Alguém aí ouviu eu falar cultura?

Dizem ser essa economia criativa;

O homem arrastando enxada,

Papo da comadre e do compadre,

Cantoria no mutirão do adjutório,

A pegada da parteira,

A folha benta da rezadeira,

Os versos do Assaré Patativa,

A batida do martelo na noite calada,

O som do violino e do violoncelo,

Boiada e foice cortando roçado.

 

Cultura! Cultura!

Um banquinho, voz e violão,

Pena imaginativa da literatura,

A vida no campo ou na cidade,

Vênia do súdito à sua majestade,

Luta pela liberdade de expressão.

 

Cultura! Cultura!

Está em tudo que se faz,

Na lida atrás daquele monte,

Onde o índio faz sua dança;

É água da primeira fonte,

Mergulhar no desconhecido,

Transgredir o “proibido proibir”,

Dar sentido à sua andança.

 

Cultura! Cultura!

Maracatu, Congo, Ternos de Reis,

Canção, violar, forrozar e sambar;

Embolada de nó, sarau e repente;

Cordel nas feiras do varal;

Inventar uma nota de três;

Ser sal e aceitar o diferente;

Viajar pelos mistérios do Além Mar.

 

Cultura! Cultura!

É o Baobá do africano,

A gameleira do baiano,

O atabaque no terreiro do orixá,

A tradição do cigano,

A arte do escrever e pintar,

E zelar da terra e do mar.

 

Cultura! Cultura!

Luz, lente, cinema e imagem;

Está na batida da palha do feijão;

Ternura, bravura e razão.

 

Cultura! Cultura!

Está no canto da poesia,

Nos editais da burocracia,

Nos relatórios e falatórios,

Na fome do conhecer,

No maldito corte da censura,

No saber traçar sua travessia,

Sou eu, o outro e você.