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:: 5/maio/2022 . 23:45

A VOLTA DA SECA

Choveu bastante em Vitória da Conquista no final do ano passado e até nos primeiros dias de 2022, mas basta uma curta estiagem para a seca voltar com toda força nos distritos do semiárido do município. Aliás, a maior parte do perímetro de Conquista é caatinga, que não se sustenta com um ou dois meses de sol após uma chuvarada. A terra volta a estorricar, o sertanejo perde suas lavouras e a água se evapora rápido dos tanques, como o da foto clicada pelo jornalista Jeremias Macário, lá pelas bandas de “José Gonçalves”.  Do verde, a paisagem muda de cor para o cinzento, e os carros-pipas retornam a cortar as estradas poeirentas para matar a sede humana e dos animais. É assim a vida de quem labuta no sertão. O solo não aguenta sustentar as chuvas por muito tempo, e tudo volta novamente, como se fosse um castigo dos céus. No entanto, a esperança, a fé e a vontade de continuar tentando nunca se acabam. Foi-se a lama nas estradas e voltou a poeira que sempre persiste por mais tempo, principalmente com o aquecimento global que o próprio homem provoca com sua maligna insensatez de se autodestruir.

O CATINGUEIRO

Um soneto de Jeremias Macário, do seu livro ANDANÇAS

O catingueiro é tempestade do tempo e do vento;

Calmaria da caatinga de cor queimada do sol poente;

No sangue traz a seiva do mandacaru em pedregulhos;

Da seca, o sofrimento que o faz mais forte-resistente.

 

O catingueiro é cheiro da terra molhada e rachada;

Verde ou cinzenta, prosa cismada e desconfiada;

Poeira do sol a pino no arrasto do cabo da enxada;

Capanga cheia de sinais das nuvens das trovoadas.

 

O catingueiro carrega no corpo mãos calosas e espinhos;

Na alma, a sagrada palavra da prometida profecia,

De um Deus penitente, sem ler a escrita da sabedoria.

 

Pergaminho do sertão, cortando vereda e caminho;

Irmão da lua, esperança noturna, fé a lavrar todo dia;

Bicho do mato, tabaréu emboscado pela demagogia.

LIBERDADE E DEMOCRATIZAÇÃO DA MÍDIA

Nas comemorações do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa (03/05) deve-se também se fazer uma reflexão sobre a democratização dos meios de comunicação no Brasil, que ainda estão nas mãos de poucos grupos de empresas, as quais têm sempre procurado manipular a informação a favor de seus interesses.

Nos últimos anos, pouco tem se comentado sobre esse tema democratização dos veículos, tão importante como meio de evitar a prática de um jornalismo tendencioso e parcial, descambando até para fake news disfarçadas, que os leigos não percebem. Nesse balaio, tem pontuada a mídia alternativa, mas logo é sufocada pelos poderosos, e termina com vida curta.

Todos de bom senso defendem a liberdade de imprensa, mas ela só se torna completa com a democratização, o que se torna difícil no sistema capitalista de monopólio e oligopólio onde só os fortes sobrevivem. É ingênuo imaginar liberdade absoluta e independência total quando um jornal, um rádio, uma televisão ou um simples blog depende de anúncios oficiais ou do setor privado para continuar circulando e funcionando.

Para acontecer essa liberdade mais ampla, da qual estamos falando, só os instrumentos do cooperativismo ou coletivização entre as pessoas da sociedade tornariam o veículo mais livre para expressar seus pontos de vista, com imparcialidade. Infelizmente, não se tem essa cultura na área jornalística num país que só visa o lucro do capital.

Para se criar esse ambiente de democratização da mídia, teria que se ter uma consciência mais culta em favor da liberdade, de modo a cooperar com o veículo pequeno para que ele não seja obrigado a se tornar refém dos órgãos públicos. Sem o coletivo, vamos cair no jornalismo “chapa branca”.

Diante do exposto, digo que essa liberdade é mambembe e maquiada pelos grupos que detém a maior fatia no bolo publicitário. Na Bahia, por exemplo na capital, o Jornal da Bahia tombou diante da pressão de um governo autoritário. A Tribuna da Bahia também sofreu seus ataques e esteve à beira da falência.

Por que se diz por aí que a linguagem da grande mídia, resumida em quatro tentáculos poderosos, é burguesa, que não fala para o povo? Não temos um jornalismo popular. Portanto, essa liberdade, da qual tanto desejamos, não é completa. Na verdade, o que existe mesmo é um disfarce onde as ameaças e os ataques são dirigidos aos trabalhadores jornalistas, as maiores vítimas desse jogo de poder.

Sobre essa violência, a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) aponta que entre 2019 e 2021 o total de casos desse tipo contra jornalistas no Brasil somou 1.066 ocorrências, número bem maior do que a soma de todos os episódios registrados pela entidade de classe entre os anos 2010 e 2018, que totalizam 1.024 situações.

Existe sim uma escalada de violência que aumentou mais ainda nesse governo do capitão-presidente, que não respeita o operário da informação em seu papel que, quase sempre, segue a linha editorial da empresa da qual pertence. Falar em liberdade, tem também que se falar de democratização dos meios de comunicação, totalmente voltados para atender os anseios da população mais enfraquecida.





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