:: nov/2025
O RAIMUNDO PINTOR
Com sua paciência, voz mansa e calma, Raimundo José dos Santos, o “Raimundo Pintor”, a longos anos nesse ofício, em Vitória da Conquista, vai aos poucos fazendo um encontro das cores nas paredes, que dão vida e charme aos lugares. Raimundo não é somente um pintor qualquer, como tantos outros por aí. É também uma espécie de grafiteiro e desenhista das palavras e figuras. Basta uma ideia, e do seu pincel vão brotando as imagens reais, como neste letreiro do Espaço Cultural A Estrada onde estão os traços de um “S” no formato de uma estrada, com gentes andantes numa peregrinação ao seu ponto final. Um livro representa a fonte da vida onde, como diz o nosso estradeiro Dal Farias, o conhecimento liberta. Raimundo não é somente requisitado em Conquista, mas também em outras cidades da região para pintar mercadinhos, oficinas, casas comerciais e até letreiros em prédios. Sente-se que ele faz sua pintura com amor e dedicação. São obras que merecem ser admiradas pela sua perfeição. Nossas lentes flagraram suas pinceladas. “Raimundo Pintor” vai além das tintas combinadas em paredes de muros e cômodos. É também um propagandista dos slogans e marcas empresariais. Com ele, segue o dom de pintar, sem melar sua arte. Não é somente um simples pintor, é um artista das letras e das ideias desenhadas.
BERRA BERRANTE!
Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
O vaqueiro andante
A ferro, gibão e fogo,
No ciclo do gado,
Sem lei, nem rei,
Berra seu berrante,
Faz o seu ponteio,
Rasga do seu peito,
De ar puro e cheio,
Como no aboiar do aboiador,
Mata a saudade do seu amor,
Que bem distante lá ficou.
Berra o berrante!
Do Nordeste ao Centro-Oeste,
Do Brasil colonial,
Cortando o sertão agreste,
Pelas águas do Pantanal.
Feito do chifre do boi,
Berra o berrante,
Ao som do arrasto da boiada,
No tom que é hora da boia,
No sinal de perigo inimigo,
Que é chegado o entardecer
Da comitiva descansar
Da longa jornada,
Para causos, prosear,
A moça bonita, namorar.
Berra o berrante!
Em torno da fogueira,
E o violeiro começa a violar,
Aquela raiz da terra cancioneira,
Que faz até os animais relaxar.
O berrante está até na Bíblia,
Para os judeus é o xafar,
Do bode ou do carneiro,
Símbolo sagrado para orar,
Pro sertanejo é berro estradeiro,
Berrante valente a berrar!
VEREADORES FALAM DAS CHUVAS
De um modo geral, os vereadores de Vitória da Conquista aproveitaram a sessão de ontem (quarta-feira – dia 12/11) para falar sobre os transtornos que as chuvas do último domingo causaram à cidade, afetando centenas de moradores, principalmente dos bairros Jurema e Lagoa das Flores.
O parlamentar Adinilson Pereira, além de tratar das questões das chuvas, falou sobre as nominações de ruas que devem ser oficializadas em Lagoa das Flores e em Jaraguá visando acabar com o caos nas correspondências endereçadas aos moradores. Destacou também os transtornos provocados pelos alagamentos de ruas e avenidas.
Andreson também citou o problema das chuvas, acrescentando que longe de tirar proveito da situação, a administração pública precisa ter mais diálogo para enfrentar a questão. Disse que a Câmara não deve assinar um cheque em branco para a prefeita ao se referir ao empréstimo solicitado de 400 milhões de reais.
O vereador Bibia criticou quem se aproveitou da situação e tirou vídeos dos alagamentos para atacar a administração pública. Aproveitou a oportunidade para declarar que o Denit, depois da saída da Via Bahia, nada está fazendo em termos de melhorias na BR-116.
Cris Rocha também comentou sobre os transtornos das chuvas e afirmou que a cidade vive há anos sem resolver o antigo problema da falta de drenagem para escoamento das águas. Segundo ela, Conquista precisa urgentemente de obras de micro e macrodrenagem, para solucionar os problemas das chuvas.
A COP30 E A TORRE DE BABEL
Quando alguém quer se referir a confusão, gente falando ao mesmo tempo em línguas diferentes, impossibilidade de se chegar a um acordo ou a um denominador comum na conclusão de uma tarefa em conjunto, se diz que “aquilo está uma verdadeira Torre de Babel”.
Pois é, seguindo este ditado popular, diria que a COP30, como tantas outras conferências dessa natureza já realizadas, é uma Torre de Babel onde participantes de vários países falam línguas diferentes e, no final, ninguém se entende, tornando difícil se chegar a uma conclusão.
– Mas, numa conferência mundial como esta, literalmente as tribos falam línguas diferentes emboladas – disse um amigo meu ao rebater meu argumento.
– Verdade, meu camarada, mas estou falando em línguas diferentes no sentido figurado. Posso explicar melhor. Nessas conferências, um grupo elabora um termo de preservação da natureza, mas o outro não concorda. Como exemplo, cito que as grandes potências e as nações árabes do Oriente não abrem mão de parar de extrair petróleo, um combustível fóssil poluidor do meio ambiente.
Este é apenas um exemplo, mas existem muitos outros divergentes onde não se chega a um senso comum, como a criação de um fundo financiador de preservação das florestas ou de os países desenvolvidos liberarem recursos visando ajudar os mais pobres, vítimas das mudanças climáticas ou do aquecimento global.
Contam os estudiosos que a história da Torre de Babel foi inspirada nos zigurates reis, construtores de grandes templos em forma de pirâmides, na Mesopotâmia. O mais famoso zigurate, Etemenanki, da Babilônia (hoje Iraque), quis erguer uma torre cujo o topo se elevasse até o céu, para homenagear o deus Marduk.
Acontece que os construtores, usando tijolos cozidos e betume com argamassa, falavam várias línguas, criando-se um desentendimento entre eles e o projeto não foi concluído. Apontam ainda que essa torre, na cidade de Nurode, teria 90 metros de altura, outros que 212 e ainda que chegaria a 2.484 metros, um feito e tanto para aquela época, há cerca de dez mil anos no Crescente Fértil (Mesopotâmia) dos sumérios.
Essa versão da torre está no Antigo Testamento da Bíblia, no livro do Genesis. No pós-dilúvio quiseram construir uma torre visando evitar a dispersão da humanidade pela terra. Portanto, é uma inspiração tirada daquela antiga civilização.
Na verdade, trata-se de um mito, mas a narração é que Deus, para limitar a ambição humana, confundiu as línguas, resultando na dispersão das pessoas pelo mundo. Babel tem significado duplo. Um traduz ser “Portão de Deus”, mas em hebraico fala-se em confusão, desorganização ou mistura.
Não quero aqui menosprezar as boas intenções, mas o problema é que dentro desse conjunto, existem “línguas diferentes”, ou seja, interesses particulares e negacionistas do clima que dificultam fechar acordos que cumpram as metas estabelecidas para reduzir as altas temperaturas do planeta.
Quem está longe de Belém, só assistindo os noticiários do dia a dia, observa-se que a COP30 não passa de uma grande confusão de gente naqueles pavilhões verde, azul e até vermelho falando “línguas diferentes” como na Torre de Babel dos zigurates babilônicos.
Creio que Deus não mete seu bedelho nos construtores, como escreve a Bíblia, e fica lá de cima como um matuto só assuntando as coisas ruins e confusas dos homens. “Eles que se entendam se querem preservar suas moradias para as futuras gerações, ou tornar suas casas em verdadeiras ruínas e escombros. Afinal de contas foi Eu mesmo que criei o livre arbítrio” – assim falou Deus.
O MONOPÓLIO DAS COMUNICAÇÕES
Há uns vinte anos ou mais nos encontros jornalísticos e como dirigente sindical lembro das discussões sobre o monopólio das comunicações de massa por parte das grandes empresas familiares dos jornais (O Estado de São Paulo, Folha de São Paulo, Tarde, Jornal do Brasil) e das redes de televisão do país, como Globo, Bandeirantes, Record e SBT.
Este cenário, hoje pouco debatido, persiste e representa a ditadura da informação pelos grandes conglomerados, que subvertem e distorcem os fatos quando são de seus interesses. A nossa luta crítica sempre foi reverter este quadro em favor da democratização da comunicação visando abrir espaços para um jornalismo alternativo, mais independente e imparcial.
Mesmo com o avanço das tecnologias e o advento da internet onde as notícias chegam em tempo real e as pessoas conseguem se interagir, o monopólio das comunicações se mantem num sistema capitalista selvagem que manipula as notícias e, na maioria das vezes, a maior vítima é a verdade, sobretudo nas guerras.
Quero aqui focar especificamente na questão da mídia televisiva, especialmente na Rede Globo que, com sua estrutura de capital, sua fama ao longo dos anos e liderança na audiência, monopoliza, por exemplo, as transmissões esportivas de futebol dos campeonatos brasileiros e sul-americanos mais importantes (Série “A”, Copa Brasil, Sul-Americana e Libertadores), apesar da Band divulgar que é o canal dos esportes. A Fórmula 1 agora vai retornar para ela.
Estou apenas me referindo ao futebol porque é o monopólio mais gritante onde o telespectador, ou o torcedor de menor poder aquisitivo, que só possui o canal “aberto” (poucos programas), não tem outra opção se quiser assistir o seu clube jogar, a não ser que compre uma transmissão ou faça uma assinatura no canal fechado.
Outro problema são os horários dos jogos durante o meio de semana, sempre a partir das nove e meia da noite, um horário complicado para quem vai aos estádios nas capitais, tendo que sair depois das 23 horas, pegar ônibus e chegar em casa lá pela madrugada, se expondo à violência da bandidagem. Por que esses horários não poderiam ser mais cedo? A resposta está com a CBF.
No Campeonato Brasileiro, por exemplo, a maior parte das transmissões são reservadas ao Flamengo e ao Corinthians, os times que dão mais audiência por terem as maiores torcidas do Brasil. Não há dúvida que esta é uma exigência dos patrocinadores.
Bem, estes exemplos mostram com clareza o monopólio das comunicações, que detém o domínio nos noticiários, muitas vezes tendenciosos e parciais, levando o povo, a maior parte sem instrução e massa crítica, a acreditar em fatos distorcidos, sem contar que muitas notícias deixam de ser divulgadas quando são contrárias aos interesses dessas empresas, que são isentas de determinados impostos.
Na verdade, sempre existiu uma manipulação das informações desde os tempos dos coronéis que, com armas na mão e seus capangas, aterrorizavam os jornalistas e os donos dos jornais impressos que noticiassem seus malfeitos. Um exemplo bem próximo a nós é Vitória da Conquista. Muitos jornalistas foram agredidos, ameaçados e mortos. O temor continua na passagem para a internet.
Nos tempos atuais, essas práticas são mais sutis e sofisticadas, mas permanece o poder e o capital (grandes patrocinadores) exercendo suas influências. A grande mídia se rende a eles, fazendo um papel contrário de formadores de opinião. Estão mais para deformadores.
A Rede Globo e a grande mídia em geral sempre tiveram um DNA elitista e oligárquico desde seu nascimento. Com rara exceção, a grande maioria apoiou a ditadura civil-militar de 1964 e teve o seu governo a favor ou contra. As eleições ainda são prova disso. Umas são mais escancaradas e outras mais subliminar.
Quem não se lembra do caso do governador Leonel Brizola, no Rio de Janeiro, onde A Globo tudo fez para derrubá-lo? E o episódio do debate do segundo turno das eleições presidências entre Collor de Melo e Lula, se não me engano em 1989?
Antes as novelas da Globo só tinham atores e atrizes galãs, brancos e bonitos. As novelas eram luxuosas e glamorosas. Os negros ficavam na cozinha tomando esporros. Foi uma mudança tardia depois de ter recebido muitas críticas dos movimentos negros. No entanto, andou por muito tempo na contramão da história.
Hoje houve uma reversão, até com certos exageros, mais por conta das exigências do mercado e com a intenção de angariar mais simpatia e audiência, depois de receber um monte de críticas. Ela está sendo até mais ecumênica, colocando pastores evangélicos nos elencos.
Quanto ao monopólio nas comunicações (a imprensa alternativa sempre foi sufocada pelos poderosos), o Congresso Nacional nunca ousou quebrar esse domínio com um projeto-de-lei, tendo como marco a democratização da imprensa. Não será este arcaico e atrasado que aí está que vai se atrever a acabar com este monopólio.
QUEREM ENGANAR A QUEM COM ESSE PAPO?
A fala do governo brasileiro no começa da COP30, em Belém, começa com uma ou mais contradições. Quer criar um grande fundo bilionário de proteção para preservar e reduzir as derrubadas das florestas, aumentar a produção de energia limpa renovável, mas, ao mesmo tempo, abrir mais poços de petróleo – combustível fóssil altamente poluidor do meio ambiente – inclusive na foz do rio Amazonas.
No discurso do presidente Lula não é mencionado esse fato da extração desse petróleo, como se ninguém estivesse sabendo. A maior enrolação desse papo furado foi o de sugerir que os lucros do petróleo sejam revertidos para investimentos em projetos de energia limpa.
Antes da COP, Lula bradou contra as exigências do Ibama com relação à perfuração de petróleo e justificou que a vizinha Guiana estava ganhando muito dinheiro com o combustível e que o Brasil também tem o direito de também fazer o mesmo. Dentro dessa ótica, ninguém quer parar de extrair petróleo, enquanto isso ficam no discurso leviano de reduzir o processo.
Os cientistas estabeleceram 1,5 graus como limite de aquecimento, para que não se perca o controle sobre os desastres que levariam fatalmente à destruição da humanidade através das catástrofes geradas pelas bruscas mudanças climáticas. Aí é que está o nó da questão quando sabemos que caminhamos para um aumento maior da temperatura, insuportável para o planeta.
É difícil acreditar nessa proposta de usar os lucros do petróleo para aplicar na energia limpa, principalmente no Brasil onde essa verba a mais reservada ao Tesouro (uma grande parte fica com os acionistas) é utilizada para cobrir os déficits fiscais ou desviada para outros setores, como cobrir rombos de empresas estatais. Quer enganar a quem com esse papo?
Por outro lado, a população só aumenta e, em consequência, o consumo e a demanda por mais energia, o que indica que vai virar um ciclo vicioso e nunca vai se parar de perfurar petróleo. Se um país vizinho está obtendo lucros com o petróleo, o outro também quer, visando crescer sua economia. É aí que os pactos e acordos assinados nessas conferências são para “inglês ver”. Não sou otimista quanto a um futuro de estabilização do clima.
Há mais de 60 anos que se vem falando em se acabar com a extração de combustíveis fósseis, caso do petróleo e do carvão, só que de lá para cá só aumentou nos países do Oriente Médio e, principalmente, por parte dos ianques imperialistas que atualmente atacam outras nações na cobiça do petróleo e outros minerais raros, como vem fazendo o estúpido negacionista Donald Trump.
Será que eles estão querendo enganar a natureza, como se estivesse dando um pirulito para uma criança? Esta não se deixa enganar, não perdoa as agressões e dá o troco na medida certa, como vem ocorrendo com as tragédias de grandes proporções em todas as partes do planeta.
A natureza está nos alertando há muito tempo que bastam de poluição, sujeiras, gazes tóxicos, incêndios, desmatamentos e que aqui não é lixeira dos consumistas de supérfluos. Está nos alertando que já começou o aquecimento global. Quem viver, verá mais catástrofes e mortes.
Somado a tudo isso ainda temos um bando de negacionistas poderosos, governos e multinacionais, que compram cientistas para alardear o falso de que aquecimento global não passa de uma falácia. O pior é que milhões ou bilhões desta velha terra maltratada e ultrajada, sem o menor senso crítico, acreditam neles porque são doutores e seus argumentos fazem parecer “convincentes”.
O CICLO DO GADO E OS VALENTÕES
Por muitos séculos os nordestinos, acossados pelas secas intermitentes e cruéis, nas lutas com os índios, pela falta de ordenamento dos governantes, sem lei e justiça, longe dos litorais e a conviver com o banditismo, viveram em total isolamento apegados ao misticismo religioso, suas crenças e suas culturas.
Sobre o flagelo das secas, vários narradores traçam cenas de terror. O padre Joaquim José Pereira, do Rio Grande do Norte, escreve que, além da seca, apareceu nos sertões do Apodi uma tal quantidade de morcegos, que mesmo à luz solar, atacavam as pessoas e os animais, já inanidos pela fome. Homens, mulheres e crianças eram encontrados mortos e moribundos pelas estradas. Entre os mortos, encontravam-se miseráveis ainda vivos prostrados no chão, cobertos pelos vampiros.
Frederico Pernambucano de Mello, em “Guerreiros do Sol”, um estudioso do Nordeste e do cangaço, nos narra que, “quando em fins do século XVII e ao longo do século XVIII a necessidade de expansão colonizadora empurrou o homem para além das léguas agricultáveis do massapê, projetando-se no universo cinzento da caatinga, fez surgir um novo tipo de cultura cujos traços mais salientes podem ser resumidos na predominância do individual sobre o coletivo”.
O homem passou a ser condicionado pelo cenário agressivo que é o sertão. Ele experimentou sobreviver através das plantações, mas foi vencido pelas secas. Então, partiu para a criação do gado, criando assim um novo ciclo que fez surgir os valentões nas figuras dos cabras, dos capangas, dos jagunços, dos pistoleiros e dos cangaceiros.
O escritor Graciliano Ramos escreveu em um dos seus livros que, “sendo a riqueza do sertanejo, principalmente constituída de animais, o maior crime que lá se conhece é o furto de gado. A vida humana exposta à seca, à fome, à cobra e à tropa volante, tinha valor reduzido – e pior que isso, o júri absolve regularmente o assassino. O ladrão de cavalo é que não acha perdão. Em regra, não o submete a julgamento, matam-no”.
Na verdade, o maior crime no sertão naquela época era roubar cavalos e bois. Para o ladrão, só restava a morte e de forma sangrenta. Aliados ao misticismo, ao culto da coragem e o apego ao direito de propriedade, os sertanejos estabeleciam um quadro de violência do ciclo do gado.
O viajante holandês Adriaen Verdonck constatou, em 1630, que na região próxima ao rio São Francisco, os moradores possuíam muito gado, que era principal riqueza e constituía na melhor mercadoria destas terras.
Além das intempéries do tempo e outros fatores adversos, os nordestinos tiveram que enfrentar uma guerra desesperada contra os índios, os verdadeiros donos daquelas terras, expulsos das zonas litorâneas.
Como exemplo, Frederico de Mello nos conta a luta que Teodósio de Oliveira Ledo teve que levar a cabo no início do século XVIII contra as nações tapuias, dos pegas e dos coremas, para se estabelecer com sua gente nos campos de Piancó (Paraíba). Essa guerra chegou a durar mais de 10 anos contra cerca de 10 mil indígenas.
O ciclo do gado também teve que enfrentar o felino. “A onça faz dura guerra a todos os gados do sertão”, escreve Fernando Denis, na primeira metade do século XIX. Esse animal, que atacava os rebanhos, foi exterminado pela bravura dos nordestinos.
Diante das guerrilhas indígenas, dos facínoras poderosos, o nordestino se tornou num homem desconfiado e exposto a emboscadas dos temidos “tiros de pé-de-pau, ou dos que dormiam na pontaria.
Frederico de Mello cita diversos autores, como Câmara Cascudo que chama a atenção para a carta régia de 1701 pela qual os criadores, em divergência com os plantadores de cana e mandioca, viram-se obrigados a procurar no sertão terras diferentes das exigidas por essas culturas
Este fator respondeu pelo incremento da internação sertaneja ao longo do século XVIII, tendo que enfrentar temperaturas infernais. A carta régia determinava que o criatório só poderia fundar-se para além de uma faixa de dez léguas da costa.
O autor de o “Guerreiros do sol” faz um paralelo sobre o ciclo do gado no Nordeste com a epopeia norte-americana da conquista do Oeste, quando relata que “quanto mais demorada tenha sido a fase cruenta de um processo de colonização, tanto mais duradoura se mostrará a permanência de hábitos violentos que não mais se justificam”.
O sertanejo sofreu uma estagnação em sua evolução por conta do isolamento em que esteve secularmente relegado. Sobre a questão dos valentões, Mello destaca a impressão que teve o viajante Henry Koster. Em sua visão, esses valentões eram homens de todos os níveis, cujo serviço consistia em procurar oportunidades para lutar. Onde chegavam, nas feiras ou nas festas, eles amedrontavam as pessoas.
Para o escritor paraibano José Américo de Almeida, o cangaceiro originou-se da instituição do guarda-costas, como uma necessidade de defesa das fazendas ameaçadas pelo gentio. Segundo ele, quando o cabra era despedido, sua reação era procurar um bando, mas historiadores contestam esta tese.
“O emprego do capanga, do cabra e do jagunço fez-se largamente no Nordeste ao longo de todo o ciclo do gado, nas questões de terra, nas lutas de famílias e, de modo particular, nas disputas políticas” – descreve Frederico de Mello.
Mais uma vez, Mello cita, o folclorista Câmara Cascudo, quando escreve que o sertão foi povoado dos fins do século XVII para o correr do século XVIII, por gente fisicamente forte e etnicamente superior.
Diz ele que esse nordestino enfrentava os índios, que não tinha medo de morrer nem remorso de matar. “As famílias seguiam o chefe que ia fazer seu curral nas terras povoadas de paiacus, janduís, panatis, pegas, caicós, nômades atrevidos, jarretando o gado e trucidando os brancos”.
Os sucurus, panatis e os coremas nutriam ódio contra os portugueses que tomaram seus lugares marítimos. Em contrapartida, eles se levantaram em todas as partes contra os sertanejos que não se sentiam seguros.
ECONOMIA CRIATIVA E CULTURAL
Mais do que economia criativa, o evento realizado pelo instituto da Clínica São Lucas, organizado pela médica Rosa Aurich, nos dias 7 e 8 de novembro, no Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima, foi também cultural, com uma programação plural, envolvendo artesanato, apresentação teatral de alunos de escolas, como o Juvêncio Terra, e shows musicais, inclusive com a participação do músico e compositor Alisson Menezes. Dentro da programação coube uma roda de conversa sobre a Serra do Periperi, só que o tempo foi curto para se falar sobre essa faixa de terra em torno de Vitória da Conquista, que durante anos foi depredada pelo homem através da extração de areia, pedras e outros materiais utilizados, principalmente, na construção civil. Com uma vegetação baixa e maltratada, a Serra já foi uma mata como bem descreveu o príncipe alemão Maximiliano, em visita ao Arraial Imperial da Vitória, em 1817. Da Serra hoje só resta o Poço Escuro, cuja preservação ainda deixa a desejar. Além de abrigar o Cristo erguido pelo escultor Mário Cravo, um centro de proteção de animais, torres de operadoras de telefonia, rádio e televisão; ser cortada pelo Anel Viário e abrigar moradores pobres em suas encostas, a Serra tem suas histórias e personagens que nela habitaram, como o escultor Cajaíba que se inspirou para esculpir figuras importantes do cenário nacional e internacional. Foi uma programação plural, mas muita coisa deixou de ser dita nessa roda de conversa, como a de que a cidade tem uma grande dívida para com a Serra do Periperi.
CÂMARA DE VEREADORES HOMENAGEIA O CENTENÁRIO DE JOSÉ PEDRAL
Na semana do aniversário dos 185 de Vitória da Conquista a ser comemorado no próximo dia 9, a Câmara de Vereadores prestou ontem (dia 06/11/25), em sessão solene, uma homenagem pelo centenário de nascimento do ex-prefeito José Pedral, cujos trabalhos foram abertos pelo parlamentar Dudé.
O ato foi dedicado a reconhecer a trajetória política e o legado de desenvolvimento deixado por Pedral ao longo de seus três mandatos à frente do executivo municipal, que começou a partir de 1963, após sua eleição em 1962, quebrando uma oligarquia que já vinha há anos governando Conquista.
Durante a sessão, a Câmara fez a entrega do Diploma de Mérito José Fernandes Pedral Sampaio pela Lei de número 2.551/2021, aos profissionais da construção civil. Foram homenageadas as arquitetas Márcia Cristina Pinheiro Prado e Ana Maria Correia Gonçalves, bem como os engenheiros Nudd David de Castro, Fernando Gomes de Oliveira, José Marcelino Rosa e Silva e Leandro de Aragão Gomes Fonseca.
Estiveram presentes a prefeita Sheila Lemos Andrade, o vice-prefeito Aloísio Alan, Paulo Pedral representando a família, professor Durval Menezes que escreveu o livro “O Pedralismo”, José Willian de Oliveira Nunes que ocupou diversos cargos nos mandatos do homenageado, o presidente da OAB/Conquista, Gutemberg Macedo, a ex-vereadora Irma Lemos, dentre outros.
DIVISOR DE ÁGUAS
Uma data que não pode passar em branco em Vitória da Conquista. No dia 12 de setembro de 1925 nascia José Fernandes Pedral Sampaio que, se vivo fosse, estaria completando 100 anos. Por três vezes prefeito, Pedral foi um divisor de águas e um marco na história administrativa, econômica, social e política de Conquista.
O professor Durval Menezes disse que Pedral sempre pensou grande desde jovem. Como estudante em Salvador foi líder estudantil e presidente do diretório do Grêmio da Faculdade de Engenharia da Universidade Federal da Bahia.
Nasceu na casa do seu avô “coronel” Gugé e, aos sete anos, foi estudar em Santo Antônio de Jesus. De lá partiu para Salvador onde fez a Faculdade de Engenharia Civil, na Universidade Federal da Bahia. Ainda jovem, com novos ideais contrários às suas origens oligarcas, retornou à sua terra natal e se candidatou a prefeito, em 1958, perdendo as eleições.
Em 1962, porém, se elegeu ao cargo aos 37 anos como o mais jovem prefeito. Não quis o destino que completasse o seu mandato porque se deparou com uma pedra no meio do seu caminho, no caso a ditadura-civil-militar de 1964, que cassou o seu mandato em seis de maio daquele ano.
Mesmo assim, nesse curto período, Pedral colocou em prática seus ideais socialistas, erguendo obras que beneficiaram os mais pobres, como o serviço de drenagem de escoamento das águas no Bairro Jurema que sempre sofria com os alagamentos em épocas de chuvas.
O mais novo prefeito apoiou as reformas de base defendidas pelo Governo Jango que, por seu intermédio, chegou a visitar Conquista, em 1963. Sua intenção maior era trazer muitos benefícios para o município, como uma barragem de abastecimento de água. Por se colocar ao lado de um governo federal que já era alvo de um golpe militar, pagou um alto preço.
Em seis de maio de 1964, as tropas militares do capitão Bendock invadiram a cidade e Pedral foi um dos primeiros presos políticos porque o novo regime o considerava subversivo e comunista. Nesse mesmo dia, na base da força, foi deposto de forma ilegítima. Logo depois ele teve seus direitos políticos cassados por 20 anos.
Nos bastidores, Pedral soube conduzir os avanços da cidade idealizando obras, como na área do saneamento básico, que depois vieram colocar Conquista como a terceira maior cidade da Bahia. No meado dos anos 80 foi novamente eleito pelo povo e depois secretário de Transportes do Estado durante a gestão do governador Waldir Pires.
Seu terceiro mandato se deu em meados dos anos 90, mas não foi bem-sucedido porque não contou com o apoio do Governo do Estado e alguns de seus secretários mancharam sua imagem de grande administrador e político sério e honesto.
Apesar de todas as dificuldades, Pedral deixou sua marca com obras estruturantes, como o Viaduto do Guarani, o Terminal de Ônibus da Lauro de Freitas, a Ceasa, dentro outras de grande porte, sempre com uma visão futurística, resolvendo, antecipadamente, os problemas de Conquista.
Como jornalista, não poupei críticas, mas sempre respeitou a democracia e não foi meu algoz. Fez suas ponderações e queixas, como em sua entrevista a mim concedida durante a elaboração do livro “Uma Conquista Cassada – cerco e fuzil na cidade do frio”, última obra lida por ele aos 89 anos no leito de morte.
Nesse centenário dos 100 anos, Pedral continuará sempre lembrado pelas antigas e novas gerações por ter deixado um grande legado para Vitória da Conquista, principalmente como um político ético, sério, honesto e honrado, predicados estes escassos nos tempos de hoje.
“A GIRAFA DOS PASSARINHOS”
(Chico Ribeiro Neto)
Crianças dizem coisas maravilhosas, engraçadas e impressionantes. Minha neta Gabriela, então com 6 anos, perguntou a meu filho Mateus: “Pai, será que um dia a gente vai morar em outro planeta?”
O sobrinho de uma amiga, com 5/6 anos, subiu num banquinho e foi futucar o armário do banheiro. O armário despencou lá de cima, quebrando tudo, e foi aquela zuadeira. Aflita, a mãe bateu na porta do banheiro, que estava trancada, e gritou para que ele abrisse. Ileso, sem nenhum ferimento, ele abriu só um pouquinho da porta e disse: “Nada não, mainha, foi mentira do barulho”.
O pediatra e escritor Pedro Bloch publicava toda semana na revista “Manchete”, nas décadas de 60/70, a coluna “Criança diz cada uma”, com falas engraçadas de crianças que ouvia no consultório e que recebia de pais e mães de todo o Brasil.
Essas falas renderam depois vários livros, entre eles o “Dicionário de Humor Infantil – Frases de crianças de 8 a 12 anos”, lançado em 1997. Registro aqui alguns verbetes desse dicionário:
“Alegria é um palhacinho no coração da gente”
“Amar é pensar no outro, mesmo quando a gente nem tá pensando”.
“Avestruz é a girafa dos passarinhos”.
“Boca é a garagem da língua”.
“Calcanhar é o queixo do pé”.
“Cobra é um bicho que só tem rabo”.
“A Europa fica mais longe que a Lua. A Lua eu vejo”.
“Tenho mais medo de avião que de escuro. É que escuro não voa, nem cai”.
“Nevoeiro é a poeira do frio”.
“”Relâmpago é um barulho rabiscando o céu”.
“Saudade é quando uma pessoa que devia estar perto está longe”.
“Strip-tease é mulher tirando a roupa toda, na frente de todo mundo, sem ser pra tomar banho”.
“Veias são raízes que aparecem no pescoço das meninas que gritam”.
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)


















