O FATOR SOCIAL NO CANGACEIRISMO
Com seu olhar mais antropológico sobre a questão do meio social no sertão nordestino, o médico e escritor Estácio de Lima, em sua obra “O Mundo Estranho dos Cangaceiros” descarta a teoria lambrosiana de que a criminalidade é nata em determinados indivíduos a partir de suas características físicas.
O médico assinalou que, diante da empola radiológica, as cabeças de Lampião, Maria Bonita, Corisco, Zabelê, Cangica, Azulão e mais outra Maria abatida em combate, não ofereceram o mínimo vestígio do chamado lombrosionismo. “Para sermos rigorosos, entretanto, diremos que Zé Baiano exibia traços morfológicos que se ajustariam à clássica descrição de Lombroso.
“Em resumo: O meio hostil feriu um homem abandonado, de atributos contraditórios, muitos deles grandes atributos, respondendo esse homem desordenadamente, às vezes cruelmente, exibindo sua alma cheia de primitivismo”. Nasceu assim o cangaceiro, o delinquente.
Outro ponto por ele contestado é que a miscigenação étnica nordestina, de acordo com certos estudiosos, tenha contribuído para o banditismo na região, no caso específico do cangaceiro, do jagunço e do pistoleiro. Estácio, no entanto, foca especialmente no problema da injustiça social, mesológico das secas na caatinga e de um judiciário protetor dos mais fortes e cego com os pobres.
“A Bahia conheceu, no século dezenove, assassino brutal, que estarreceu o Brasil. Houve, na época, a falsa interpretação de que o escravo Lucas da Feira era o que era, porque trazia, na epiderme, a pigmentação da melanina. Os seus atos refletiriam a “criminalidade dos pretos”.
Segundo o estudioso e pesquisador no assunto, o mestiço passou para alguns exegetas, a ser considerado um tipo em degeneração, sem possuir as boas qualidades, exibindo as más, ou deturpando as melhores. Pensadores, então, terminaram interpretando certos índices de incapacidade das nossas populações como resultante dessa mistura de sangues heterogêneos, colocando o negro como inferior.
Estácio destaca que essas interpretações falsas levaram a exageros, ou erros, em sentido contrário. “Os mulatos chegaram a ser endeusados”.
“Os irmãos Ferreira não se constituíram nos maiores cangaceiros do tempo, influenciados, fosse qual fosse a dose, por qualquer das nossas três raças básicas, ou pela conjunção de todas. Denotavam eles, na fisionomia, traços evidentes da tríplice convergência étnica… Não foi isso, todavia, que os levou ao banditismo… Mas toda uma série de fatores cósmicos, telúricos, sociais e biológicos”.
Na figura do caipira e do matuto nos sertões nordestinos, prossegue Estácio, percebe-se um esboço de definição racial. Como exemplos, cita o cangaceiro Saracura, tez morena, como a de Maria Bonita, cobreada, um tanto pelo sol, um tanto por discreta melanina, legado dos ancestrais, como também em Lampião.
“O cangaceirismo tem aquele aspecto – e não será fastidioso repeti-lo – de reivindicações, de protesto contra as desigualdades, de vingança face as injustiças, ou revide ante as extremas provocações”.
Sobre crianças que entraram no cangaço, Estácio analisa que seguiram nas hostes pela imitação, pelo espírito de aventura inerente à pouca idade, pela ideia de que aquilo era brinquedo divertido. “Não levaram protestos, nem objetivos predeterminados”. Quanto aos idosos, serviam para levar recados, sem contar a missão de rufiões pela metade.
O escritor de o “Mundo Estranho” também ressalta sobre o período de maior desenvoltura dos cangaceiros, entre 18 a 35 anos, em razão dos enfrentamentos das caatingas, dos embates com as volantes, da terra seca e da vida precária que levavam.
Os bandoleiros menos idosos passaram a observar que Lampião declinava quando atingiu os 40 anos. Vinha mostrando gradual pendor pela “sombra e água fresca”. Ainda era infernal, um grande satanás, porém, não mais o mesmo gênio dos malefícios quando ultrapassou os 35.
– Derna qui “o Padinho Pade Cirço” si mudou pru céu qui o cumpade Lampião passou a viver meio inculido! Estácio faz mapeamento da biotipologia do homem cangaceiro, como esguio, raramente baixo (um metro e setenta), pernas e braços finos, com relevos musculares ao nível do bíceps, magro, rosto comprido, barriga murcha e bacia estreita. Um leptossomático típico.
“Se o determinismo fosse diverso, uma educação apropriada interferisse, as condições do ambiente se mostrassem bem menos agressivos, o caboclo perduraria silencioso e esquivo, sem mergulhar, porém, no cangaço.











