Brasilino da Silva Santa Cruz, depois de 200 anos de ser testemunha de tantas barbaridades, de encontros e desencontros, avanços e retrocessos, finalmente estava contente em poder celebrar o bicentenário da independência do seu país, mas ficou estupefato e horrorizado com o que viu, mais para cena de terror do que homenagem pela magna data do seu povo.

Eu, que nasci há 200 anos atrás, vi com os próprios olhos que um dia a terra há de comer, que o cara capitão-presidente negacionista deu um surto psicótico e diabólico – desabafou o próprio Brasilino, que ficou, por um instante, praticamente mudo de tanta indignação.

Meninos eu vi! Estava lá no asfalto misturado àquela multidão de gente e presenciei atos de ódio, de intolerância, de racismo, machismo, misoginia, homofobia e tantos outros malefícios saídos daquela boca, do alto de um palanque eleitoral, sem nenhum pudor e respeito ao Dia da Nossa Pátria.

Foi horrível, meu amigo! Eu vi e ouvi tudo! Disse-me Brasilino cabisbaixo, triste e envergonhado. Se não fosse ele a me contar, confesso que não acreditaria, diante de tantas mentiras e fake news soltas por aí. É uma pura verdade, porque tudo foi registrado pela sua máquina do tempo.

“Eu nasci há 200 anos atrás” e nunca vi um presidente surtar tanto, justamente no bicentenário do grito da “Independência ou Morte”, quando a festa deveria ser cívica e civilizada, e não de xingamentos de campanha eleitoral. Um atentado flagrante que deveria ser punido com o rigor da lei”.

Foram estas as palavras amargas de repúdio ditas por Brasilino, entre uma talagada e outra de pinga, e olha que ele não é muito de beber, a não ser para comemorar as coisas boas da vida. Sem dúvida, será um dos capítulos mais macabros que a história irá escrever sobre nossa nação – profetizou.

Com seu sentimento peculiar de tristeza e sinceridade, Brasilino afirmou que nos seus 200 anos de existência nunca viu tamanha estupidez e agressão. O pior de tudo foi quando ele leu os cartazes dos extremistas raivosos, inconsequentes e fanáticos, os quais pediam ditadura das forças armadas, fechamento do Supremo Tribunal Federal e do Congresso. Ele viu militares, evangélicos e talibãs.

“O bobo da corte a tudo aplaudia. Um circo de enlouquecidos, um bando de ensandecidos raivosos, cães das estepes” – foi assim por ele pintado o quadro de horrores que acabara de ver. Logo o velho Brasilino que estava animado em festejar o bicentenário da sua vida.

Com sua idade já avançada e calejado de ver tantas desgraças, maldades, violências hediondas e injustiças por aí, em suas longas andanças, Brasilino voltou a entrar em profunda depressão de tanto escutar, nesse sete de setembro, os montes de contradições e paradoxos em nome de Deus, da pátria e da família brasileira.

Apenas pronunciou que nasceu há 200 anos atrás e não tinha mais vontade de continuar a existir. Preferiu o silêncio e, com sua expressão de protesto, repreendeu duramente quem lhe fez mais perguntas sobre o que viu no Bicentenário da Independência.

Simplesmente pegou sua surrada mochila e avisou que ia sumir para uma terra bem distante, talvez morar numa caverna qualquer nesse ermo de mundo. Pediu para que ninguém lhe procurasse mais.