:: nov/2025
AS SECAS E AS AGITAÇÕES POLÍTICAS FAZEM PROSPERAR O CANGACEIRISMO
Por séculos o flagelo das secas exterminou milhares de nordestinos. Nas retiradas para outros centros urbanos, centenas de crianças, mulheres e homens morriam de fome nas estradas. As cenas eram de horror, como em campos de concentração. Os governantes pouco fizeram para minimizar a situação.
Além das grandes secas, os nordestinos ainda eram acossados pelas agitações políticas e o cangaceirismo que, em bandos, aproveitavam para saquear feiras, povoados e pequenas cidades, principalmente nas primeiras décadas do século passado. O povo vivia abandonado à própria sorte diante da falta de estrutura e desorganização dos governantes para conter o banditismo.
As secas alimentavam o cangaço, que se juntava às disputas entre os chefes políticos e os coronéis, gerando uma onda de violência e mortes sem precedentes no Nordeste, que por séculos viveu isolado. A justiça era a lei do mais forte numa terra onde tudo se resolvia na base da bala, sobretudo entre os séculos XVIII, XIX e até meados do século XX.
O historiador e escritor Frederico Pernambucano de Mello, em sua obra, “Guerreiros do Sol” descreve esse panorama de miséria, fome, violência e sangue. Para quem não conhece sua história de lutas, sofrimento e abandono, simplesmente vê até hoje o nordestino como um povo atrasado.
O banditismo viveu seu apogeu nos períodos de desorganização social, especialmente em razão dos fenômenos das secas, com destaques para as de 1692, 1723/27, 1774/76, 1792, 1844/45, 1877/79 (a maior de todas), 1915, 1919/20, dentre muitas outras.
As secas, ao lado das agitações políticas e o cangaço, golpeavam as incipientes estruturas, reduzindo as famílias, que prosperavam em tempos de chuvas, em estado de miséria. As lavouras eram perdidas, o gado morria à mingua e os retirantes faziam suas procissões profanas. Era o salve-se quem puder.
Descreve o autor que no coice dessas ocorrências, certamente o cangaço de ofício se manifestava com intensidade redobrada. Fazendo um balanço dos efeitos da seca de 1877/79 (na verdade começou bem antes), Irineu Joffily, em “Notas sobre a Paraíba”, lembra que era geral a falta de segurança. Muitos fazendeiros eram obrigados a levantar forças para defesa de suas propriedades.
O transporte de gêneros era difícil, Caravanas atravessavam 50 e 60 léguas de sertão, levando cada homem às costas, 40 e até 80 litros de farinha, além de armas para repelir as investidas dos famintos e os ataques dos cangaceiros.
Destaca o estudioso no assunto que, em 1692, os indígenas foragidos pelas serras reuniram-se em grupo e caíram sobre as fazendas das ribeiras devastando tudo. Em 1725 e nas outras secas desse século repetem-se as depredações e assassinatos. As disputas políticas incentivavam a proliferação da aventura cangaceira.
Paralelo à seca de 1844/45, surge no Cariri cearense o bando dos Sereno, espalhando por três estados até a Chapada do Araripe onde também aparece os Xio. No meado do século passam a atuar os Guabiraba que se fizeram bandidos nas escolas de Pajeú de Flores. Durante os séculos XVIII, XIX e XX, o Pajeú se tornou numa universidade da violência e do cangaço. Com exceção de Jesuíno Brilhante (Rio Grande do Norte), de lá saíram os mais famosos como Lampião, Sinhô Pereira, Antônio Silvino, Antônio Quelé e tantos outros.
Os membros de os Guabiraba eram irmãos naturais da vila de Afogados da Ingazeira, no sertão pernambucano. De longe, Pernambuco liderou a criação de bandos na década de 20. Segundo historiadores, praticamente todos os dias aparecia um bando novo nos sertões nordestinos, destacando os estados de Pernambuco, Rio Grande do Norte e Paraíba.
Em 1878, no auge da grande seca, salteadores infestaram todo interior, como dos Quirino, em Milagres, sob a proteção de João Calangro que, de acordo com o escritor Rodolfo Teófilo, fazia guerra de extermínio aos grupos que se formavam sem o seu consentimento. Nesta época, existiram os Mateus, formados por cem homens, os Simplício, os Meireles, os Barbosa e Viriato, todos da zona do Pajeú.
Frederico de Mello aponta que, com a seca de 1919, o cangaceirismo profissional entrou em fase de vertiginosa expansão. Quando os esforços repressores começaram nos anos seguintes, veio a Coluna Prestes, em 1926, proporcionando aos bandidos ampla recuperação devido a desorganização das forças volantes.
O ano de 1926 se converteu no maior apogeu de toda história do cangaço, tendo Lampião como principal responsável, ainda como cabra dos Maltide e dos Porcino, bem como no bando de Sinhô Pereira. Depois ele formou o seu grupo sanguinário.
Entre as agitações políticas, Frederico de Mello cita a ‘guerra santa” de Juazeiro do Norte, em 1914, a passagem da Coluna Prestes, entre 1926/27, o clima social e político do Cariri, em 1901, com inúmeras lutas armadas. As duas primeiras décadas do século XX foram as piores.
Com base em fontes de jornais e pesquisadores, o autor da obra elenca todos os anos, como em 1907, quando o coronel Gustavo Lima depõe à bala o próprio irmão Honório Lima, assumindo o comando político do município de Lavras.
Em 1909, os chefes políticos de Milagres, Missão Velha, Barbalha e outros municípios próximos reúnem mil homens para atacar o coronel Luis Alves Pequeno, do Crato. Em 1823 é assassinado, em Fortaleza, o coronel e então deputado estadual Gustavo Lima. Em 1928, o chefe político de Missão Velha, Isaias Arruda, é assassinado no trem.
Para acabar com toda essa guerra, em outubro de 1911, aconteceu um curioso encontro com vista a se firmar um pacto de paz, em Juazeiro. O Padre Cícero procurava harmonizar os conflitos dos coronéis que dominavam o Cariri.
O documento ficou conhecido como “pacto dos coronéis”, com duas clausulas principais. A primeira dizia que nenhum chefe procurará depor outro. A outra era que cada chefe, por ordem moral política, terminaria a proteção a cangaceiros, ou seja, não seriam mais coiteiros.
Nem bem secara as tintas, o Padre Cícero, mentor do pacto, derruba o Governo do Ceará, em 1914. Os coronéis fizeram o contrário. O documento foi letra natimorta. Por mais trinta anos vigorou a lei do mais forte.
O PLANO DE CULTURA QUE QUEREMOS
Será que desta vez sairá mesmo o Plano Municipal de Cultura de Vitória da Conquista, tão almejado há anos pelos artistas? Ou será um mero ensaio, como na última conferência realizada no final de 2023, no Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima? Cadê o relatório dessa conferência de dois dias?
Quando fui presidente do Conselho Municipal de Cultura, de 2021/23, foi uma das minhas bandeiras, mas foi travado por diversas vezes pela Secretaria de Cultura junto ao executivo. Houve até entendimentos com o Sabre no sentido da sua elaboração, só que nem ocorreu a primeira reunião marcada entre seus membros.
Bem, tudo isso do passado não nos importa mais. Agora a Secretaria vem procedendo chamamentos para escuta dos artistas e fazedores de cultura, com vista à elaboração desse Plano. Será apenas um factoide para que os artistas esqueçam do fechamento dos equipamentos culturais do Teatro Carlos Jheovah, Cine Madrigal e Casa Glauber Rocha?
Vamos colocar mais um voto de confiança, mas a pergunta que não quer calar é como será feito esse Plano? Qual Plano que queremos? Não posso responder por todos, mas antes de tudo, que seja democrático e abrangente a todas linguagens artísticas, não deixando de lado a nossa cultura popular, aquela das periferias e da zona rural.
Queremos um Plano que seja aprovado pela Câmara de Vereadores e se torne lei orçamentária, cujos projetos nele estabelecidos se tornem parte do nosso calendário cultural e sejam cumpridos pelos prefeitos, como por exemplo, realização de uma feira literária, salão de artes plásticas, festivais de música, dança e teatro, além do Natal e do São João autêntico, do tipo pé de serra.
Não queremos um Plano de faixada que fique apenas no papel onde o prefeito, ou a prefeita, não tenha obrigação de executá-lo. Queremos um plano com um olhar mais focado na juventude, principalmente das periferias, com a criação de núcleos culturais nessas comunidades. Queremos um Plano onde seja criada a Fundação Cultura que irá administrar e fixar as diretrizes da política pública cultural.
Queremos um Plano que agilize a abertura dos equipamentos culturais, para que os artistas possam usufruir desses locais para realização de seus ensaios e espetáculos. Vamos criar o Plano e deixar esses equipamentos fechados?
Acima de qualquer coisa, queremos um Plano bem estruturado que venha revitalizar a nossa cultura e que esteja à altura da cidade, a terceira maior da Bahia com cerca de 400 mil habitantes. Portanto, temos que pensar alto porque a nossa cultura está abandonada.
Não adianta todo esse esforço para construir um Plano que depois venha ser engavetado nos gabinetes dos prefeitos, daí a importância dele vir a ser aprovado como projeto-de-lei pela Câmara Municipal de Vereadores. Sem esse aval, este Plano estará fadado a ficar apenas na escrita, como um documento qualquer.
FICA MAIS CLARO NO ESCURO
(Chico Ribeiro Neto)
Faltou luz hoje no meu prédio. Vai ser das 8 às 18 horas, para trocar a central de energia.
Aí lembrei que, ainda pequeno (6/7 anos) peguei o sistema da “luz do motor” em Ipiaú (BA), onde nasci. A luz desligava às 21 horas e só voltava na manhã do dia seguinte.
Tava na hora de acender os candeeiros, um na cozinha, um na sala e cada um num quarto. Havia também o famoso “Aladim”, que alumiava a casa toda, mas nem todo mundo tinha condição financeira de ter. O “Aladim” tinha uma tal de “camisa” que quando queimava a gente tinha que ir correndo comprar outra. O rádio continuava tocando, porque era ligado a uma bateria de carro, e a geladeira continuava funcionando, pois era movida a querosene.
As crianças adoravam quando faltava energia, principalmente quando tio Rubens contava histórias de assombração. Também era hora de fazer figuras com as mãos diante da vela que projetava as sombras na parede. O bicho mais fácil de fazer era o cachorro, mas tinha quem sabia fazer gato, coelho, caranguejo e até dinossauro.
Houve um tempo também em que, durante uma semana, só tinha luz à noite em metade da cidade, ficando a outra metade para a próxima semana, num rodízio do breu. Meu pai Waldemar tinha padaria e, na semana em que faltava luz na nossa metade, ele dava pra gente umas cédulas que passavam na padaria, daquelas “pedaço de um, pedaço do outro” (as melhorzinhas) e mandava a gente ir na sorveteria logo depois que a luz era desligada. A gente ia com uma panela, enchia de picolés, dava o dinheiro ao atendente que estava à luz de velas, e se picava.
Teve o caso de Zé, um homem casado, que morava numa outra cidade do interior da Bahia que também tinha “luz de motor”. Ele foi no brega e depois de várias “pingas” e uma bimbada, agarrou no sono.
As lâmpadas da casa piscavam três vezes, às 20:50, para avisar que dentro de 10 minutos a luz seria desligada. Mas Zé a essa altura não piscava mais nada. Quando acordou, às 23 horas, deu um grito de espanto: “Vixe, a luz já foi embora! Preciso ir pra casa”. Chegou em casa, a mulher roncava e ele, morto de sono, só fez tirar a calça e apagou na cama. Acordou cedo com os gritos da mulher: “Zé, que diabo é isso? Tu tá de calçola?” Na pressa de sair logo do brega, ainda grogue da cachaça e já agoniado, no escuro total que nem breu, Zé vestiu a calçola de algodão da prostituta. E admitiu logo que era coisa do Demo: “Vixe, mulher, só pode ser feitiço! Eu juro que deitei de cueca! Isso é arte de alguém que quer ver a gente separado. Vixe, não pega não, mulher! Faz mal! Temos que tocar fogo logo nisso!”
A mulher de Zé, que morria de medo de feitiço do Diabo, levou a calçola na ponta de uma vassoura para o quintal. Se benzeu 3 vezes e tocou fogo na calçola do Capeta, Zé rezando do lado. Jogou a vassoura novinha no lixo e rezou três Pai Nosso.
Já adulto, na Redação do jornal A Tarde, faltou energia uma noite e um colega deu uns gritinhos finos e histéricos. O saudoso poeta Béu Machado arrematou: “É no escuro que as coisas ficam mais claras”.
(Leia crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)
O ANTIGO E O MODERNO
No bico da pena, o grande artista das pegadas nordestinas, no sabor da vida simples dos sertões, Silvio Jessé nos apresenta uma exposição inédita que retrata o antigo e o moderno dos 185 anos de emancipação de Vitória da Conquista. Vale a pena visitar seus trabalhos que estão no “Memorial” da Câmara Municipal de Vereadores. A partir da visão do príncipe alemão Maximiliano, que visitou o arraial da Conquista, por volta de 1917, Jessé nos presenteia com belos quadros sobre a cidade antiga e a moderna, mostrando sua evolução nos tempos. Sua sensibilidade ultrapassou fronteiras entre o regional e o internacional, com pinturas encantadoras e realistas sobre o nosso sertão nordestino. Ele tem um olhar artístico que faz a pessoa penetrar em suas paisagens, de tão reais que são.
Como o pintor espanhol Pablo Picasso que retratou os horrores da guerra civil espanhola e as atrocidades do ditador Franco, o nosso artista conquistense Silvio Jessé pincela, em outras obras, os sofrimentos dos sertanejos diante da seca e da omissão dos políticos e governantes em resolver os problemas do homem do campo. Sílvio é o Picasso do sertão, embora com outras formas, linhas e estilos modernistas.
Lembro como jornalista de uma entrevista que fiz há muitos anos sobre o trabalho de Silvio onde ele recordava da sua infância numa fazenda do município de Vitória da Conquista. Dizia que foi ali que começou a aprender a pintar, usando a terra e olhando as pessoas, seus costumes e hábitos. Tudo isso é vida e pura poesia que transborda da alma.
Como escreveu a curadora Ester Figueiredo sobre sua última exposição no Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima, com o tema “Sertão Colorido Quanto Preto e Branco, obras inspiradas no grande fotógrafo Evandro Teixeira (saudades do amigo que se foi), Silvio Jessé é tudo isso, expressão maior do seu tempo de moleque travesso na roça.
QUEM VIVER, VERÁ…
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
É o início do fim,
Quem viver, verá
Subirem as águas do mar.
Cidades serão inundadas,
Quem viver, verá
Capitais sairão do radar.
Os escombros da terra,
Quem viver, verá
A poluição apagar o luar.
Toda geleira vai derreter,
Quem viver, verá
Os viventes tombarem sem ar.
As florestas vão deixar de existir,
Quem viver, verá
O solo deserto salgar.
Ventos, raios e furacões,
Quem viver, verá
Ranger de dentes e chorar.
A luxúria do consumismo,
Quem viver, verá
O planeta de lixo se lixar.
Enchentes, secas e fome,
Quem viver, verá
Não se ter mais nada pra comprar.
As quatro estações do ano,
Quem viver, verá
Não haverá mais tempo pra plantar.
Os poços do óleo petróleo,
Quem viver, verá
Não terão mais energia pra jorrar.
O rico vai ficar pobre,
Quem, viver, verá
Todos vão se igualar.
Os segredos vão ser revelados,
Quem viver, verá
E o amor vai perdoar.
Seus desuses não vão mais te olhar,
Quem viver, verá
Não adianta mais orar.
Sem mais abelhas pra florar,
Quem viver, verá
Não terão mais flor a polinizar.
A noite vai virar dia,
Quem viver, verá
É o aquecimento solar.
Quem sabe as trevas!
Quem viver, verá
Sem mais tempo pra clarear.
Não mais cientistas pra alertar,
Quem viver, verá
Porque não tem mais nada pra profetizar.
NOVO EMPRÉSTIMO É UM “SUICÍDIO”
Com base nos endividamentos posteriores de governos passados, a começar pelo do ex-prefeito Hérzem Gusmão, o advogado e contabilista Marcos Adriano declarou ontem (dia 26/11), durante sessão ordinária da Câmara de Vereadores de Vitória da Conquista, que um novo empréstimo de 400 milhões de reais, pretendido pelo poder executivo, é um “suicídio”, comprometendo as finanças do município.
Segundo ele, a receita que era de 600 milhões de reais, passou para mais de um bilhão com o aumento de impostos da população, que também cresceu. “Ao longo dos últimos anos, o endividamento só tem aumentado e um novo empréstimo não é necessário. Um novo empréstimo só vai elevar a dívida mais ainda”.
Em sua fala na tribuna livre da Câmara, Adriano aproveitou a ocasião, para pedir prudência aos parlamentares na concessão de novos empréstimos solicitados pelo executivo. Alertou que este empréstimo para aplicação em obras de infraestrutura é um “suicídio”.
Antes da sua análise técnica sobre essa questão e da aprovação dos projetos do legislativo e do executivo, como a criação da Secretaria de Segurança Pública e Defesa Civil e da Nova Lei Orgânica do Município, a Casa, tendo como presidente Ivan Cordeiro, concedeu diversas moções de aplausos.
Além do Esporte Clube de Vitória da Conquista e do ex-jogador Pena, pela formação de novas parcerias, a Câmara homenageou o Hospital Afrânio Peixoto pela instalação de um laboratório de tratamento de crianças que nascem com a doença de queimaduras no corpo e o Hospital de Base pela ampliação da sua unidade com novos equipamentos.
Também foi homenageada a médica Rosa Aurich pela realização, no início deste mês, no Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima, do evento Economia Solidária, privilegiando a participação de artesãs e expressões culturais. Coube ainda uma moção de aplausos aos pastores evangélicos da cidade, com destaque para a Marcha com Jesus.
Durante a sessão, todos vereadores presentes fizeram seus pronunciamentos da tribuna legislativa. Andreson saudou os agricultores familiares que estão satisfeitos com as chuvas e elogiou a obra estadual de pavimentação da estrada que liga Conquista a Bate-pé. Informou sobre a vinda do governador a Conquista, nesta sexta-feira, quando anunciará a construção e conclusão de diversas obras, inclusive em Iguá, onde será inaugurada a nova praça do distrito.
Bibia defendeu o empréstimo de 400 milhões solicitado pela prefeita Sheila Lemos, para construção de obras nos bairros de Conquista. Ele acha que o vereador contrário está cometendo um crime contra ele mesmo. O empréstimo é importante para o crescimento da cidade e a atração de novos investimentos – ressaltou.
A parlamentar Cris Rocha falou sobre seu trabalho na zona rural, como sistema de abastecimento de água na Taboa e região. Na ocasião, agradeceu o apoio da Cerb e da administração da Prefeitura Municipal. A vereadora parabenizou também as obras realizadas pelo Governo do Estado, como o asfaltamento da estrada para o distrito de Bate-pé.
Entre outros, falou o vereador Edivaldo Ferreira, ao defender o empréstimo de 400 milhões de reais, assinalando que o Governo do Estado está também querendo um empréstimo de mais de 600 milhões e não se tem feito alardes como está ocorrendo em Conquista. Disse que o limite de endividamento é pequena, não impedindo que se faça novos empréstimos.
AS MÁS LÍNGUAS VERBAIS E VIRTUAIS
Tem coisas e profissões que nunca deixam de existir, mesmo com o avanço das novas tecnologias da internet e agora com a inteligência artificial, uma arma poderosa de destruição quando a serviço do mal.
Dizem que a atividade mais antiga da humanidade é a prostituição, hoje modernizada pelos “programas sexuais”, aceitos com outros olhos pela falsa sociedade. Apesar do moderno, sempre vai existir um alfaiate, um sapateiro, um relojoeiro, um amolador de facas e tesouras num povoado ou numa cidade, pequena ou grande.
O mesmo acontece com as más línguas, aquelas que não param de fofocar e falar da vida alheia e esquecem da sua própria. Estão no cerne da natureza humana, desde os tempos primitivos e nas antigas civilizações. Tem gente que adora uma fofoca e ainda diz que sabe guardar segredo. “Pode falar amigo, ou amiga, que minha boca é um túmulo”.
Ainda prefiro as primeiras, as falas verbais, do que as virtuais, estas através de textos de português assassinado, hoje propagadas nas redes sociais que fazem aquele estrago danado nas vítimas em termos emocionais psicológicos e atingem um universo de milhares e até de milhões de navegadores. As virtuais são mais agressivas e mortais.
A falada verbalmente, ou a tradicional, tem a boa e a má, mais conhecida como fofoca, fica mais restrita a uma comunidade ou a um grupo mais fechado, a não ser quando alguém comete um crime grave que se alastra para outras redondezas.
Quem não comete o “pecado” de falar de alguém, seja elogio ou crítica negativa que levante a primeira pedra! Algumas línguas são ferinas e maledicentes, caluniosas e difamatórias, outras menos ofensivas e até hilárias.
No ambiente de trabalho, tanto uma como outra, as línguas são traiçoeiras e falsas por causa da competição. É um querendo passar a rasteira no outro por detrás. Pela frente são rasgos de elogios. Não faltam vítimas e vilões, se bem que ainda existem os éticos e sérios.
Numa rua, num bairro ou num vilarejo, lá está a língua a bradar. Coisa é quando um vizinho, morador próximo, ou um “amigo” compra um carro novo, um bem material caro e um objeto de valor!
Dizem logo que a pessoa está roubando, recebendo suborno, e aí bate aquele olho grande invejoso. Melhor procurar uma rezadeira (ainda existe) ou tomar um “banho de descarrego”, senão as coisas começam a dar para trás.
Por falar em más línguas, quem não se lembra ou conhece o famoso “Senadinho” (ainda funciona) que fica ali na Praça Barão do Rio Branco, em Vitória da Conquista? Dizem que toda cidade e até o meio rural tem seu “Senadinho” das fofocas.
Contam as más línguas que o grupo sabe da vida de todo mundo, quem deve, está falido, adquiriu veículo de luxo e não está pagando as prestações, quem traiu quem ou quem está prevaricando. Quando passo por ali, meu nome entra na lista. Pouco importo.
Quando as comadres e os compadres param numa calçada ou em algum banco de jardim, penso logo que estão falando de alguém. Falem mal, mas falem de mim – existe este bordão popular de quem aprecia ser lembrado de qualquer maneira. Pelo menos seu nome não fica esquecido.
As mais constrangedoras e aniquiladoras que detonam as almas dos seres humanos e arrasam reputações em termos moral, psicológico e social são as más línguas virtuais, escritas no mundo das redes sociais, ou as cibernéticas em forma de bullying (intimidação sistemática).
Estas línguas são como labaredas de altas queimaduras e seus donos geralmente usam máscaras ou perfis diferentes, mais difíceis de serem identificados. As verborreias caluniosas e difamatórias atingem um público de milhares e milhões de visualizações. A maioria dos internautas de plantão têm o prazer sádico de passar as injúrias para frente.
Oh, Senhor, livrai-nos das más línguas ferinas verbais e virtuais! Perdoai-vos porque não sabem o que falam. Nos proteja de todos os males que saem das bocas desses infelizes. Nos ilumine e iluminai as mentes rancorosas para que se voltem para o bem!
Não sou nenhum indicado para formular preces, daquelas de fechar o corpo contra facas e balas, mas faça sua oração, ao seu modo, todos os dias antes de se deitar. Quem sabe você não se livrará das más línguas afiadas como navalhas ou perfurantes como punhais que cortam dos dois lados! Amém, Senhor!
NOVA LEI ORGÂNICA DO MUNICÍPIO
Nesta quarta-feira (dia 26/11) está prevista a votação da redação final da Nova Lei Orgânica do Município, na sessão ordinária da Câmara de Vereadores de Vitória da Conquista, que tem ainda como pauta projetos do legislativo, como o que declara o Festival Suíça Baiana como Patrimônio Cultural Imaterial do Município.
Nos debates, deverão ser ainda votados pelos parlamentares o Programa Municipal de Educação e a Violência contra a Mulher ´”Basta”, bem como o que altera a idade mínima para a gratuidade no sistema de transporte coletivo.
Ainda de iniciativa da Câmara, entrará em pauta a discussão do projeto que propõe atendimento prioritário aos corretores de imóveis devidamente inscritos e regulares no Conselho Regional de Corretores de Imóveis em todos os órgãos e repartições da Administração Pública Direta e Indireta. Na verdade, isso já vem acontecendo na prática.
Da parte do poder executivo, os vereadores vão discutir os projetos que alteram o Código Tributário e de Rendas e o que muda a regulamentação da Contribuição para Custeio dos Serviços de Iluminação Pública e Modernização Urbana.
Também será lida a mensagem ao Projeto de Lei Complementar de número 34/2025, que cria a Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social, estabelecendo sua estrutura organizacional. Serão apreciados também os projetos que instituem o Fundo Municipal de Segurança Pública, o que cria o Conselho Municipal de Segurança Pública. A guarda municipal será submetida à estrutura da nova Secretaria a ser instalada, em Vitória da Conquista.
O NAMORO E O AMOR DAS ANTIGAS
Só os mais velhos lembram e sabem como era o namoro e o amor das antigas, isto até as primeiras décadas do século passado, principalmente nas pequenas cidades e nos cafundós do sertão.
As donzelas não saiam de casa porque os pais não deixavam e, numa oportunidade qualquer, ficavam das janelas olhando os rapazes passarem. Nas brenhas rurais, praticamente ficavam nas cozinhas com as mães. Eram bem mais oprimidas pelo pai, o chefe patriarcal que não queria ter uma filha difamada na boca dos outros.
Muitas não aguentavam a “prisão” e fugiam com o primeiro namorado. Por aquelas redondezas dos povoados e cidades, ainda menino, ouvia muito aquele falatório de que “João roubou Maria na calada da noite, na garupa de um cavalo e caíram no mundão do meu Deus”.
Ai de quem se atrevesse desonrar uma virgem! O cabra era obrigado a se casar com uma peixeira ou um trabuco nas costas. Tinha que dar o sim no altar. Uns pegavam “os panos de bunda” e fugiam para São Paulo. Era o maior desgosto dos pais ter uma filha desonrada. Quem tinha posse pagava um pistoleiro, ou o próprio ofendido mandava a alma do sujeito pros quintos dos infernos.
Havia coronel e roceiro tão brabos que os homens tinham medo de se aproximar da filha ou das filhas, que começavam a ficar para titia. No século XIX ainda era pior, quando o pai era quem escolhia o marido, e a noiva só o conhecia na hora do casamento, muitas vezes era um velho caquético caindo aos pedaços, porque tinha uma boa herança para deixar.
Eram os casórios arranjados e muitas diziam que não gostavam do indivíduo tabaréu, meio troncho e desajeitado. O lamento sempre era ouvido pela mãe, que consolava a filha chorosa pelos cantos porque se engraçou por outro mais simpático.
– Calma, minha filha, a vida é assim mesmo, você casa, vai se acostumando e, com o tempo, vem o amor. “Foi assim com seu pai. Hoje já tem mais de 30 anos que nos casamos”. Ah, casamento era para sempre, mesmo no sofrimento e na dor. O que Deus uniu não se separa.
Pois é, mas os tempos foram mudando e o namoro de pegar na mão e ficar mais perto um do outro foi chegando, só que com um acompanhante do lado, espiando tudo.
Era a mãe, uma tia, uma avó ou um irmão, que ia junto à praça comer pipoca, visitar um parente ou outro lugar. Nada de beijo, mas num vacilo – dava-se jeito para tudo -, os dois começavam a se esfregar. No atraca-atraca, o cara até ejaculava na calça ou na cueca. Não era mole, não!
Com a evolução, as moças ficaram assanhadas e esse negócio de donzela foi ficando para trás. Mesmo assim, ainda eram os homens que tomavam a iniciativa, insistiam e chegavam juntos. Os introvertidos e os tímidos eram os mais cobiçados com os olhares. Nem se falavam em assédio sexual, que virou crime.
O macho fazia de um tudo para ir às vias de fato, mas a virgindade ainda era um tabu para a maioria das moçoilas de família. A religião dizia que era pecado dos graves. No sentido intuitivo, o comportamento dos animais silvestres para pegar a fêmea é bem parecido com o do homem. Ambos ficam engabelados e abrem suas “asas” para impressionar o lado feminino.
– Não insista, sou dou a “periquita” depois de casar – endurecia a jovem, mesmo com o corpo pegando fogo na base do beijinho, beijinho e no agarra, agarra. Ufa, não era fácil aguentar a tentação! Algumas terminavam dando mesmo. Depois eram outros quinhentos!
Conheci um amigo de longas farras que se apaixonou por uma loiraça bonita, que garantia para ele que era virgem, apesar das “bocas pequenas” comentarem o contrário. Ele preferia confiar nela.
Casaram-se com juras de amor e programaram uma noite de núpcias, ou lua de mel, num hotel. Foi lá que o noivo descobriu tudo e fez aquele escândalo e, decepcionado, partiu para o maior porre de sua vida.
Nos dias atuais, não existe mais essa do homem tomar a iniciativa. As mulheres ficaram mais decididas e partem logo para o “vamos ver”, sem aquele namoro das antigas. Em muitos casos, o amor à primeira vista termina no motel. Com o crime de assédio sexual, os homens ficaram mais retraídos e alguns são até chamados de frouxos.
O intervalo entre o primeiro beijo e o casamento ficou bem mais curto. No altar, ou no civil, são aquelas juras de amor, de serei fiel na alegria e na tristeza, na pobreza e na riqueza, na saúde e na doença até que a morte nos separe.
Em muitos casos, em pouco tempo, lá vem a separação. Cadê aquelas juras sinceras de amor? Como na canção de Raul Seixas, tudo não passa de falsidade. Basta um ficar na pobreza ou ter um entrevero, que o outro dá no pé.
Esta de até que a morte nos separe me faz lembrar do poeta boêmio Vinícius de Morais, de que o amor é eterno enquanto dura. No amor das antigas, os casamentos eram mais duradouros, se bem que por diversos motivos de ordem religiosa do juramento, da mulher não ficar falada na sociedade, dentre outras razões, inclusive por amor, depois de longa vivencia.
Até hoje ainda não existe aquele casamento de faixada ou de aparência, onde os dois dormem em quartos diferentes, mais para não ter que dividir os dotes? De qualquer forma, viva o amor, mesmo que seja passageiro, moderno ou das antigas.
MEIO DE VIDA, VINGANÇA E REFÚGIO NO CANGAÇO NORDESTINO VIOLENTO
Além das fases endêmica e epidêmica entre os séculos XIX e o XX, o historiador Frederico Pernambucano de Melo, de “Guerreiros do Sol” aponta três características principais do cangaço nordestino, quais sejam o do meio de vida (o cangaço profissional), o da vingança e o do refúgio. Em cada um deles existem suas diferenças, como a indumentária, porte de armas, comportamento ético e duração.
Fora a oralidade, com seus boatos e falácias, muitos estudiosos se debruçaram sobre o assunto de ordem antropológica, acadêmica e psicológica. A literatura é vasta e o tema é empolgante porque chamou e ainda chama a atenção nacional e até internacional através de viajantes da época. A mídia impressa deu larga cobertura, muitas vezes de forma sensacionalista, tendenciosa e distorcida.
Para Mello, existiram dois grandes fatores de estímulo ao cangaço. Um de natureza sociológica e outro de feição mesológica, de forma imediata, mas com profundas repercussões sociológicas que foram as lutas de famílias e as secas. Estas últimas acarretaram a proliferação do cangaço profissional. A luta entre famílias armou o palco para o cangaço de vingança.
Vamos, então, ao que mais nos interessa nessa história, que deve ser cada vez mais estudada e pesquisada para que não fique na base superficial das contações de casos e causos. A lista de autores é enorme e as leituras são fascinantes. A questão precisa ser cada vez mais esmiuçada para entendermos melhor o fenômeno.
MEIO DE VIDA, VINGANÇA E REFÚGIO
O cangaço meio de vida foi um tipo de maior frequência, classificado como banditismo de profissão, tendo como principais representantes os cangaceiros Luis Mansidão, Silvino Ayres Cavalcanti de Albuquerque (século XIX), Antônio Silvino (1897-1914) e Lampião (1916-1938).
O cangaço de vingança ocorreu com menor frequência, embora suas características de banditismo, mais ético, emprestou uma imagem de destaque, principalmente literário. Sinhô Pereira, Luis Padre e Jesuíno Brilhante foram seus principais representantes.
O cangaço-refúgio foi um tipo de menor expressão. Caracterizou-se pela riqueza da estratégia defensiva. Seu maior representante foi Ângelo Roque, que manteve seu próprio grupo e depois se aliou ao bando de Lampião. Esses bandidos não chegaram a ser chefes e foi um cangaço de vigor mediano.
Os dois primeiros, o profissional e o de vingança, possuem características discrepantes entre si, com formas criminais distintas, mas com o mesmo rótulo de cangaço. O meio de vida obteve maior poder, notoriedade, fama e ganhos patrimoniais de ideal burguês.
Tanto Lampião, como Antônio Silvino, entraram no cangaço com o pretexto de vingança, mas depois foram deixando essa finalidade de lado e incorporaram o banditismo como negócio. Numa entrevista jornalística a um jornal do Nordeste, perguntado se ele deixaria o cangaço, Lampião devolveu a indagação como outra. Você deixaria um negócio que está dando certo e bons ganhos?
No entanto, Lampião viveu episodicamente períodos de vingança, como contra o cangaceiro Tibúrcio Santos, o Negro Tibúrcio, em 1924. Sinhô Pereira também praticou saques, em 1919. Nos tempos atuais, registra-se a extinção do cangaço meio de vida, bem como o do refúgio, quando o perseguido pela polícia se esconde num bando. Porém, ainda de forma esporádica, existe o de vingança.
O homem da vingança entregava-se por completo à missão moral de dar fim aos inimigos de sua família ou clã. Era um obcecado, consciente do papel destrutivo. “Se no primeiro destes, a adesão espontânea floresce num indivíduo integrado ao ofício a que se dedica, no segundo vamos encontrar um homem violentado em seus desejos de realização pessoal agindo sob coação moral irresistível, e que em seus gestos revela sua inadaptação à vida que leva” – assim analisa Frederico de Melo.
Segundo ele, o envolvido na missão de vingança vivia angustiado por sua busca obsessiva. Não encontrava na vida do cangaço os prazeres e atrativos que tanto prendiam o cangaço meio de vida como amantes desse tipo de existência a seu modo epopeico.
O interesse guerreiro-vingador reflete em sua vestimenta, restringindo o equipamento ao necessário e funcional na guerrilha. Não há estrelas nos chapéus dos vingadores. Nada de testeiras e barbicachos ornamentados em moedas de ouro, nem bornais bordados em policromia, a ponto de fazer desaparecer o brim grosso de que eram feitos. Os registros fotográficos provam isso, com clareza – aponta Frederico Pernambucano.
Muitos anos após deixar o cangaço, Sinhô Pereira disse ao Jornal do Brasil, edição de 26 de fevereiro de 1969: “Eu pessoalmente nunca gostei de enfeites. De bons apetrechos, sim. Cartucheiras de duas camadas, cinturões de revólver com duas carreiras de balas, e nada de espelho e moedas adornando chapéus”.
No caso de Lampião, as fotografias se inserem no quadro do cangaço profissional como negócio. No início se dedicou ao cangaço de vingança nas disputas contra os Nogueiras e José Saturnino, em Pernambuco, e José Lucena (matou seu irmão caçula João Ferreira), em Alagoas. Depois se acomodou no profissionalismo aventureiro, “em processo de transtipicidade”.
O Lampião da década de 30 enfeitava-se dos pés à cabeça. As estrelas de ouro e pedras preciosas apareceram e aumentaram. Essas estrelas ficaram maiores em 1936 e enormes em 1938, ano da sua morte, na gruta Angicos (Sergipe). Sua conduta divergia do vingador. Procurava ser documentado com seus riquíssimos trajes de guerra. Deixou-se filmar em 35mm, no ano de 1936.
Sinhô Pereira e Luis Padre evitavam ser fotografados com armas. Pousavam apenas em trajes civis. O comportamento dos vingadores era contido, com os chefes reprimindo os crimes sexuais e só permitindo expropriações em casos de necessidade.
Sobre os vingadores, o escritor José Américo de Almeida falou ser o destino de Jesuíno Brilhante, assassino por vingança, distribuindo os víveres dos comboios que atacava aos famintos da seca de 1877 e matando um de seus mais valentes, o escravo José, porque tentara violentar uma mulher.
Os vingadores dependiam das finanças de suas famílias que perderam seus bens. Sinhô Pereira disse uma vez que tinha terra e gado. “Vendi tudo barato para cuidar da vingança”. Os cangaceiros dos negócios se mostravam prósperos e autossuficientes. Viviam na opulência. Existem vários exemplos e testemunhas de cangaceiros que comprovavam isso.
Pernambucano de Mello destaca o nível de coesão entre esses dois grupos. Mais forte entre os vingadores, fraco entre os rapinadores, em cujo seio as deserções frequentes impunham rotatividade elevada e permanente atenção de seus chefes para com a atividade de recrutamento.
Sobre esta questão, o ex-cangaceiro Miguel Feitosa descrevia sobre o enxovalhamento dos cabras novos. Nos embates com as volantes, seus chefes gritavam seus nomes para que ficassem conhecidos dos comandantes das tropas, para dificultar-lhes um possível regresso à vida pacífica.
Quanto às origens sociais, o cangaço profissional vinha de uma origem humilde da classe média baixa de famílias não tradicionais. Os da vingança originavam-se de famílias importantes. Sinhô Pereira e Luis Padre eram netos do barão do Pajeú e descendentes de um comendador da Ordem da Rosa, do Primeiro Império. O cangaceiro Cindário pertencia à família Carvalho, do Pajeú pernambucano. O potiguar Jesuíno Brilhante chamava-se Jesuíno Alves de Melo Calado, título senhorial.
O autor de “Guerreiros do Sol” ainda descreve os aspectos existentes entre os grupos. No ponto de vista de duração no cangaço, Lampião e Antônio Silvino atuaram, respectivamente, 22 e 19 anos. Os vingadores mal atingem o lastro. Sinhô Pereira, vingado, retira-se após seis anos. Seu Primo Luis Padre, cinco anos. Pouco tempo também tiveram Cindário e Jesuíno. Quem quer vingar parte para cima do inimigo e mata (Sinhô Pereira) ou morre (Jesuíno).
Outro aspecto se refere ao campo de atuação. Lampião e Silvino percorrem sete a quatro estados da região ao longo de suas carreiras, sempre em busca de novas praças a explorar. Sinhô não foi além de três estados. O mesmo vale para Luis Padre. Jesuíno fez-se cangaceiro no Rio Grande do Norte, vindo a tombar morto no Brejo de Cruz (Paraíba) pelo seu pior inimigo, Preto Limão. Cindário jamais “navegou” além do seu Pajeú.
O último aspecto analisado é a presença de mulheres, mais no sentido existencial. Só no cangaço meio de vida foi permitido a entrada de mulheres como auxiliares não-combatentes, mais como vida do homem amado e de valquírias, após a morte deste. As mulheres ficaram praticamente restritas ao bando de Lampião.
“Em meu tempo não havia mulheres no bando. Mulher só trazia consequências, dividindo homens, fazendo o grupo brigar por ciúmes. Ninguém andava com mulher” – afirmou Sinhô Pereira. No cangaço vingança e refúgio só haviam privações. Somente a rapadura, farinha e a carne, como essenciais. Queijo, bolacha e doce quando se adquiria nas bodegas.
De acordo com Frederico Mello, mesmo no cangaço meio, as mulheres foram fator de desagregação e conflitos internos. Dizem que Lampião, após se apaixonar por Maria Déa Oliveira, a Bonita, (Santinha para ele), não foi mais o mesmo, como confirmou o cangaceiro Balão. “Enquanto não apareceu mulher, Lampião brigava até enjoar. Depois, diante do perigo, pedia para correr”.
Depois de Lampião, os chefes dos subgrupos fizeram o mesmo e os bandos foram ficando cheios de mulheres. À exceção de Dadá, final de 39/40, quando Corisco ficou com o braço quase inutilizado por uma rajada de metralhadora, as mulheres não combatiam, prestando serviços domésticos e procriando. As mulheres assinalam o início do processo de decadência guerreira, com uma vida mais sedentária.
O cangaceiro Balão dizia que homem de batalha não pode andar com mulher. “Se ele tem uma relação, perde a oração, e seu corpo fica como uma melancia onde qualquer bala atravessa”.
Um fato interessante é que no auge do cangaço, entre as décadas de 20 e 30, os jovens faziam apologia ao banditismo, àquela vida de aventuras, inclusive entre os mais ricos, filhos de fazendeiros e chefes políticos. Muitos chegaram a ingressar no cangaço como meio de vida.



















