FICA MAIS CLARO NO ESCURO
(Chico Ribeiro Neto)
Faltou luz hoje no meu prédio. Vai ser das 8 às 18 horas, para trocar a central de energia.
Aí lembrei que, ainda pequeno (6/7 anos) peguei o sistema da “luz do motor” em Ipiaú (BA), onde nasci. A luz desligava às 21 horas e só voltava na manhã do dia seguinte.
Tava na hora de acender os candeeiros, um na cozinha, um na sala e cada um num quarto. Havia também o famoso “Aladim”, que alumiava a casa toda, mas nem todo mundo tinha condição financeira de ter. O “Aladim” tinha uma tal de “camisa” que quando queimava a gente tinha que ir correndo comprar outra. O rádio continuava tocando, porque era ligado a uma bateria de carro, e a geladeira continuava funcionando, pois era movida a querosene.
As crianças adoravam quando faltava energia, principalmente quando tio Rubens contava histórias de assombração. Também era hora de fazer figuras com as mãos diante da vela que projetava as sombras na parede. O bicho mais fácil de fazer era o cachorro, mas tinha quem sabia fazer gato, coelho, caranguejo e até dinossauro.
Houve um tempo também em que, durante uma semana, só tinha luz à noite em metade da cidade, ficando a outra metade para a próxima semana, num rodízio do breu. Meu pai Waldemar tinha padaria e, na semana em que faltava luz na nossa metade, ele dava pra gente umas cédulas que passavam na padaria, daquelas “pedaço de um, pedaço do outro” (as melhorzinhas) e mandava a gente ir na sorveteria logo depois que a luz era desligada. A gente ia com uma panela, enchia de picolés, dava o dinheiro ao atendente que estava à luz de velas, e se picava.
Teve o caso de Zé, um homem casado, que morava numa outra cidade do interior da Bahia que também tinha “luz de motor”. Ele foi no brega e depois de várias “pingas” e uma bimbada, agarrou no sono.
As lâmpadas da casa piscavam três vezes, às 20:50, para avisar que dentro de 10 minutos a luz seria desligada. Mas Zé a essa altura não piscava mais nada. Quando acordou, às 23 horas, deu um grito de espanto: “Vixe, a luz já foi embora! Preciso ir pra casa”. Chegou em casa, a mulher roncava e ele, morto de sono, só fez tirar a calça e apagou na cama. Acordou cedo com os gritos da mulher: “Zé, que diabo é isso? Tu tá de calçola?” Na pressa de sair logo do brega, ainda grogue da cachaça e já agoniado, no escuro total que nem breu, Zé vestiu a calçola de algodão da prostituta. E admitiu logo que era coisa do Demo: “Vixe, mulher, só pode ser feitiço! Eu juro que deitei de cueca! Isso é arte de alguém que quer ver a gente separado. Vixe, não pega não, mulher! Faz mal! Temos que tocar fogo logo nisso!”
A mulher de Zé, que morria de medo de feitiço do Diabo, levou a calçola na ponta de uma vassoura para o quintal. Se benzeu 3 vezes e tocou fogo na calçola do Capeta, Zé rezando do lado. Jogou a vassoura novinha no lixo e rezou três Pai Nosso.
Já adulto, na Redação do jornal A Tarde, faltou energia uma noite e um colega deu uns gritinhos finos e histéricos. O saudoso poeta Béu Machado arrematou: “É no escuro que as coisas ficam mais claras”.
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