AS INTERPRETAÇÕES DETURPADAS
Alguém aí poderia arriscar e quantificar o quanto por cento dos brasileiros entendem e interpretam corretamente os noticiários das mídias eletrônicas, especialmente as televisivas? Com uma dose de otimismo, eu ficaria com cerca de 5% e baixaria para 0,1% quando se trata de política, economia e outros assuntos na área técnica e jurídica. Estou sendo até condescendente.
É lamentável essa situação, mas é a pura realidade. Afinal, as pesquisas do IBGE dão conta que cerca de 30% dos nossos conterrâneos são analfabetos funcionais, isto é, não sabem ler e interpretar um texto de 10 linhas. Agora imagina esses fanáticos religiosos interpretando a Bíblia! Você queria mais o quê, carapálida?
Mais de 90% dos noticiários na televisão atingem apenas uma pequena camada, a não ser coisa de futebol, carnaval, crimes bárbaros e tragédias que ocorrem com os outros. São muitas informações em tempo real e poucos informados por causa do baixo nível de instrução, inclusive entre nossa juventude que prefere ficar com o celular na mão ouvindo fofocas, mentiras e besteiróis.
Na Rede Globo, por exemplo, (também em outros veículos) passam reportagens (matérias) sobre tramas de corrupção, economia, mercado de capitais e financeiro (Banco Master), temas técnico-científicos e processos jurídicos onde o repórter, ou comentarista, fica 10 minutos lendo longos textos, como se a cabeça humana fosse um computador para memorizar tudo. Tome “economês” e “juridiquês” nessas relatorias!
Quem tem nível intelectual mais elevado e até manja do assunto, fica zonzo e baratinado. Faz um esforço danado para entender a parafernália. Imagina os analfabetos e a grande maioria dos brasileiros incultos e sem o saber cognitivo!
– É um tormento, meu camarada, disse um colega meu certa vez enquanto batíamos um dedo de prosa sobre o jornalismo de hoje. Não é mais elucidativo, interpretativo e questionador. Por que não resume a informação e fala só do principal, numa linguagem mais simples? A tarefa de esmiuçar a notícia é função dos jornais e das revistas. Vamos ser mais objetivos, diretos e claros.
– Concordo, amigo, mas com a onda da internet, lá se foram os jornais, sem contar que somente uma pequena minoria, um tantinho assim, se presta à leitura e acha até que ler um periódico, ou um livro, é coisa de velho caduco atrasado. Estamos ficando cada vez mais burros e lelés da cuca! Só engrossa o número de ignorantes!
– É por isso que um monte de gente sai por aí interpretando as notícias de forma errada, sem considerar as fake news. Tem aqueles que ficam calados porque não entendem nada, mas existem os metidos a sabichões que saem arrotando coisa sem coisa. Ah, e quando tomam umas no boteco ou num bar, só falam asneiras! – Completou o companheiro, dizendo que já presenciou muita loucura.
– É aquela velha história, do sujeito ou sujeita, que ouve o galo cantar, mas não sabe onde. Quando era frequentador desses botecos já ouvi tantas “cargas d´agua”, e não adianta tentar corrigir porque o indivíduo vira bicho, uma fera que pode até lhe matar com uma faca ou um tiro.
Primeiro começa com ofensas pessoais, com xingamentos pesados e não deixa você abrir a boca. Vai dizer que, enquanto um burro fala, o outro fica calado, em silêncio! O elemento vai interpretar a frase ao seu modo e lhe manda um soco de nocauteador.
Muitas discussões terminaram em morte, que a imprensa depois classifica como motivo torpe. Melhor mesmo é ficar na sua ou tapar os ouvidos. Tem umas que são por demais hilárias, parecidas com as da escolinha do professor Chico Anísio, e até dão para desintoxicar o “figuerôa”! Um dos motivos pelo qual deixei de andar nesses lugares foi para não escutar baboseiras e absurdos.
Tem gente que mistura gato por lebre quando fala de política e faz um discurso que até impressiona ao ponto de receber apoio. Dia desse ouvi um cara sentado numa mesa falar para a mulher ao lado que não compra nada da China porque é um país comunista, não sabendo ele que, sem saber, consome medicamentos chineses.
Percebe-se que muitas das conversas não têm cunho político ideológico. É falta de capacidade mesmo em interpretar a informação. O cidadão ouve que o governo federal vai fazer um pente fino no Bolsa Família para detectar irregularidades e cortar os infratores. Ele sai espalhando que o programa vai ser cortado.











