:: 31/maio/2022 . 22:51
UM GOL COM SABOR DE DESFORRA
Carlos González – jornalista
Ao marcar, aos 13 minutos do 2º tempo, o gol que deu o 14º título de campeão da Europa ao Real Madri, o brasileiro Vinicius Júnior não podia imaginar que estava reativando um conflito, que já dura três séculos, entre Espanha e Grã-Bretanha, cujo alvo é Gibraltar ou The Rock, um cabo, dominado por um rochedo com 426 metros de altura, no Mar Mediterrâneo, ao sul da Península Ibérica. A disputa por esse e outros territórios ultramarinos – são 15 no mundo – da Commonwealth, “onde o sol nunca se põe”, tem se refletido nas disputas esportivas.
Para nós, cidadãos espanhóis, a vitória de um clube ou da seleção diante de adversários ingleses tem um significado muito mais relevante. Provavelmente, catalães e bascos, que sonham em se separar da Espanha, não partilhem do mesmo sentimento.
Na sua trajetória até o título, com o apoio de cinco jogadores brasileiros, o conjunto madrilenho derrubou três expoentes do futebol britânico: Manchester City, Chelsea e Liverpool.
A indignação que sentem os espanhóis contra aqueles que, em pleno século 21, praticam o estúpido colonialismo, é dividida com os argentinos, que não contavam com a reação da Grã-Bretanha, quando tentaram reaver o arquipélago das Malvinas, que dista 480 km do sul do continente sul-americano, e desde 1833 seus governadores são escolhidos em Londres.
O espírito patriótico da Junta Militar que governava a Argentina foi respondido com dureza pela Dama de Ferro, a primeira-ministra Margaret Thatcher (1925-2013). A Marinha e a Força Aérea da rainha derrotaram nossos vizinhos em dois meses (de 21 de abril a 14 de junho de 1982), com o registro de 649 militares portenhos mortos e 255 britânicos. Após o fim do conflito, a sangrenta ditadura argentina, implantada em 1976, durou só um ano, deixando mais de 30 mil famílias enlutadas.
“Com um gol da mão de Deus e outro do pé do Capeta”, a Argentina derrotou a Inglaterra nas quartas-de-final da Copa do Mundo de 1986, no Estádio Azteca, na Cidade do México. O jogo simbolizou para os sul-americanos uma revanche da guerra das Malvinas, quatro anos mais tarde. Havia na época e permanece até hoje uma atmosfera de ódio entre jogadores (em campo, Maradona foi marcado com faltas violentas) e torcedores (barras bravas e hooligans trocaram socos nas proximidades do estádio, com saldo negativo para os ingleses, sendo que alguns deles tiveram de ser hospitalizados).
Poucos antes de morrer, Diego Maradona, autor dos dois gols, sendo que o segundo foi escolhido como o “gol do século”, declarou que “o clima da partida fez parecer que íamos participar de outra guerra”. Sobre o gol de mão, disse: “Foi tão rápido que o juiz de linha não percebeu. O árbitro olhou pra mim e disse “gol”. Foi uma sensação agradável, como uma espécie de vingança simbólica contra os ingleses”. E finalizou: “Na verdade, o povo argentino foi iludido pelos militares, que divulgavam outro cenário da guerra”.
Voltando a Gibraltar, o território ultramarino tem uma enorme importância econômica, geopolítica e militar para o Reino Unido. Distante 13 kms. da costa espanhola, com uma área de 6,8 km², Gibraltar foi fundamental para as vitórias dos aliados nas duas grandes guerras, e atualmente abriga uma base aeronaval da Otan.
A atividade econômica de Gibraltar se concentra no suporte (reabastecimento e reparo) aos 85 mil cargueiros em viagens para a Europa, África e Ásia, que atravessam anualmente o estreito, reduzindo tempo e despesas. A maioria dos seus 30 mil habitantes ganha a vida no porto e nas docas, e residem em cidades espanholas.
Ao longo dos anos, a Espanha tem procurado negociar, solicitando a mediação da ONU, a soberania de Gibraltar, mas seus diplomatas esbarram na índole belicosa e colonialista dos britânicos. Há poucos dias foi conhecido um documento do Ministério da Defesa, onde o primeiro-ministro Boris Johnson se compromete a empregar a força militar para defender colônias e territórios, citando as Malvinas e Gibraltar, ressaltando que medidas eficazes devem ser tomadas para impedir a presença de navios de guerra espanhóis no estreito.
EDUCAÇÃO, CORRUPÇÃO E FOME
Alguém poderia até indagar o que um tem a ver com o outro. Tem tudo, e ainda poderia acrescentar a violência. Se a criança não tem educação, ela vai crescer pobre e viver de bicos e na informalidade pelo resto da vida. Será sempre um “Zé Ninguém” ou vivo-morto. Dificilmente, esse mercado irá absorvê-lo. A corrupção rouba o dinheiro que deveria ser aplicado na educação e, sem ela, vem a fome e a miséria que hoje assolam mais de 50 milhões de brasileiros.
Ouvi muitas vezes falarem que o Brasil necessitaria de 20 anos priorizando a educação, para o Brasil entrar na esfera do desenvolvimento sustentado, como fizeram outros países como a Coreia do Sul, Japão, Finlândia e outros tantos. Tivemos praticamente esse tempo nos governos do PT, e continuamos patinando e sendo uma vergonha nacional e internacional nos índices de reprovação escolar.
Para dizer a verdade, que poucos gostam de ouvir, nenhum governante colocou a educação em primeiro lugar, mas o populismo das cestas básicas do Bolsa Família. Comida no prato é essencial, mas se não vier com uma educação básica de qualidade para todos, a danada da fome vai permanecer a bater nas portas com sua caveira e foice da morte.
E a corrupção? Ela é a mais mortal e carrasca porque deixa um rastro de destruição na alma humana, mesmo que se tenha a educação como meta de investimento. Seu estrago pode ser detectado em todas as partes, como na falta de mais recursos para a saúde, o saneamento básico, a segurança e para realizar políticas públicas sociais.
O sujeito pode ter recebido um bom ensino, ser instruído e rico e ser um safado corrupto, caso do Brasil, cuja maldita vem lá de cima e contamina até as camadas mais pobres. Mas alguém poderia perguntar, por que isso acontece? Responderia que a atual educação do faz de conta e a formação familiar estão degeneradas e podres. Praticamente, todo cesto de frutas está bichado.
Como resultado de tudo isso de ruim e nojento, temos uma sociedade depravada e promíscua, passando de avós para país e de pais para filhos, com o um só intuito de se tirar proveito em tudo, não importando que isso vá gerar fome e mortes. As desigualdades sociais profundas são apenas consequências desse cenário de lento massacre humano, não tão perceptível como numa guerra onde as bombas esquartejam e fulminam corpos.
A negação da educação e a prática da corrupção poderiam levar seus responsáveis aos tribunais como réus considerados a crimes de guerra e pegarem, pelo menos, prisões perpétuas, mas isso no Brasil da impunidade é impensável e utópico. Então, sem educação e com a corrupção, infelizmente, só nos restam mais fome e uma infância perdida nas ruas. O populismo, seja de direita ou esquerda, só nos tem a oferecer um paliativo, como um analgésico que alivia a enxaqueca por algum tempo, mas não cura a doença.
É inconcebível viver num país onde esse quadro da falta de educação, da corrupção e da fome faz parte das nossas vidas e se transformou numa rotina como se fosse tudo normal. O pior de tudo isso é o silêncio dos “bons” e todos acharem que não têm culpa nessa desgraça. A imagem que passa, não somente lá fora, é que o Brasil é um caso perdido, e não me venham com essa de pessimista e espírito de derrotado.
Jamais uma ditadura, porque a situação só iria se agravar sem o mais precioso da vida que é a liberdade, essa que me faculta o direito de dizer o que estou escrevendo. No entanto, a verdade, é que estamos ainda bem longe de uma democracia ideal e desejada, quando convivemos ainda, lado a lado, com essa educação mambembe, com a corrupção e a fome que ceifa a vida de milhões, sem falar na estúpida violência que compete em superioridade com a morte natural.
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