Falecido nesta quarta-feira (dia 20/07), com 88 anos, o professor Ubirajara Brito, quando vivo, concedeu entrevista ao jornalista Jeremias Macário para seu livro “Uma Conquista Cassada-cerco e fuzil na cidade do frio”, publicado pela Assembleia Legislativa da Bahia, por intermédio do deputado Fabrício Falcão, e lançado em 2013.

LIGAÇÕES POLÍTICAS EM MINAS GERAIS

Ubirajara Brito nasceu na pequena Tremedal, no sertão do sudoeste baiano, mas foi adotado em Vitória da Conquista onde estudou no respeitado e admirado Ginásio Padre Palmeira. Frequentou também o Colégio Estadual da Bahia entre os anos 1951/55. Formou-se engenheiro civil pela Universidade Federal da Bahia-UFBA aonde chegou a ser professor. Ajudou a construir um dos trechos da BR-101, no início dos anos 1960, em Sergipe. Passou um tempo exilado na Europa e foi ministro de Governo.

O professor e cientista Ubirajara Brito, nascido por volta de 1934, desenvolveu suas ações políticas em Minas Gerais, precisamente na cidade de Nanuque onde seu tio era prefeito. Por suas ligações no Governo de João Goulart chegou a ser consultor durante suas viagens à Bahia.

Foi preso como subversivo, em Minas Gerais. Ubirajara confirmou que Jango lhe conferiu poderes para trabalhar no nordeste de Minas Gerais, na coordenação de obras em alguns municípios da região, inclusive com apoio do então governador Magalhães Pinto. Ele conta que em Nanuque, os adversários contra o governo da República eram perigosos, e o PSD era reacionário e alienado. Tratava-se de um partido dos grandes fazendeiros.

Em Nanuque e Juiz de Fora

Após o golpe civil-militar, em razão de suas atividades do passado na Bahia, o professor respondeu ao IPM – Inquérito Policial Militar, em Nanuque, sendo depois processado em Juiz de Fora. Como Ubirajara era filiado ao PCB, entre 1956 até 1964, sua situação se complicou. Em abril daquele ano foi preso pelo DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) de Belo Horizonte, ficando até junho de 1964, incomunicável por 20 dias. Não houve tortura física, mas muita luz na cara e pressão psicológica.

Com certa ironia, “Bira” como é conhecido, narra que os agentes tinham certo temor da sua família por ser nordestina. Eles (os militares) faziam ligações com pistolagem e cangaceirismo. Em Minas Gerais, o homem da Companhia da Polícia era o capitão Silvio Souza que, para disfarçar de sua função era presidente da Associação Cultural Brasil/Estado Unidos. Por coincidência, havia sido delegado em Nanuque e conhecia nosso pessoal. O capitão sempre questionava que havia atividades subversivas no nordeste de Minas (Bandeira), no Espírito Santo e extremo sul da Bahia.

Em sua versão do militar, em Minas Gerais, o comandante era Ubirajara Brito. Na verdade, “Bira” aponta que existiam três bases revolucionárias que contavam com respaldo de Cuba, “mas eu não tinha ingerência”. Diziam também que eu fundei e comandei o “Grupo dos Onze”. Em Nanuque existia essa agremiação, mas informa que foi criada pelo secretário municipal da Educação e pastor da Igreja Presbiteriana. Havia ainda os núcleos do PCB, PC do B (ligados aos soviéticos) e dos brizolistas com afinidades com Cuba que fomentavam a reforma agrária, mas com poucos recursos.

Ubirajara não foi solto por ato jurídico. Em tom irônico afirma que chegaram à conclusão de que estava dando muitas despesas. “Por isso me mandaram ir embora”. Depois de libertado, como era normal naquela época, o professor passou uns tempos sobressaltado e se escondeu na fazenda de seus pais. O pior era a boataria de que seria novamente preso. Para não ser detido de surpresa, resolveu fugir altas horas da madrugada num avião de um amigo para Foz do Rio Doce. De lá seguiu para Salvador (final de 1964) onde procurou a Universidade Federal para trabalhar, mas não deu certo.

No pós 1964, em se tratando do pessoal de Vitória da Conquista, Ubirajara recorda que só teve ligações clandestinas com Franklin Ferraz Neto, em São Paulo. Revela que, sem uma ocupação, viu com tristeza Franklin (nomeado juiz do Trabalho) se transformar num fotógrafo de binóculo com seu primo, na capital paulista. Na época, Franklin estava apaixonado por uma moça de Poções e planejava ir para o exílio casado com ela. Terminou se casando, mas não saiu do Brasil porque morreu logo – como informa Ubirajara.

Sobre outros contatos em Conquista, o professor cita Everardo de Castro e Hemetério Pereira, presidente do Comitê Local do PCB. Com relação a Pedral Sampaio, assinalou que sua relação era de muito tempo antes do Golpe.

FUGA E “BOI DE PIRANHA”

Antes de sair o decreto de sua prisão preventiva (a ordem foi passada para o Quartel da VI Região), “Bira” foi para o exterior, em 1965, seguindo o roteiro de Feira de Santana – Vitória da Conquista, Rio de Janeiro e São Paulo. Ubirajara revelou que tinha um informante que lhe passou as coordenadas sobre sua prisão. Para sua fuga do país, o Partido Comunista o ajudou. Com muita sutileza para despistar a atenção dos agentes federais, tomou um avião para a Itália indo depois para Paris onde ficou até 1974 e foi professor de Geofísica Nuclear na Universidade D´Orsey – segundo Campo Científico.

Explicou que sua amizade com Oscar Niemayer se deu no Brasil, antes do exílio, e em Paris (1966) onde também estava Waldir Pires que ensinava Direito Constitucional Comparado em Dijon, distante 150 quilômetros da capital. Era uma situação ingrata – lamenta Ubirajara, adiantando que Waldir teve que estudar muito, pois sabia pouco francês quando foi para lá.

Seu retorno ao país, em 1974, conforme assinalou, foi montado através de um acordo entre o general Ernesto Geisel e Jango, utilizando alguns exilados como bois-de-piranhas, incluindo seu nome na lista. Na posse da presidência, Geisel mandou um emissário, comandante do Estado Maior, acompanhado do jornalista Castelo Branco, conversar clandestinamente com Jango. A negociação foi um teste que fazia parte da distensão lenta, mas não poderiam voltar o padre Lage, Leonel Brizola, Miguel Arraes e Francisco Julião (chefe das Ligas Camponesas).

Jango não aceitou o esquema, mas, mesmo assim retornaram 10 ou 20 exilados. Ubirajara fez a viagem de navio até Salvador onde um tenente o interrogou e recomendou para não fazer mais declarações. Disse que ao desembarcar sentiu não existir mais movimentos, só saudosistas. “Ia sempre para o Rio de Janeiro conversar com Niemayer”. Da capital foi para sua fazenda no extremo sul da Bahia e, como professor, começou a procurar trabalho, inclusive na UFBA, mas nem o setor privado abriu as portas. Como não tinha alternativa, Ubirajara passou a criar porcos, fazer farinha, requeijão e vender jaca.

Depois de uma temporada nessa labuta, resolveu criar uma empresa de agrimensura, isto até 1981. A partir daí decidiu em 1982 ser candidato a deputado estadual pela Bahia. Não deu certo. Em 1983, Tancredo Neves se elege governador de Minas Gerais e convidou Ubirajara para trabalhar com ele. Em 1984 Tancredo renuncia ao governo do estado para ser candidato nas Diretas Já, através do Colégio Eleitoral.

De acordo com sua história política, Tancredo o levou para Brasília. Nesse ponto, Ubirajara interrompe a entrevista para fazer questão de dizer que sua carreira inicial na administração pública não tem nada a dever à Bahia. No entanto, abre uma exceção para o deputado Carlos Santana por ter lhe convidado para ser chefe da Assessoria Técnica do Governo da Constituinte no período de Sarney na Presidência da República, que assumiu no lugar de Tancredo Neves após sua morte.

Em 1987 ocupou o cargo de superintendente de Ciências Básicas do CNPq (Conselho Nacional de Pesquisa), e depois Sarney o convidou para ser secretário Geral no Ministério da Educação, isto em 1988, chegando a ser ministro da pasta. No final do Governo Collor, por intermédio de ACM (Antônio Carlos Magalhães) e Ângelo Calmon de Sá, foi secretário executivo do Ministério da Ação Social e ministro por pouco tempo.

No governo de Itamar Franco foi ser diretor-executivo das Pioneiras Sociais (Rede de Hospitais Sarah). Logo depois, durante cinco anos ocupou a função de secretário de Planejamento do Ministério da Ciência e Tecnologia, incluindo uma parte do governo de Fernando Henrique Cardoso.

CONTRA A LUTA ARMADA

Sobre os movimentos da luta armada no Brasil a partir do final dos anos de 1960, Ubirajara diz que, apesar de admirar Che Guevara e respeitar quem participou do processo, não concorda com a teoria do guerrilheiro, nem daqueles que fizeram a mesma coisa no país.  Em sua opinião, tudo não passou de um foquismo importado de Debret, com a ideologia de fomentar a revolução a partir de focos espalhados no território com pretensão de derrubar o regime.

Para ele, deu certo em Cuba porque a concentração era grande, e o governo estava desmoralizado. Não se tratava, conforme sua análise, da nossa questão que era um país diferente, inclusive em termos territoriais. Declarou ter se sentido humilhado em Paris numa reunião entre jovens que defendiam essa teoria. Por discordarmos (ele e outro grupo), nos chamaram de revisionistas.

“Não era a luta armada que iria salvar o nosso problema. A ditadura sabia de todos os movimentos e iria nos destruir”. Referindo-se à estratégia do PCB, criado em março de 1922, citou que estava se fazendo um trabalho pacífico. Aí entraram as organizações armadas com as dissidências, a partir de 1966, que foram todas esmagadas pelos militares. – Depois disso, o regime se voltou contra a gente (PCB) na chamada Operação Limpeza, ou Operação Radar (1973/76) – aponta Ubirajara que relaciona as prisões e as torturas ocorridas na fronteira com o Uruguai.

Em sua interpretação, o governo não provoca, responde à provocação. Ubirajara só esqueceu de dizer que logo após o golpe de 1964 a repressão foi dura contra o PCB, inclusive com perseguições, brutalidades e mortes. O “Partidão” só foi resguardado pelos militares entre os anos 1968/73 porque estava no encalço feroz dos grupos armados.

Só para rememorar, o PCB já estava clandestino desde 1947, depois da Segunda Guerra Mundial. E os torturadores devem ser punidos? “Bira” entende que a vingança não tem mais sentido, e completa que ela foi feita quando o pessoal das lutas pela democracia voltou e ocupou o poder. Por sua vez, destaca que quase todos torturadores morreram, restando apenas uns “velhos gagás” como Newton Cruz e Brilhante Ustra (falecidos). “Não tenho nada a cobrar”.

“OS MILICOS QUE SE LASQUEM”

E a abertura dos arquivos da ditadura? Ubirajara considera ser necessária para que a história seja corrigida já que ela foi deturpada durante mais de 20 anos. Desabafa que o golpe de 1964 destruiu toda uma cultura armazenada ao longo dos anos na sociedade. “Os milicos que se lasquem no Brasil”. Até antes estava se construindo uma cultura no teatro, no cinema, na literatura e na política através dos diretórios acadêmicos e da UNE (União Nacional dos Estudantes), interagindo com os sindicatos e os operários. Tudo isso, na visão do professor, era a construção da cultura brasileira que os militares acabaram em 1968. Do AI-5, de 1968, aponta o Decreto 477 que expulsava qualquer jovem do colégio ou da universidade, com alegação de manifestações políticas e atos considerados por eles como subversivos.

A partir de 1968, Ubirajara define a juventude como uma geração sem cor, pálida e perdida que meteu na cabeça o ideal americano: O importante é vencer pessoalmente. Até hoje se trabalha com esta geração do conceito de que a questão é vencer “e o resto que se lasque.” A solidariedade acabou, a amizade desapareceu, desabafa. Em tom de tristeza e melancolia, alfineta que qualquer jovem atualmente queima a bandeira brasileira por um bom emprego numa multinacional. “É uma geração alienada” – denuncia, adiantando que para reverter este quadro, só com decência.

Em sua análise sobre os tempos atuais (final do século XX e início do século XXI), Ubirajara não poupa também a mídia, afirmando se tratar de um segmento alienado que, infelizmente, faz a cabeça da opinião pública. Coroando toda essa alienação lá está o Congresso Nacional – descarrega sua artilharia. “Continuo no PCB. O partido foi que se acabou. Não sou mais filiado porque as fichas sumiram”.