro cuidado. A autora deixou de citar que os pais corriam logo à Igreja Católica com receio de criança morrer pagã. Seria um grande pecado deixar um filho morrer “pagão”.
Lembro disso através da minha mãe que falava ter apressado o meu pai a me batizar logo de imediato porque nasci mirrado e doente. Somente depois de cinco ou seis anos foi que meu pai foi ao cartório me registrar porque a escala pedia o documento.
Depois de anos fui escarafunchar na Igreja e descobri ter nascido em 1946, conforme estava escrito pelo vigário no batistério, e não em 1947, como está na Certidão. Creio que muita gente da minha geração, que nasceu de parteira, nos cafundós do sertão, tem também a idade errada.
Quem sabia escrever, tinha o hábito de anotar o horário, dia e o ano numa página em branco da Bíblia, cujo livro “sagrado” não podia faltar numa casa. Nos tempos atuais, o Certificado de Batismo não tem mais nenhum valor.
Naquela época, o batismo era encarado como um ato de grande importância, e os padrinhos se sentiam no lugar de segundos pais. Hoje se tem mais como um preceito social para se fazer uma festa, sobretudo entre os ricos.
No entanto, entre os nordestinos, o batismo ainda é levado muito a sério, especialmente na zona rural onde os hábitos, os costumes e a cultura ainda são passados de avó e avó para os filhos e destes, como pais, para seus rebentos, embora muita coisa se perdeu no caminho.
Tanto o batismo como as manifestações culturais, infelizmente, perderam muito de suas caraterísticas com o grande êxodo rural para as cidades, a partir dos anos 50 e 60 do século passado, mas o ato de batizar permanece vivo, não importando a religião.
Como mais de 70% vivem na zona urbana, as mudanças advindas do progresso, e agora com os avanços tecnológicos, estão se encarregando de apagar com as tradições, apesar de muitas ainda permanecerem vivas. Tem gente que acha que elas vão se acabar por completo, mas não acredito nisso.
Vão continuar resistindo como o maracatu, o forró, o samba, terno de reis e outras expressões culturais, mesmo sofrendo algumas misturas. São como as antigas profissões de ferreiro, alfaiate, relojoeiro, amolador de facas, sapateiro, dentre outras, que ainda sobrevivem às novas tecnologias.