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DESSASTRE HUMANO NA COP30

A MÃE NATUREZA TEM O MAPA DO CAMINHO

A Imagem do Brasil lá fora já é de um país que não é sério, do improviso em seus projetos, de corrupção epidêmica, de suborno e obras superfaturadas. Agora imagina um incêndio em um dos pavilhões da conferência do clima! Servimos de piadas e deboches.

Além do fogo, houve alagamentos com biqueiras, como se fossem velhos galpões sem serviços de manutenção. Antes, a ONU já havia advertido para a questão estrutural, sem contar as dificuldades de acomodações das delegações. O governo federal teve que contratar navios a preços de ouro para as hospedagens.

Quanto ao incêndio, será que algum árabe, ou mesmo um brasileiro, não estaria tentando perfurar algum poço no intuito de encontrar petróleo? Não seria algum grileiro fazendeiro que teve a intenção de desmatar a área para criar mais um gadinho dentro da floresta amazônica? Quem sabe não tenha sido um ato terrorista de Trump, para melar as conversações!

Brincadeiras à parte, como um incêndio se propaga num pavilhão construído recentemente? Contrataram alguma empresa amadora para fazer a instalação elétrica por um baixo preço e alguém embolsou parte da verba? Em se tratando de Brasil, tudo pode ocorrer, como a aquisição de materiais de quinta categoria, para sobrar uma grana para alguém.

Sei que tem gente, a esta altura, me chamando de maledicente e até de ser espírito de porco, com o propósito de manchar a imagem do Brasil no exterior. Esse cara não é nada patriota! Fica aí levantando impropérios e escrevendo besteiras! Acho até que a crítica é mais pesada que isso, com xingamentos e palavrões. Devem estar me carimbando de direitista de extrema.

Não me importo com isso. Não estamos num país democrático? Não estou ultrapassando os limites da liberdade de expressão, apenas retratando as trapalhadas que acontecem no Brasil. É a primeira vez na história que uma conferência do clima pega fogo literalmente. Que organização é essa? Pior que o assunto foi abafado, como as labaredas com extintores.

Por falar em fogo, a COP30, em Belém, vai ter sua partida prorrogada, ou a disputa será decidida nos pênaltis? Quem sabe, esse jogo poderá até ser anulado por falta de entendimentos entre os juízes e o VAR! Prefiro a Copa Mundial de Futebol que tem início, meio e fim, isto é, data para começar e data para finalizar, com um time campeão.

Disse aqui que esta conferência, como as outras, mais parece com a lendária Torre de Babel onde cada um fala uma língua diferente e não se chega a um denominador comum sobre sua construção. Está difícil encontrar esse Mapa do Caminho.

Alguém aí acha que os produtores de petróleo, especialmente os árabes, aceitam reduzir suas explorações? Podem até assinar documentos, mas vão continuar intensificando a produção de combustíveis fósseis. Os Estados Unidos já disseram que sim.

Por que esses conferencistas não consultam à mãe natureza? Ela tem o Mapa do Caminho, só que a grande maioria não quer seguir. Prefere outra via que vai nos levar ao aumento do aquecimento global. A mãe natureza já nos disse que basta! Os fatos e os fenômenos estão aí, só não enxerga quem não quiser.

PRAGA DE CAVALO MAGRO

(Chico Ribeiro Neto)

Gosto de anotar ditados populares, ouvidos na fila do supermercado, no ônibus ou no bar, além dos que encontro na Internet. Minha mãe Cleonice gostava muito desse: “Água e conselho só se dá a quem pede”. O ditado popular não merece explicação. Quando exige uma explicação, é porque não presta. Igual a uma piada que você tem que explicar o final.

Vamos a alguns ditados:

“Casamento é igual Internet. Você assina um contrato hoje, amanhã já aparece um plano melhor”.

“Quando o rato ri do gato, há um buraco perto”.

“Macaco sabe o pau onde sobe”.

“Não te desperdiço nem te jogo fora. Te guardo pra boa hora”.

“O boi sabe onde fura a cerca”.

Mais alguns:

“Praga de cavalo magro não pega em cavalo gordo”.

“Ou toca o sino ou acompanha a procissão”.

“Farinha pouca, meu pirão primeiro”.

“Dedo-duro morre apontando”.

“Tempero de comida é fome”.

“Casa onde não entra o sol, entra o médico”.

Mais outros:

“Dia de muito, véspera de pouco”.

“Pé de galinha não mata pinto”.

“Quem nasceu pra tatu morre cavando”.

“Amizade remendada, café requentado”.

“Não há domingo sem missa nem segunda sem preguiça”.

“A santo que não conheço, não rezo nem ofereço”.

“Se ferradura trouxesse sorte, burro não puxava carroça”.

“Velho não senta sem UI! Nem levanta sem AI!”

“Quando dois elefantes brigam, quem sofre é a grama”.

“O machado esquece, a árvore recorda”.

“O mesmo sol que derrete a cera, endurece o barro”.

E pra terminar:

“Meia verdade é sempre uma mentira inteira”.

“Há 3 coisas que jamais voltam: a flecha lançada, a palavra dita e a oportunidade perdida”.

“A língua não tem osso, mas esmaga ossos”.

“Antes dono de uma moeda que escravo de duas”.

“Miséria pouca é tiquim”.

“Urubu quando tá de azar, o de baixo caga no de cima”.

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

 

 

 

 

EXÓTICA FLOR

Essa nossa caatinga exótica tem suas espécies únicas que só existem em nosso Nordeste místico carregado de símbolos e fé. Assim são suas raras flores, como a estrela marrom de um cacto, primo do mandacaru, que também produz a sua uma vez por ano. Por serem diferentes, são difíceis de serem captadas pelos olhos humanos, mas são espíritos encantados ou espelhos encantadores da alma. São elas rústicas as minhas preferidas que representam o reflexo do meu ser. Para mim, elas têm um grande significado e retratam o que eu penso. Podem ser amor, tempo, vida, existência, conflito ou sentido do viver. Criaturas que brotam do chão, mesmo em tempos de seca em meio a uma paisagem cinzenta, como esta que tem a sua cor distinta entre o verde. É um tipo exótico, mas é uma flor das flores.

MEDO DO VENTO

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Tenho medo do vento,

Como menino acuado,

Nascido no mato, assustado,

Mais que o relâmpago e o trovão,

Que faz arrastão,

De árvores e telhados,

No ar derruba até avião.

 

Tenho medo do vento,

Vento ventania,

Zunir assoviado de agonia,

Que arranca segredos,

Da minha alma do passado,

Nas correntes dos enredos.

 

Olá, Yansã, Oyá,

Senhora orixá do vento,

Acalmai este valente violento,

Guerreiro da transformação,

Dos espíritos, guardião,

Das florestas dos ancestrais,

Onde vivem os animais.

 

Olá, senhor Anemoi,

Vento viajante do tempo,

Do deus grego Éolo,

De espadas eólicas,

Natura, natureza,

Nas paisagens bucólicas,

Operário do pólen,

Equilíbrio e destruição,

Do ciclone, tornado ao furacão.

 

Bóreas norte é inverno,

Zéfiro oeste é primavera,

Flor da felicidade,

Nótos sul verão tempestade,

Euro do leste é outono,

Deuses da boreal aurora,

Veloz faz sua hora.

 

Tenho medo do vento,

Venha donde vier,

Começa manso e lento,

Forte abala até nossa fé.

 

 

UM BRASIL DESCONFIADO E CONSERVADOR

“Vá com Deus”, Deus que lhe acompanhe”, Deus está no comando”, “foi Deus quem assim quis”, “fui salvo, graças a Deus”, Deus é fiel” e “família é tudo na vida”. São expressões que se ouve cotidianamente, não importando os extremos, os opostos, se religioso, ou não, e é isso que nos une em meio a esta polarização política extremista e derrotista.

O interessante é que este Deus tem seu nome banalizado, usado em vão até num jogo de cartas, ou para cometer maldades e bandidagens. A família – no bom, sentido – é unida até quando não envolve dinheiro no meio. Numa herança, ela entra em “guerra” de mortes. Tudo isso não é um paradoxo?

Diante de tanta violência brutal, golpes, individualismo, falsidades e falta de respeito para com o outro, talvez o brasileiro seja o mais desconfiado no mundo de hoje. O brasileiro desconfia do próprio brasileiro, inclusive quando se está no exterior. Por falar nisso, o nordestino, que sofreu séculos de agruras e isolamento, é o mais desconfiado. Ele é um cismado por natureza.

Esta desconfiança está também na convicção de que nem todos são amigos, embora seja outra palavra mais pronunciada por onde se anda, até mesmo saída da boca de um desconhecido na rua. Tem aquele “amigo-irmão” de botequim, dos encontros nos bares e na cachaça, que depois se vai ao vento como pó.

“Confie, desconfiando”. São raros os amigos. Inconscientemente, houve uma vulgarização dessa coisa do amigo. Essa desconfiança empurrou o brasileiro para a indiferença com relação ao próximo. Todos são suspeitos, até que se prove o contrário. Difícil se parar um carro na estrada para atender um pedido de socorro. Nas ruas das médias e grandes cidades, essa desconfiança ainda é bem mais acentuada.

O desconfiar resulta em afastamento e medo, que criam o fatalismo da polarização e da divisão no campo político, só que no meio disso existe atualmente uma grande maioria silenciosa que não fica bradando e xingando nas redes sociais, nem quer entrar nessa discussão. Procura ficar de fora. É essa maioria que toma posições caladas e até decide eleições.

Por sua vez, o brasileiro acha que sabe de tudo, mas, no fundo, nada sabe. No acreditar que tudo sabe, ele procura impor suas ideias como se fossem padrão de verdade e é aí que são gerados os conflitos e inimigos. O que os une é que “Deus está no comando” e “família é tudo na vida”. Nisso, todos comungam, ou quase todos.

Outra coisa é que o brasileiro é conservador por natureza, mesmo os considerados progressistas de esquerda. Na questão do sexo, para ele, tudo é lícito entre quatro paredes, mas não aceita exposição em público. No íntimo, se choca com o que ver. Ele ainda conserva dentro de si a cultura ancestral patriarcal, por mais que se diga aberto e liberal.

O mesmo acontece quanto ao preconceito racial e até de gênero. Ele fala em público e até procura forçar sua convicção de que não é preconceituoso, mas, aqui e acolá, termina caiando em deslize e contradição, sem sentir que está sendo. Antigamente, esse preconceito era bem explícito, hoje ele é escondido e patrulhado por força das mudanças nas políticas públicas que incriminam a prática.

Conforme constatou uma pesquisa sobre estes valores arraigados nos brasileiros, a nova geração, chamada por alguns estudiosos do assunto, de zen, ou ponto com, é a mais liberta desses preconceitos, e isso nos dá a esperança de que podemos ter um futuro melhor, sem essa mancha e esse rancor. O preconceito religioso está mais enraizado entre os fanáticos fundamentalistas.

Outra coisa é que o brasileiro se tornou um punitivista, tanto que a grande maioria defende a pena de morte, a redução da maioridade penal e até que se faça justiça com as próprias mãos. Vimos isso nas últimas operações militares feitas nos complexos da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro. A maioria votou pela aprovação, segundo pesquisa realizada por uma empresa do setor.

Temos um Brasil paradoxal, “vira-lata”, de Nelson Rodrigues, que cultua o estrangeiro, caso dos Estados Unidos, que, por sua vez, enxerga nosso país como inculto, atrasado e arcaico. “Que país é esse”, tão miscigenado, místico e cheio de contradições?

SOFRIMENTO E RENOVAÇÃO

Assuntos não faltam para se escrever, uma arte de lidar com as palavras, mas hoje resolvi dar uma folga nos comentários mais pesados que nos afligem nos tempos atuais, principalmente em se tratando do Brasil, para falar um pouco do sofrer e da renovação do ser dentro de si.

Não sei se vou agradar a quem ainda ousa ler meus artigos, comentários e crônicas sobre coisas da vida. Sempre penso comigo mesmo que se houver apenas um leitor para meu texto que faço, já me sinto realizado, que seja a favor ou contra. A crítica é bem-vinda. Apenas escrevo, exponho minhas ideias. Ninguém é obrigado a concordar.

Isto me faz lembrar uma passagem entre o megaempresário do jornalismo Assis Chateaubriand e um aprendiz, tipo foca, que foi fazer um teste em um dos seus veículos de comunicação. Após sentar-se na mesa diante da máquina datilográfica e colocar a pauta no cilindro, Assis mandou que ele falasse sobre Jesus Cristo. O aspirante a repórter, sem pestanejar, indagou se a favor ou contra.

Olha eu novamente naquele vício jornalístico de fazer “nariz de cera” na abertura de uma matéria! O tema proposto é sofrimento e renovação, ou mudança na pessoa, se dessa forma o leitor preferir. Alguém já disse que é na fome que nasce a inspiração, embora não acredite muito nisso. Literalmente, como uma pessoa com fome pode ter inspiração para elaborar sua arte? Pode ser, se cada ser é um mistério indecifrável!

No entanto, estou a me referir ao sofrimento físico e espiritual que todo ser humano está sujeito enquanto vida, seja pobre ou rico. Muitos não suportam a dor do sofrimento e sucumbem, ou se entregam. Outros, talvez seja a maioria, enfrentam, ou encaram, aproveitado o sofrer para se renovar, mudar e seguir em frente, de maneira melhor do que era antes.

Muitos já devem ter conhecido alguém que era seco por dentro, duro consigo mesmo e com os outros, um indivíduo até certo ponto insuportável, mas voltou renovado depois de ter passado pela prova da morte. É aquela velha história do nascer novamente, com outra roupagem.

Existem também aqueles casos de pais indiferentes à violência urbana e que, após ver o filho estendido ao chão, todo ensanguentado, atingido por uma bala perdida, decidem tomar atitudes positivas perante a sociedade, no sentido de combater o descaso dos governantes.

Outros resolvem fazer campanhas de prevenção ao câncer depois de curado da doença, ou ver um ente querido ter sido vítima dela. Por que só após o sofrimento, nasce a renovação? É preciso que se passe por um momento difícil da vida para se chegar à mudança?

São reflexões que nos deixam intrigados e até não vemos essa renovação com bons olhos. Existem aqueles tipos que chamamos de guerreiros que, mesmo no sofrimento e nos piores desafios, não desistem de lutar e voltam das cinzas mais renovados e fortes, como uma fênix.

No âmbito existencial, todos passam por uma determinada espécie de sofrimento, que constitui prova de renovação, até de mudança de caráter. Este sofrer nos faz olhar e a refletir sobre o sofrimento dos outros, com mais compaixão, mas tem gente insensível

Uns passam a vida indagando e até negando sobre o sentido da vida. Por que uns sofrem mais que outros, nascem com doenças crônicas, com sérios problemas físicos e mentais, enquanto outros são saudáveis? Uns na extrema pobreza e outros em berço de ouro? Daí, surgir em muitos aquele eterno conflito sobre a existência de Deus.

Não importa. Quando alguém está passando por aquele aperreio danado, onde um problema surge atrás do outro, se diz que “faça do limão uma limonada”. Pelo menos serve de consolo. Tem aquela questão do pessimista e do otimista.

O primeiro não é bem visto, mas, engraçado que é nele que está a maior resistência de vencer as intempéries e as tempestades, porque é mais realista, de “pés no chão” e preparado para o sofrimento. O segundo vê tudo azul e não suporta a escuridão, nem todos.

 

 

NÃO SE COMBATE O BANDITISMO COM PROJETOS DE LEI E DECRETOS

Esse Congresso Nacional extremista é mesmo o pior da história do Brasil. Com suas ideias estapafúrdias e de interesses próprios de blindagem de crimes praticados pelos seus membros, eles estão levando o país para o abismo e a uma convulsão social sem precedentes.

Segundo pesquisas, a maior preocupação do brasileiro é com a segurança pública, no caso a violência policial e dos bandidos, comandados pelos seus chefes de facções criminosas, superando a corrupção (também é violência), o desempenho da economia ou inflação alta.

O banditismo de hoje nos faz lembrar do cangaço nordestino (volantes e criminosos), principalmente dos séculos XIX até meados do século XX. Por séculos o Nordeste sofreu um processo de isolamento com a ausência da Justiça e das políticas públicas dos governantes da época. Atualmente temos o cangaço urbano (forças armadas e traficantes), e o povo se sente isolado entre a cruz e a espada.

Não é com projetos de lei e decretos que vai se resolver o problema. Não se convence bandido a deixar o crime dizendo que ele está sujeito às penalidades da lei, porque quando ele entra nesse mundo já sabe que só tem duas opções na vida, a morte prematura ou a prisão, mas o dinheiro supera tudo. Para ele, a criminalidade é um bom negócio porque a sociedade o rejeitou lá atrás.

Aliás, já existe a pena de morte no Brasil, só que ela não é oficializada. A maioria acha que bandido bom é bandido morto. As facções sabem muito bem disso, mas, mesmo assim, a violência só aumenta e, para não morrer, os bandidos, cada vez mais, portam armamentos pesados e potentes, muitas dessas armas desviadas dos próprios quartéis ou contrabandeadas. Para eles, a única saída é o enfrentamento, com táticas de guerrilhas urbanas.

Não importa para o bandido e suas organizações se as penas vão aumentar para 30 ou 40 anos, nem tampouco que correm o risco de perder seus bens. Uma ação firme e conjunta entre a União e os estados pode pôr fim às quadrilhas organizadas, como ocorreu com o cangaço nordestino, em 1940, no Governo de Getúlio Vargas.

No entanto, temos hoje um país polarizado e dividido, onde a extrema direita torce pelo fracasso do governo federal, como enfraquecer a atuação da polícia federal e outras instituições ligadas à segurança.

A operação isolada do governo do Rio de Janeiro, onde cerca de 120 pessoas, inclusive soldados, foram mortas, não passou de uma intervenção desastrosa. Para os comandantes da carnificina, com derramamento de sangue, foi um sucesso. Tudo foi abafado e não se sabe quanto inocentes perderam suas vidas.

A comunidade do Complexo da Penha aprovou porque há anos vive acossada pelos bandidos, mas esquece que a maior culpa está na ausência de políticas sociais do poder público, sem falar na própria violência policial. O povo tem a sensação errônea de que tais operações vão acabar com o banditismo.

Os deputados da oposição estão mais interessados em distorcer a imagem do Brasil no exterior do que aprovar medidas visando a segurança da população. Um exemplo disso é tipificar os traficantes e as facções como terroristas, com o argumento simplista de que eles provocam terror nas favelas. Por esta ótica vesga, qualquer bandido é terrorista.

Até a própria classificação de terrorismo pelos países capitalistas ocidentais, principalmente por parte do Estados Unidos, é distorcida. Eles não querem admitir e nem pronunciar a luta de resistência de um povo contra a opressão secular imperialista, com apoio do seu próprio povo.

E A QUESTÃO DO CONSUMISMO?

Se o meu vizinho ao lado está ganhando muito dinheiro vendendo carvão, eu também vou fazer o mesmo. Se alguém comete um ilícito ou malfeito para se enricar, eu também tenho o direito de realizar a mesma prática. É uma lógica absurda que não se justifica.

É assim que o mundo pretende reduzir a elevação das temperaturas e conter o aquecimento global? Nesta COP30, de Belém (mais uma semana de discussões), ainda não vi na agenda um debate sobre o consumismo exagerado que provoca impacto no meio ambiente.

Se um país está consumindo mais produtos, inclusive coisas supérfluas produzidas pelas indústrias, o outro também vai incentivar o consumo para crescer sua economia e ter um PIB (Produto Interno Bruto) maior.

Não se fala de desconstrução desse consumismo. Se meu amigo comprou uma camisa bonita, um sapato ou um tênis de marca, um aparelho de última geração para sua casa, guiado pela inteligência artificial, também vou fazer de tudo, mesmo ficando endividado, para também possuir o mesmo. É a questão da cobiça.

Ter consciência ecológica não é só plantar uma árvore, deixar de jogar lixo na rua, nas estradas, rios e mares. É muito mais que isso. Na hora de fazer compras compulsivas desnecessárias pela internet ou mesmo presencial nas lojas, ninguém pensa em consciência ecológica. Prefere o prazer ou a “felicidade” de comprar, comprar e comprar. Assim acontece em outras coisas e hábitos.

Como frear esse avanço do aquecimento global, se os países desenvolvidos tudo fazem para aumentar o consumo das pessoas? As grandes potências, como os Estados Unidos, comandados por Trump, investem cada vez mais na extração dos combustíveis fósseis, no caso o petróleo. Muitos são negacionistas da ciência.

Na China é o carvão, embora tenha projetos de produção de energia limpa, como a solar. No entanto, permanece o carvão soltando gases tóxicos no ar. É certo que o Brasil avançou bastante na transição energética, mas ainda representa pouco em relação à emissão do CO2 e do metano. Temos mais bois que gente no país, e o negócio é exportar mais carne.

Há mais de 50 anos que se fala em reduzir a exploração de petróleo. Ao invés disso, só cresceu. Alguém acha que os países árabes vão deixar de perfurar mais poços? Claro que não, mesmo porque se fizerem isso, vão viver de que? Eles não têm outras fontes econômicas que substituam o petróleo. Vendem o produto para comprar alimentos dos criadores e agricultores que também cometem suas agressões contra a natureza. É o ciclo da vida.

Há séculos que o planeta vem sendo destruído pelas fumaças saídas das chaminés das fábricas, pelo lançamento de substâncias venenosas nos solos e rios através da exploração de minérios, pelos desmatamentos e queimadas para plantar grãos e criar gado, dentre outras agressões pela corrida de mais riquezas.

Claro que existem ações de sustentabilidade, mas ainda são pontuais se compararmos com o rombo, as feridas e as crateras feitas na terra, que está em ebulição através das catástrofes e tragédias humanitárias.

Será que ainda dá tempo de fechar a conta? Os ricos estão dispostos a financiar os pobres a construírem essa transição energética?  Vão fazer suas partes nessa implementação das metas estabelecidas na COP30? Vão colocar mais grana nesse fundo financiador? Ou vão manter seu roteiro de mais gastanças, destruição e consumismo?

O CANGAÇO ENDÊMICO E O EPIDÊMICO

O historiador e escritor Frederico Pernambucano de Mello, autor de “Guerreiros do Sol”, classifica o cangaço em duas fases, o endêmico e o epidêmico. O primeiro se situa a partir da segunda metade do século XIX, um tipo mais romântico e bonachão, com suas regras, normas e éticas.  O segundo, nas primeiras décadas do século XX, tendo como auge 1926, mais violento e com maior número de grupos atuantes. Lampião foi o expoente dessa fase,

Sobre os dois ciclos nordestinos, o da cana e o do gado, ele cita Câmara Cascudo, quando enfatiza que o primeiro não poderia ter produzido o cangaceiro. Exagero a parte, o homem do cangaço disputa com o próprio vaqueiro a primazia, no representar do modo mais completo, o conjunto dos atributos que caracterizam o ciclo do gado.

Ninguém mais que ele (o vaqueiro) soube gozar e sofrer, a um só tempo, as peculiaridades do viver nômade. “Foi, a ferro e fogo, senhor de suas próprias ventas, atuando sem lei, nem rei”. Frederico destaca que sempre existiu uma tradição de simbiose e simpatia entre o cangaceiro e o coronel através de gestos de auxílio constante entre um e outro.

Existiam entre eles uma relação de alianças de apoios mútuos, numa forma espontânea onde uma parte não era patrão da outra para sua sobrevivência. Mediante os acordos, o bando colocava-se a serviço do fazendeiro ou chefe político. Tudo se convertia em contrapartida, “naquela figura tão decisivamente responsável pela conservação do caráter endêmico de que o cangaço sempre desfrutou no Nordeste, que foi o coiteiro.

O escritor alagoano Graciliano Ramos, em “Viventes das Alagoas” ressalta que a aliança se mostrava vantajosa às duas partes porque ganhavam os bandoleiros, que obtinham quartéis e asilos na caatinga, e os proprietários que se fortaleciam cada vez mais. O relacionamento não representava vínculo de subordinação entre os dois. Existia ausência de patrões.

De acordo com estudos publicados pelo Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais (1974), houve cangaço dentro do cangaço, isto é, modalidades criminais distintas. Em cada modalidade tinha uma forma de viver, bem como de conduta e violência empregada.

Para Frederico Mello, existia o cangaço-meio de vida, o da vingança e aquele do refúgio, principalmente quando o sertanejo cometia algum crime e estava sendo perseguido pelas volantes. Na primeira forma, Mello aponta Lampião e Antônio Silvino como representantes máximos.

O de vingança foi o traço definidor mais forte, na opinião de Mello, o cangaço nobre, representado pelo Sinhô Pereira, Jesuíno Brilhante ou Luis Padre. Na terceira forma, o cangaço figura como última instância de salvação para o homem perseguido.

Quanto aos modos de guerrear dos indígenas e dos cangaceiros em território inóspito, difícil de penetração, o autor de “Guerreiros do Sol” escreve que os portugueses, que usavam doutrinas militares clássicas, tiveram muito que aprender. Essa situação ocorreu não somente entre os portugueses, mas também no caso holandês que sofreu movimentos de resistência.

Na guerra contra os holandeses, por exemplo, historiadores destacam a contribuição militar do rastejador. O frei Manuel Calado de Salvador cita o capitão Francisco Ramos, índio ou mameluco, como o um dos mais espertos homens em diligência no Brasil.

Quem descreve com detalhes o papel do rastejador durante a década de 30 é Ranulfo Prata. Em trecho da sua narração diz que ele “segue a tropa pressurosa, com o batedor à frente, “escanchado” no rastro. Sem perde-la, trazendo-a sempre debaixo dos olhos atentos, a marcha se estira por dias e semanas, até que as feras humanas, acuadas longe, ofereçam combate, negaceiem e escapem em fuga precipite”.

O rastejador percebe pequena folha machucada, cinza de cigarro ou barulho, um fósforo, toiças de capim acamado. “Segue os pequenos animais, o preá, de pata minúscula, o teiú, que mal acama a vegetação sob seu peso leve, o tatu-bola, todo delicadeza, a pisar o chão com sutiliza de quem traz veludo nos pés”.

No que tange ao banditismo no Nordeste, Frederico de Mello faz referência a salteadores ainda no século XVII. “Ao longo do período de colonização holandesa, vamos surpreender nosso banditismo caboclo enriquecido pela presença de estrangeiros, desertores das tropas de ocupação…”

Segundo ele, houve chefes de grupos que eram holandeses, como o caso do célebre Abraham Platman e Hans Nicolaes, que agia na Paraíba, à frente de 30 bandoleiros, por volta de 1641. Ele lembra ainda que foi na segunda metade do século XVII que o bandoleiro pernambucano, José Gomes, o Cabeleira, desenvolveu sua atividade.

No entanto, somente em fins do século XVII, o banditismo começa a se converter no cenário por excelência, até porque, no litoral, a colonização florescia em todos os sentidos. O ciclo do gado, com sua malha vegetal quase impenetrável e uma cultura receptiva à violência, fornecia um cenário propício ao banditismo. Graciliano Ramos afirma que o cangaço era um fenômeno próprio da zona de indústria pastoril, no Nordeste.

No entanto, Câmara Cascudo assinala que o cangaço não existia somente no sertão, mas que era uma figura também presente em outros países. O historiador Hobsbawn, em seu livro “Bandidos”, lançado em 1969, reafirma a tese da universalidade.  Segundo ele, o banditismo social se encontra em todas as Américas, na Europa,  no mundo islâmico, na Ásia e até na Austrália.

NARIZ DE PALHAÇO

(Chico Ribeiro Neto)

As luzes se apagam. A orquestra ataca, acendem só as luzes do picadeiro e o coração bate mais ligeiro. Começa o desfile de todas as atrações do circo: palhaços, malabaristas, trapezistas e os dois caras do Globo da Morte. “Senta aí, meu irmão!”

O encantamento do circo faz até a pipoca ficar mais gostosa. Tudo é lindo, tudo emociona, e ninguém liga se tem um buraco na meia da trapezista.

Em Ipiaú (BA), onde nasci, quando o circo chegava dois palhaços de perna de pau percorriam a cidade, enquanto outros marcavam os pulsos das crianças com uma cruz de carvão, o que garantia o acesso gratuito ao espetáculo da noite. “Gosto muito de mentiroso, doido e palhaço”, dizia o escritor Ariano Suassuna.

Gostava de ir ver o circo de manhã, na hora da faxina. O mágico fazendo a barba e a trapezista, de short, dava banho de mangueira no elefante. Achava tudo diferente e bonito. Quem nunca teve vontade de fugir num circo?

Lembro mais dos circos Nerino e Tihany. Fundado pelo casal Nerino e Armandine Avanzi, em 1913, o Circo Nerino percorreu todo o Brasil até setembro de 1964, quando encerrou as atividades.

O fundador, Nerino Avanci, criou o palhaço Picolino, mais tarde sucedido pelo filho Roger. A Escola Picolino de Artes do Circo (hoje o Espaço Multicultural Circo Picolino), em Salvador, recebeu este nome em homenagem a Roger Avanzi, fundador da primeira escola de circo do Brasil. O admirável trabalho do Circo Picolino já completou 40 anos.

Veja um trecho da entrevista do palhaço Plim-Plim (José Carlos), postada no congressoemfoco.com.br, em 12 de dezembro de 2009:

“Em manifestações, por que o nariz de palhaço te incomoda?”

“Eu, sinceramente, quando vejo uma cena com alguém com um nariz de palhaço, sem estar no ofício, eu me sinto ofendido. Tenho isso como profissão e as pessoas colocam como uma coisa banal. Eu vivo daquilo. O cara vai lá fazer um protesto de saúde e usa um nariz de palhaço. Eles poderiam usar uma máscara da gripe, mas usam o nariz de palhaço como banalização”.

Nenhum palhaço gosta quando se usa o termo “palhaçada” para se referir a uma atitude ou manifestação considerada ridícula, uma brincadeira de mau gosto, presepada.

Nunca esqueço o que o ator Bemvindo Sequeira me contou uma vez. Ele, para se aprimorar como ator, resolveu passar uns dias num circo mambembe no subúrbio de Periperi. Teve uma noite em que o bebê do palhaço estava com febre alta. O palhaço fazia sua apresentação no picadeiro e no intervalo corria para trás da cortina, onde estava o berço, para tomar a temperatura do filho. Minutos depois, voltava pra fazer graça.

O circo é uma lição de vida. É bom fazer sempre uma graça, mesmo que tenha uma febre atrás da cortina.

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

 

 

 





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